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CHAPTER 3: Method of data collection

3.2. Methods of data collection

Ambas as imagem apresentam as terras que eram cultivadas pelos membros da família Bortoluzzi, situadas próximas a casa onde residiam, na comuna de Piavon. Fotos pertencentes ao arquivo particular do professor Ulderico Bernardi, Treviso, Itália.

Tentando explicar a adesão maciça à imigração para a América no distrito de Oderzo, Luis Bailo acrescentava que a ideia que seduzia as famílias camponesas era aquela de se tornarem proprietárias de terras e fazer fortuna com pouco trabalho. Assim, o camponês Paulo Bortoluzzi, juntamente com outros pequenos proprietários e arrendatários que o seguiram, foram considerados “fanáticos”, “ambiciosos” e “ignorantes”, e não miseráveis ou desocupados.241 Partindo de Piavon com suas devoções e objetos religiosos, parece viável acreditar que eles objetivavam fundar uma nova comunidade no sul do no Brasil onde, então, vivenciariam suas crenças e práticas piedosas, disporiam de recursos para garantir a coesão, reprodução e prosperidade econômica dos grupos familiares. As opiniões dos contemporâneos – como a do ex-secretário comunal de Piavon e a do senador Luis Revedin – em relação à emigração dos camponeses que seguiram Bortoluzzi não eram unânimes. Os diferentes pontos de vistas permitem perceber as várias perspectivas de uma mesma realidade, muito embora a leitura daquele momento tenha sido feita durante o processo emigratório. A partir dos testemunhos oculares daquele tempo, independentemente da diversidade de opiniões, se pode apreender os projetos e as expectativas dos próprios camponeses, algo somente possível de ser alcançado quando se analisa as escolhas e experiências específicas dos indivíduos.

Os primeiros grupos de emigrantes que partiram da região do Vêneto, a exemplo daquele coordenado por Paulo Bortoluzzi, devem ser estudados levando-se em conta um quadro de estratégias parentais e redes de apoio local complexas. A emigração como resultado de uma desordenada fuga de miseráveis do campo e como consequência do processo de industrialização é uma ideia um tanto equivocada. Inicialmente, emigravam aqueles que podiam, principalmente por possuírem uma sólida rede parental e recursos materiais, fazendo das transferências uma forma de investimento familiar e estratégia de gerenciamento das oportunidades.242 A análise de casos particulares ajuda a entender o quanto o processo emigratório estava relacionado a um complexo jogo de escolhas locais e mecanismos que cada indivíduo e família podiam acionar. E esse método analítico permite compreender os motivos da saída dos camponeses da Província de Treviso.

Assim, independentemente da maneira como tenham partido, liderando amplos grupos de camponesas ou, ainda, apenas acompanhando a família – constituída de esposa e filhos – os motivos de cada um variavam. Muitas vezes podiam estar relacionados a conflitos com conhecidos, envolvimento com a justiça ou a outros prejuízos morais e materiais. Podiam

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Resposta do senador Luiz Revedin. In: Relação final do Ateneo de Treviso, Luis Bailo, 1878, Pasta 13, fascículo 2, ACTV.

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Sobre essa ideia ver Giovanni Levi: “Famiglia e parentela: qualche tema di riflessione”. In: BARBAGLI (1992, p. 307-321).

emigrar clandestinamente por causa de dívidas e perseguições, conforme se constata em relação ao contadino Domenico Bortollo (51 anos), habitante da comuna de Loria (TV) acusado de dever a um negociante o valor de 180 liras. Acompanhado da esposa e de quase todos os noves filhos, Bortollo foi preso em Gênova, em novembro de 1888, enquanto aguardava embarque para a América. O emigrante, antes de partir do lugar, realizou contrato de venda de todas as posses e bens que possuía, transferindo-os para dois dos filhos que permaneceram residindo na comuna. Em relação à dívida, Bortollo defendeu-se afirmando que o credor Domenico Reginato havia roubado produtos agrícolas de sua casa antes dele decidir emigrar. Porém, Bortollo era acusado de ter feito o mesmo, causando dano de 200 liras ao oponente seu denunciante.243 A existência de acordos privados não cumpridos e divergências entre os indivíduos impediu que Bortollo e a família embarcassem para a América, tendo que retornarem para a comuna para responder em juízo pelas acusações. Tal processo indica o quanto o caminho da emigração era uma escolha também ligada às dificuldades de relacionamento entre conhecidos, causadas por dívidas ou outras dificuldades que geravam violências de todo tipo.244

Retornando à trajetória do camponês Paulo Bortoluzzi, viu-se anteriormente que o mesmo articulou a viagem de grande grupo de parentes e conhecidos de forma consciente, partindo com recursos financeiros próprios e uma rede de relações su ficientes para se tornar “chefe de uma colônia”. Assim, suas iniciativas não podem ser compreendidas sem levar em conta os compromissos e obrigações morais firmados com as famílias que acordaram em se transferir juntas para o sul do Brasil. Na sequência irá se apresentar o desempenho de Bortoluzzi após a chegada do grupo à colônia Silveira Martins. Interessado na prosperidade coletiva, mas, também, familiar e individual, foi um dos fundadores do Vale Vêneto.

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Denúncia. Processo verbal, Pretura de Castelfranco Vêneto, 1889, Busta 272, nº 187, AETV. 244

Passados os primeiros anos da emigração, em março de 1887 no Jornal Gazzeta di Treviso, foi divulgada uma reportagem da partida para a América de duzentos e cinquenta indivíduos pertencentes ao distrito de Oderzo. De acordo com o periódico, entre o grupo se encontravam dois indivíduos que haviam abandonado suas

esposas “grávidas” no cárcere de Oderzo. Ambas tinham sido condenadas por terem insultado o delegado, provavelmente em alguma manifestação contra a “falta de alimento” e dificuldades de sobrevivência enfrentadas

pelas famílias. As mulheres autoras dos insultos se apresentaram na manifestação carregando um filho em um dos braços e no outro um instrumento de trabalho, conforme constatado em investigações policiais.

“Emigração”. In: Jornal Gazzeta di Treviso, 13 de março de 1887, ACTV; Denúncia. Processo verbal, Pretura de

2.6 Um imigrante empreendedor

Ao chegar à Colônia Silveira Martins no início de 1878, o imigrante Paulo Bortoluzzi adquiriu diversos lotes de terras coloniais no local onde seria fundado o povoado do Vale Vêneto.245 Posteriormente, em 1886, vendeu pequenas dimensões destas propriedades aos padres palotinos, convidados a se estabelecer na comunidade.Também realizou empréstimos financeiros aos sacerdotes.246 A fim de garantir a independência e progresso da comunidade, concedeu casa para a instalação das irmãs do Sagrado Coração de Maria, em 1892.247 Para além dessas concessões que visavam beneficiar a comunidade do Vale Vêneto, constatou -se a sua presença no mercado da terra. Especificamente na função de mediador das transações de compra e venda realizadas entre os imigrantes e os proprietários luso-brasileiros. Entre os anos de 1893 e 1901, Bortoluzzi compareceu oitenta vezes como procurador nos acordos comerciais de compra e venda.248 Tais participações possibilitam indagar tanto sobre as relações entre o comerciante e a população colonial, a estruturação das redes de fregueses e a maneira como as famílias camponesas foram se expandindo por outras áreas além daquela destinada à colonização europeia.

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No registro de distribuição dos lotes coloniais, o imigrante Paulo Bortoluzzi aparece como beneficiário de sete lotes de terra (nº 253, 137, 138, 139, 140, 161, 162) na comunidade do Vale Vêneto. A esposa Stella Furlan também recebeu um lote colonial (nº 159) no mesmo lugar. Relação de distribuição dos lotes na Colônia Silveira Martins. In: RIGHI, 2001, p. 117, 182-183. Os lotes coloniais concedidos aos imigrantes italianos mediam aproximadamente 22 hectares, e deviam ser pagos ao governo no decorrer de alguns anos.

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Escritura de Paulo Bortoluzzi e Stella Furlan passada aos padres Jacó Pfaendler e Francisco Schuster, 21 de outubro de 1886. Em outro documento aparece um empréstimo de dinheiro que Paulo Bortoluzzi fez, em 31 de agosto de 1894, aos padres palotinos no Vale Vêneto no valor de quinhentos mil réis. No ano seguinte, em 20 de abril de 1895, o credor recebeu o valor de oitocentos e cinquenta mil réis do sacerdote Pedro Wimmer. A quantia vinha acrescida de juros e de empréstimos menores feitos anteriormente. Caixa 3, Missão Brasileira, Arquivo Histórico Nossa Senhora Conquistadora, AHNSC, Santa Maria.

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A autorização para a fundação de uma casa religiosa no Vale Vêneto foi concedida em abril de 1887 pelo bispo Dom Sebastião Laranjeira. Em 1892 chegaram da Itália as duas primeiras religiosas que imediatamente se dedicaram à fundação de um colégio (BONFADA, 1989, p. 60-61).

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Transmissões/notas: Cachoeira do Sul (5º Distrito), 1º tabelionato, livro 2, 3, 15 (1893-1901); Santa Maria (4º distrito), livro 1 (25-01-1895 a 22-10-1898), Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS.