5.4 Presence Study
5.4.2 Methods
A Vila do Bonifácio localiza-se a 30 km de Bragança, com acesso por via terrestre, pela PA-458 que liga Bragança à Praia de Ajuruteua, na Comunidade Campo do Meio. Bonifácio é uma das três comunidades nessa área. As demais são Campo do Meio e Vila dos Pescadores. A vila faz parte do polo Ajuruteua na estrutura da cogestão da RESEX.A seguir, um mapa da vila com a sua localização na RESEX (Figura 8).
Figura 8 – Mapa da Vila do Bonifácio e sua localização na RESEX
Nota-se no alto da imagem (Figura 8) o trecho da PA-458, que segue para o norte, em direção à comunidade de Campo do Meio, na praia de Ajuruteua. A via que segue em direção sudeste, atravessa a vila do Bonifácio (centro da imagem), termina na Vila dos Pescadores, às margens do Atlântico. Essa via é a única rua de terra firme, denominada de Rua Principal (Figura 9), as demais são de areia, incluindo áreas alagáveis (Figura 10).
Figura 9 – Rua Principal Figura 10 – Rua paralela à Principal
Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015) Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015)
Segundo os moradores antigos, as primeiras famílias a ocupar a área vieram da Vila dos Pescadores, cujas moradias estavam sendo afetadas pela erosão marinha. Houve então um movimento para ocupar uma fazenda para o assentamento dessas famílias. Maneschy (1995) documentou em sua dissertação de mestrado (1988), com o título “Ajuruteua, uma comunidade Pesqueira Ameaçada” a vida dos pescadores dessa comunidade, na qual “[...] chama a atenção para os impactos de fatores que estão ameaçando a permanência da comunidade”, segundo Lourdes Gonçalves Furtado no prefácio do livro citado.
Maneschy (1995) afirma:
Levanta-se, pois, entre os moradores, sugestões de um novo local, para onde poderiam ser transferidos, com a ajuda do poder público. Cogitam em uma área chamada Ilha do Bonifácio, localizada na própria ilha de Ajuruteua, a cerca de 4 quilômetros da vila. Porém, esbarram num fato novo: o lugar para onde pretendem ir já mudou de estatuto jurídico e fugiu às normas tradicionais de apropriação. Ele foi ocupado por uma empresa imobiliária, que aí desenvolve um projeto de loteamento. Existe alguma mobilização dos moradores para que o Estado desaproprie a área ou promova algum acordo com os ocupantes, visando garantir a transferência (1995, p. 8 e 9).
O trabalho da pesquisadora se reverte de fundamental importância para este estudo uma vez que documenta a história da formação da vila atual e permite a elaboração de análises na perspectiva histórico-social das transformações no modo de vida dessa comunidade de pescadores. Ainda, segundo a autora, na ilha do Bonifácio, décadas antes, havia a produção de sal, onde funcionava uma espécie de salina pertencente aos proprietários
da ilha e considerados fundadores da comunidade, a família Melo. Há atualmente, marcas identitárias da família Melo na Vila do Bonifácio. O sobrenome Melo é o segundo mais frequente na comunidade, apenas atrás dos Silva. A escola da comunidade se chama Domingos de Souza Melo, provavelmente descendente da família proprietária. Assim, muitas relações poderão ser encontradas nessa perspectiva.
Corroborando esses dados, um dos moradores antigos narra sua experiência na ocupação da vila:
Nasci na Vila dos Pescadores, de Ajuruteua e, eu tenho parte na fundação dessa vila aqui. A gente invadiu essa ilha e eu, consequentemente, estava presente nessa invasão. Foi liderada por um rapaz, inclusive,ele quase foi preso. É um processo de erosão muito comum nas praias, como tá acontecendo ali na praia de Ajuruteua, isso há muito tempo atrás começou na Vila dos Pescadores que é uma vila, por sinal, muito linda e a gente sofreu esse processo, essa degradação lá e a gente foi obrigado a se transferir pra cá, pra essa ilha, era até então abandonada. Primeiro a gente procurou os recursos que a gente achava que seriam possíveis pra adquirir a ilha pra se transformar numa Vila, e a gente conseguiu invadir ela. Fomos pra justiça, na época era o Sr. M. P., dono de uma imobiliária – Araçari Florestal, ele tinha comprado essa ilha e do Campo do Meio, depois ele vendeu o Campo do Meio, largou, mas a gente teve que ganhar na justiça
(M. S. R., 45 anos).
Ainda sobre a fundação da Vila do Bonifácio, o morador acrescenta:
A família Melo, eles vieram da cidade de Sobral – CE e fundaram a primeira praia de Ajuruteua. Essas duas famílias, a Souza e a Melo vieram na época de uma grande seca no Ceará e eles acabaram por fundar essa comunidade pesqueira aqui. Uma parte que era pescador, outra parte que gostava de agricultura foi trabalhar na agricultura na área de Tijoca, Peritoró, por aí. Eu sei que deu origem a família dos Monteiro, que hoje, inclusive, tem o vice-prefeito de Bragança, é dessa família também. Esse Domingos de Souza Melo criou gado aqui há muito tempo atrás. Ele e o irmão dele, o G. M., têm um gado ainda aí que é do filho do G. M., do tio L. M. e depois eles deixaram aqui, eu num sei, era pouco o gado, o gado morreu, teve um tempo que teve uma invasão de morcegos e matou esses gado. Eu era um rapaz de uns 14 anos [...] Tinha muita cabra na Vila dos
Pescadores e morreu muita cabra por causa desses morcegos. Isso fez com que eles abandonassem a cultura do gado e o que remanesceu foi esse aí do tio L. M. (M. S. R., 45 anos).
A Vila do Bonifácio conta com equipamentos sociais como a Escola Municipal Domingos de Souza Melo (Figura 14), o Posto de Saúde (Figura 15), a praça na entrada da vila, o centro comunitário, uma igreja Católica, duas igrejas Evangélicas, açougue, bares, pequenos casas de comércio de variedades.
Figura 11 – Praça da vila e pavimentação da
PA-458 antes das férias escolares Figura 12 período de férias escolares– Praça da vila revitalizada pós-
Fonte: Pesquisa de campo (abr. 2015) Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015)
Vale uma ressalva para destacar a importância do turismo para a vila, expresso, entre outras, pela maneira como essa se prepara para receber os turistas nas férias. A Figura 11 mostra a praça da comunidade em abril de 2015, período em que se encontrava sem nenhum equipamento de lazer e sem manutenção. Mostra também um fragmento da pavimentação da PA-458, sem manutenção. Um dos pontos críticos dessa PA encontrava-se no perímetro da Vila de Bacuriteua, que dá acesso à Vila do Bonifácio, inviável ao tráfego de veículos, obrigando os motoristas a fazerem um desvio por dentro de Bacuriteua. A Figura 12 mostra a praça em agosto de 2015, um mês após o período de férias escolares quando o fluxo de turistas é maior para as praias oceânicas da região. As mesmas ocorrências foram observadas em melhorias na pavimentação asfáltica da PA-458, em agosto de 2015, conforme mostra a Figura 13.
Figura 13 – Revitalização da PA-458 período pós-férias escolares
Figura 14 – Vista parcial da Escola Domingos
de Souza Melo Figura 15 – Posto de saúde de Ajuruteua na Vila do Bonifácio
Fonte: Pesquisa de campo (abr. 2015) Fonte: Pesquisa de campo (abr. 2015)
Possui também projetos sociais como o PROJOVEM, que funciona no centro comunitário (Figura 16), e o projeto Arca das Letras alojado na casa da representante comunitária (Figura 17).
Figura 16 – Centro comunitário/PROJOVEM Figura 17 – Projeto Arca das Letras
Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015) Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015)
Faz parte da infraestrutura da Vila do Bonifácio o fornecimento de energia elétrica pela rede pública. Dentre os jovens entrevistados esse serviço atende 100% das moradias, com instalação de medidor individual. Em duas casas, a energia elétrica é uma extensão feita da casa dos pais ou dos sogros, ambas ficam no mesmo terreno da família. Esse tipo de arranjo na infraestrutura doméstica reflete a rede de apoio que a família representa para o jovem casal (Tabela 1).
Tabela 1 – Energia elétrica na Vila do Bonifácio
ENERGIA ELÉTRICA FREQ. %
Sim 57 100,0
Não 0 00,0
TOTAL 57 100
Fonte: Pesquisa de campo (2015)
A Vila do Bonifácio não possui água potável, em razão do solo arenoso, situação considerada entre os jovens como o principal problema da comunidade. A vila localiza-se em área marinha, com terreno arenoso dificultando a captação de água potável. De acordo com a Tabela 2 os moradores usam duas modalidades de captação de água: a) 80,7% utilizam a água encanada de poço artesiano com bomba para uso geral e para beber compram água potável; b) 19,3% usam o poço artesanal conhecido como “boca aberta” (Figura 18) que fornece água para afazeres domésticos, porém imprópria para o consumo humano e compram água potável para beber. A água potável é comprada em garrafões de um fornecedor local ou em Bragança. Assim como a energia elétrica, em alguns casos a água é compartilhada entre familiares, que utilizam o poço da mãe, do pai e da avó, de parentes e de vizinhos.
Tabela 2 – Água potável na Vila do Bonifácio
ÁGUA POTÁVEL FREQ. %
Água encanada de poço artesiano para uso
geral e água para beber comprada 46 80,7 Água de poço artesanal para afazeres
domésticos e água para beber comprada 11 19,3
TOTAL 57 100
Fonte: Pesquisa de campo (2015)
Alguns moradores recorrem ao uso alternativo de coleta da água da chuva (Figura 19).
Figura 18 – Poço artesanal Figura 19 – Captação de água da chuva
Existe uma armação para instalação de uma caixa d‟água comunitária (Figura 20), que não está concluída. Segundo um dos moradores, houve problemas de gestão e de dificuldade em encontrar água potável no solo. Houve também mobilização da comunidade junto ao poder público municipal, considerando que o maior problema apontado pelos entrevistados é a falta de água potável na vila, porém, até o momento da pesquisa de campo, sem resultados. O custo social para os moradores é alto, pois necessitam comprar água potável, o que torna consideravelmente oneroso para as famílias com crianças e idosos, mais vulneráveis a doenças. Um dos moradores deixou a pesca para se dedicar a venda de água potável (Figura 21).
Figura 20 - Armação para instalação de uma
caixa d’água comunitária Figura 21 – Venda domiciliar de água potável
Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015) Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015)
Segundo um dos moradores antigos, o maior problema da falha no funcionamento da caixa d‟água foi a escolha do local, inadequado para a captação de água potável. Para outro morador, existe solução para o tratamento da água, a partir de uma experiência que vem sendo implementada na escola local. Ele afirma:
Isso aí foi desviado todo o recurso que veio pra fazer isso aí e, infelizmente não chegou até nós ainda essa água [...] Aqui na escola os técnicos da
FUNASA instalaram um filtro, muito bom o filtro, muito boa a ideia, só que a Secretaria de Saúde ficou de arcar com o cloro e com o material pra tirar o odor da água, sulfato de alumínio, eu acho, que é pra tirar o ferro da água. E quando tratada, fica boa, até de beber água daqui da escola, mas agora infelizmente [...] No dia que eles vieram fazer o teste a Secretaria de
Saúde trouxe um pouco de sulfato de alumínio e cloro, mas agora infelizmente [...] (M. S. R., 45 anos).
Na Vila do Bonifácio as instalações sanitárias, segundo os jovens entrevistados, são de três tipos: a) 89,5% é fossa externa; b) 7% possui fossa com instalação até o interior da casa, com equipamentos de sanitário e banho, mais comum nas casas construídas pelo Crédito Moradia, INCRA; c) 3,5% são buracos no solo com proteção de madeira, plásticos e similares. Tal como a energia elétrica e a água, há 5,3% de jovens que usam as instalações sanitárias da casa dos pais, sogros, parentes (Tabela 3).
Tabela 3 – Instalações sanitárias na Vila do Bonifácio
SANITÁRIO FREQ. %
Fossa externa 51 89,5
Fossa externa – banheiro na casa 4 7,0
Fossa comum – casinha 2 3,5
TOTAL 57 100
Fonte: Pesquisa de campo (2015)
O destino do lixo na Vila do Bonifácio varia desde a coleta pública até a queima. Em 56,2% dos domicílios dos jovens entrevistados, o lixo doméstico é recolhido pela coleta pública, contudo, segundo os entrevistados, essa coleta é irregular. Para alguns, o carro da coleta de lixo passa duas vezes por semana, para outros, passa uma vez e ou não tem regularidade o que torna difícil despojar o lixo na frente da casa para coleta. Assim explica o jovem: O lixo a gente ajunta e o carro só passa dia de sábado, a gente bota ai na frente e o carro leva (R. M. S., 25 anos).
Outra dificuldade é que o carro da coleta trafega apenas na rua Principal, nas demais, que são de areia, os moradores devem levar o lixo até essa rua, no dia da coleta, conforme explica o jovem: A gente guarda aqui porque o carro passa, acho que duas vezes na semana, às vezes uma. A gente fica aguardando aí quando passa pra lá, a gente coloca ali na estrada que ele não entra aqui (C. W. C. M., 22 anos). Assim também confirma a jovem: A gente vai amontoando e, quando ele passa, ele leva. Só que é difícil ele passar, mas quando ele passa é lixo que num acaba mais (T. R., 20 anos).
O correspondente a 15,8% queima o lixo no próprio quintal, utilizando várias técnicas desde a separação de resíduos orgânicos que servem para alimentar os animais de estimação e criação, os materiais com potencial de reutilização e as folhas que são colocadas ao redor das plantas. O que sobra é queimado em pequenos buracos no solo. Em 3,5% o lixo é jogado no manguezal e também para 3,5% usam duas modalidades: coleta pública e queima, como mostra a jovem: O de ferro a gente bota pro carro levar, o de folhas a gente bota nos pés das plantas, as vezes queimamos e o saco plástico eu mesmo faço questão de queimar (L. F. M., 20 anos). A parcela de 21% não forneceu esse dado (Tabela 4).
Tabela 4 – Destino do lixo na Vila do Bonifácio
DESTINO DO LIXO FREQ. %
Coleta pública 32 56,2
Queima no próprio quintal 9 15,8
Joga no mangal 2 3,5
Queima e/ou coleta pública 2 3,5
Sem informação 12 21,0
TOTAL 57 100
Fonte: Pesquisa de campo (2015)
O solo arenoso, bem visível na Figura 22, também não permite a prática da agricultura, o que mantém a vocação pesqueira no mar, nos rios e lagos.
Figura 22 – Vista parcial da rua do Meio – Vila do Bonifácio
Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015)
Contudo, para as mulheres a atividade pesqueira é restrita à “pesca na pancada”, realizada na praia e nos rios, à coleta de mariscos (marisqueiras), à coleta do caranguejo, atividade que faz acompanhada de um parceiro(a) nas áreas mais próximas à vila e, ao trabalho pós-captura, ou seja, preparar o peixe para o consumo doméstico e, na catação do caranguejo (massa do caranguejo). Essas atividades são realizadas paralelamente ao cuidado com os filhos e as tarefas domésticas. Pode-se dizer que como extensão do trabalho doméstico são chamadas a realizar atividades também “domésticas” nas pousadas, restaurantes e bares na praia de Ajuruteua como auxiliares de cozinha, bandejeiras (arrumam os pratos nas bandejas) e garçonetes.
Embora o trabalho da mulher ainda seja, na sua maior parte, considerado como de “ajuda” ao trabalho do homem – marido, pai, irmão, filho pescador ou coletador de caranguejo –, o pescador não consegue realizar todo esse trabalho sem a presença da mulher.
Em evento20 realizado em 6 de julho de 2016 com moradores e usuários de toda a RESEX, essa situação veio à tona, conforme explica um dos participantes:
Eu acho mais bonito o casal se reunir e ir pro manguezal porque tem mulher que num vai e num sabe o „couro‟ que o homem passa, o trabalho é pesado. Então, a mulher que vai ela sabe „- Meu marido, ele lutou pra nós criar os filho!‟. É uma coisa triste, o homem passar por uma dificuldade o dia inteiro, pega uma furada, uma coisa, olha aí o que vai passar sema mulher? Eu que trabalhei 33 anos nesse serviço e, naquele tempo não tinha o que tem hoje - sapato, calça comprida, luva, a gente ia nuzinho mesmo, arriscado muitas das vezes o mandii no saco da gente ...[risos](Sr. A.).
Ainda sobre a participação da mulher, uma das participantes narra sua trajetória e o lugar que ela ocupou ao lado do marido pescador:
O meu esposo, ele era, agora ele não está mais exercendo porque ele tá com 65 anos e ele não tem mais saúde pra trabalhar no manguezal. Vocês sabem que o manguezal traz dificuldade pro trabalhador. Ele fez parte do trabalho do manguezal desde os 12 anos, criei meus filhos tudo na luta lá junto com ele, ao lado dele e lutando na tiração do caranguejo [...] a luta que nós
enfrentamo, tanto as esposas e os marido. Ele trabalhava lá no caranguejo e eu trabalhava em casa, mas trabalhava também no arroizal, lá dentro do manguezal [...] Criamos os nosso filhos lutando, com o suor do dia a dia.
Hoje os nossos filhos sabem as dificuldades que tivemos pra criar eles [...].
Em 77 eu cheguei aqui nessa Bragança, eu não morava aqui, eu trabalhava de roça quando eu era pequena, com idade de 7 anos comecei a ajudar meus pais na colônia e de lá com 13 anos eu casei e vim embora pra cá e desde 77 eu enfrento dificuldade com meu esposo no manguezal. [Mulheres vão ao manguezal?] Vão, vão! (M. F., 56 anos – Acarajó – Comitê Piçarreira). As falas das mulheres participantes do encontro atestam a presença da mulher não somente como apoio ao homem pescador, mas também envolvida na pesca. Assim uma delas se expressa: A gente tira caranguejo, amoré, pesca siri, tira turu, tudo isso a gente faz lá [no manguezal] [...] Nós mulheres, acho que a gente vive inserida dentro desse trabalho (Sra. E., moradora da RESEX).
As falas mostram que se subtraísse a mulher desse trabalho, ele não aconteceria. A mulher está presente antes, durante e depois da ida ao manguezal. Antes, a mulher, entre outras, confecciona o vestuário do caranguejeiro – a roupa, tece o sapato, a luva e prepara os apetrechos. Durante, acompanha o homem e também coleta mariscos, tira o caranguejo, carrega os apetrechos e ajuda no transporte do que foi coletado. Depois, a preparação do marisco, na catação da massa do caranguejo para venda, nos cuidados com a casa e com os filhos. A mulher também participa no gerenciamento dos recursos da família e trabalha nos pequenos roçados e na criação de pequenos animais.
É possível também identificar que quando os adultos levam as crianças para o manguezal para “ajudar” está ocorrendo uma socialização para o trabalho. A criança é então inserida nas atividades que os pais realizam. Dessa forma aprendem desde cedo como atuar nesse campo de trabalho e, como será apresentado nos capítulos seguintes, terminam por instituir o habitus do pescador e/ou caranguejeiro.
Cultura na Vila do Bonifácio
A cultura, “[...] espaço de criação humana e marca de sua distinção em relação aos demais seres, foi o campo fértil de constituição das ciências do social” (MANESCHY, 2003, p. 137), é um traço marcante nas duas vilas estudadas e reconhecida pelos jovens. De fato, para 61,4% dos jovens moradores da Vila do Bonifácio, a cultura é bastante expressiva na comunidade. Apenas 7% dizem não ter cultura e, 31,6% não souberam informar (Tabela 5).
Tabela 5 - Cultura na Vila do Bonifácio
CULTURA NA VILA DO BONIFÁCIO FREQ. %
Tem 35 61,4
Não tem 4 7,0
Sem informação 18 31,6
TOTAL 57 100
Fonte: Pesquisa de campo (ago. 2015)
Segundo os jovens há um leque de manifestações culturais que incluem as festas religiosas frequentes e envolvem a população católica, estimada em 80% dos moradores, segundo o líder comunitário. Considerada uma tradição, a festividade de Nossa Senhora de Fátima ocorre no terceiro domingo de maio, conforme explica o jovem: Eu sou da frente, participo da Igreja, sou vice coordenador da comunidade católica e aí a gente comemora aqui a festividade de Nossa Senhora de Fátima (L. F. L., 28 anos). Segundo um dos entrevistados essa festividade é um evento que atrai turistas para a vila.
Outra festividade igualmente importante é a de São Pedro. Segundo os moradores é uma das festas religiosas mais antigas e mais importantes na vila, em razão de São Pedro ser padroeiro e protetor dos pescadores. É realizada na Vila dos Pescadores em 29 de junho, com procissão fluvial. Contudo, vem ocorrendo mudanças nessa cultura religiosa, conforme explica o jovem a seguir:
A cultura pode se dizer que é pessoal, tamo perdendo a cultura daqui da vila. Antes os moradores acho que 90% eram católicos e eles davam valor à cultura das procissões fluviais, que sempre existia lá na outra praia [Vila dos Pescadores] e de uns tempos pra cá, justamente esse ano que passou,
agora a procissão fluvial de São Pedro eu fui acompanhar, tinha poucas pessoas da vila, só umas conhecidas, pouca gente. O pessoal perderam o
valor pela cultura da vila, justamente era isso, é a festa religiosa o povo se reunia pra comemorar aquela data, hoje tá difícil (C. G. A. B., 26 anos). Uma das jovens entrevistadas atribui a perda da tradição em razão da Vila dos Pescadores ter tido uma enorme erosão que fez com que os moradores mudassem, ela explica: