CHAPTER 3: Method of data collection
3.4. Limitation of study
Data Vendedor Comprador Bens Local Extensão Valor
03.04.1893 Manoel Py Pozzobon, João e José 1 lote de terra nº 19 Linha Amália 360.000 m² 800$000 13.06.1893 Manoel Py Pozzobon, João 1 lote de terra e matos Linha Amália 180.000 m² 400$000 13.06.1893 Manoel Py Pozzobon, José ½ lote de terra e mato nº
19 Linha Amália
180.000 m² 400$000 03.04.1893 Manoel Py Giacomini, Luiz e Angelo 1 lote de terra nº 5 Linha Amália 213.000 m² 800$000 13.06.1893 Manoel Py Giacomini, Angelo ½ lote de terra nº 5 Ribeirão Aquiles 97.000 m² 400$000 13.06.1893 Manoel Py Giacomini, Luiz ½ lote de terra nº 5 Ribeirão Aquiles 97.000 m² 400$000 30.06.1897 Manoel Py Giacomini, João 1 lote de terra nº 18 Linha Amália 360.000 m² 700$000
13.06.1893 Manoel Py Rorato, Francisco ½ lote de terra Linha Constança 180.000 m² 450$000
22.07.1893 Manoel Py Rorato, João Batista 1 colônia de terra nº 10 Linha Constança 350.000 m² 900$000 11.08.1899 Manoel Py Rorato, João Batista ½ lote de terra nº 10 Linha Constança 180.000 m² 500$000
22.11.1895 Manoel Py Dotto, Josué ½ de terra nº 12 Linha Constança 180.000 m² 400$000
22.11.1895 Manoel Py Dotto, Angelo ½ de terra nº 13 Linha Constança 180.000 m² 400$000
22.11.1895 Manoel Py Dotto, Carlos ½ de terra nº 13 Linha Constança 180.000 m² 400$000
22.01.1897 Manoel Py Dotto, Josué 2 lotes de terra nº 9 e 10 Linha Matilde 300.000 m² 1.000$000
22.01.1897 Manoel Py Dotto, José 1 lote de terra nº 11 Linha Glória 300.000 m² 500$000
3.01.1901 Manoel Py Sarzi Sartori, Primo Cezar, Ermenegildo Onofre e Antônio
Dois lotes de terra nº 2 e 20
Linha Travessa 300.000 m² 257.710 m²
1.000$000
3.01.1901 Maria Constança Peixoto Sarzi Sartori, Primo Cezar, Ermenegildo Onofre e Antônio
Dois lotes de terra nº 5 e 7 Linha Travessa 600.000 m² 1.000$000
23.11.1895 João Gerdau Lorenzoni, Francisco 1 lote de terra colônia Linha Progresso 300.000 m² 700$000 23.11.1895 João Gerdau Lorenzoni, Antônio 1 lote de terra nº 19 Linha Progresso 300.000 m² 700$000
23.11.1895 João Gerdau Lorenzoni, Vitório 1 lote de terra nº 18 Linha Progresso 300.000 m² 700$000 23.11.1895 João Gerdau Lorenzoni, Benjamim 1 lote de terra nº 20 Linha Progresso 300.000 m² 700$000 21.02.1898 Paulo Bortoluzzi Engel, Carlos 1/4 lote para agricultura nº
2
Ribeirão Aquiles 48.418 m² 900$000 22.02.1898 Stela Bortoluzzi Londero, Jacó 1 terreno para agricultura
nº 2
Ribeirão Aquiles 40.000 m² 250$000 22.02.1898 Francisco Sertório Leite Londero, Pedro ¼ de lote de terra nº 2 Ribeirão Aquiles 95.000 m² 250$000 27.04.1898 Maria Constança Peixoto Pelizzaro, João ½ lote de terra nº 8 Linha Progresso 180.000 m² 250$000 27.04.1898 Pedro Sertório Leite Pelizzaro, João ½ lote de terra nº 8 Linha Progresso 180.000 m² 250$000
Em 1901, dois lotes de terra, com semelhantes dimensões, foram vendidos aos irmãos Sarzi Sartori. As necessidades específicas de determinados grupos familiares eram atendidas pela interferência de Bortoluzzi. Com os irmãos Lorenzoni ele comercializou lotes contíguos de iguais dimensões, localizados na Linha Progresso, pertencentes ao proprietário João Gerdau. A realização desse tipo de negócio a indivíduos de um mesmo grupo parental sugere a importância do desempenho de Bortoluzzi na venda de terras para as famílias, também fornecendo empréstimos dando condições especiais aos compradores.258 O comerciante favoreceu a formação de novas frentes de ocupação e produção de acordo com a demanda das famílias. Logo, a ampliação dos espaços já ocupados na região colonial ocorreu através de frentes parentais, indicando a existência de uma rede de crédito e assistência interna entre as famílias aparentadas e aliadas.
O processo de ocupação de novos espaços para além dos núcleos iniciais de colonização oficial ocorreu através de frentes de apoio entre indivíduos aparentados. Era comum irmãos solteiros ou casados aparecerem comprando terras coletivamente e, posteriormente, agregando novas dimensões à propriedade. A ocorrência desse tipo de participação no mercado da terra pode ser verificada entre os dez primeiros exemplos do quadro anterior. Constata-se, também, que entre os fregueses do comerciante Bortoluzzi existiam indivíduos ligados por vínculos parentais que faziam circular lotes de terra entre eles, provavelmente para fazer ajustamentos familiares devido a algum casamento o nascimento de herdeiros.259 São verdadeiros jogos com regras complexas entre sujeitos aparentados que podem ser analisados a partir da transferência de terras.
Na comunidade de São João do Polêsine, Paulo Bortoluzzi organizou a fundação de uma cooperativa (CERETTA, 19--, p. 16). A associação era de ajuda mútua entre os chefes de famílias, e se dava através da distribuição de benefícios econômicos. O estabelecimento de cooperativas no universo rural italiano era coordenado por lideranças locais empreendedoras, e tinha por objetivo propiciar a circulação de crédito entre os contadini. Assim, por meio desse mecanismo, procuravam incentivar a formação de pequenas propriedades através da
258
Além do comerciante Paulo Bortoluzzi, havia outros que agiam como procuradores no mercado da terra mediando as transações entre os imigrantes e os proprietários. No entanto, naquele momento inicial, nenhum outro indivíduo destacou-se como Bortoluzzi.
259
Os integrantes da família Dotto e Giacomini aparecem realizando seis transações de compra e venda, quase no mesmo momento em que aparecem adquirindo novas dimensões de terra através da mediação de Paulo Bortoluzzi. Transmissões/notas, Cachoeira do Sul (5º Distrito), Livro 2, 03.12.1890, p. 86-94, APERS.
compra (PES, 2000).260 A iniciativa do comerciante Bortoluzzi na estruturação da cooperativa em São João do Polêsine certamente era uma estratégia para desenvolver o comércio de pequenos lotes de terra na região. A associação entre os que residiam na comunidade propiciava a agregação local, algo fundamental num universo em que os indivíduos davam grande importância às relações interpessoais.
O empreendedorismo de Paulo Bortoluzzi propiciou a expansão dos espaços ocupados pelas famílias italianas nos vales dos rios Soturno e Jacuí, formando comunidades como São João do Polêsine e ajudando outras a crescer, como Dona Francisca. Bortoluzzi abriu outras três casas comerciais em diferentes locais da região, ampliando sua influência. O equilíbrio nas relações entre o comerciante e os outros imigrantes, por vezes, podia ser desigual, causando insatisfação entre os segundos. Bortoluzzi concentrava o poder de realizar negócios naquela região, deixando os demais quase que exclusivamente dependentes de sua mediação, principalmente quando havia necessidade de adquirir mais terras. Vários passaram a ser seus devedores, e não surpreende, portanto, que descontentamentos tenham surgido. Depois de alguns anos atuando em São João do Polêsine, Bortoluzzi se viu obrigado a fechar o estabelecimento comercial na comunidade (CERETTA, 19--, p. 53). Talvez porque certas atitudes dele passaram a ser avaliadas pelos outros como “ganância” e “avareza”, algo que era moralmente condenado. E não somente em Polêsine teve que abandonar seus negócios, mas também no povoado de Novo Treviso devido a desentendimentos com os demais imigrantes.
A participação no mercado se dava entre indivíduos que mantinham vínculos parentais ou compromissos recíprocos. Dificilmente as transações ocorriam entre famílias afastadas socialmente ou que não mantinham alguma relação de confiança. A existência de intermediários é um sinal da importância das redes sociais no campo econômico de concessão de crédito e circulação de terra e produtos. Os comerciantes, para garantir a rede de clientes, atuavam como procuradores no mercado das transações, intermediando os negócios entre conhecidos, compadres e clientes. Como pessoa diretamente envolvida na comercialização dos produtos agrícolas, colocava-se como a principal garantia de que os acordos econômicos entre as famílias seriam cumpridos.261
260
A relação de dependência entre os membros da paróquia e as instituições de crédito rural é abordada através da trajetória de um pároco entre os camponeses de uma comuna da Província de Treviso, nas primeiras décadas do século XX (PES, 2000).
261
O imigrante Agostinho B. se compromete em pagar a dívida de dois mil contos de réis (2.000$000) que um conhecido seu possuía com o comerciante Próspero Pippi (Transmissões/notas: Santa Maria (4º distrito), livro 1, p. 91. APERS). Essa participação dos compadres enquanto mediadores e garantidores das negociações podiam motivar conflitos entre os envolvidos. Os desentendimentos entre os compadres em relação ao pagamento da dívida desencadeavam agressões físicas e, muitas vezes, levava ao falecimento do credor, conforme se verá no
Na ex-Colônia Silveira Martins, a participação no mercado da terra se caracterizou por uma intensa transferência de lotes reguladas pelas relações de parentela existentes entre os compradores e vendedores. As propriedades podiam circular entre os integrantes de uma mesma família geralmente quando da formação de novas unidades produtivas ou divisão dos bens herdados. Tais transferências surgem como um mecanismo de controle para conter a excessiva fragmentação das propriedades. Desse modo, articulavam o ajustamento interno entre as unidades de produção aparentadas de acordo com as necessidades específicas de cada uma delas. Outra estratégia familiar se verifica na aquisição coletiva de novas extensões de terra dos proprietários luso-brasileiros. Dentre os indivíduos presentes na relação de compradores, apresentada anteriormente, constatou-se a presença significativa de membros pertencentes a grupos familiares originários de comunas do distrito de Oderzo, província de Treviso, vizinhas de Piavon.
Alguns haviam chegado à Colônia Silveira Martins acompanhados dos familiares meses antes do grupo conduzido por Paulo Bortoluzzi, a exemplo dos jovens imigrantes Carlo e Antônio Dotto.262 Outros, no entanto, como Francisco e João Batista Rorato e os irmãos Giacomini, provenientes das comunas de Chiarano e Gorgo, chegaram à comunidade de Vale Vêneto entre os anos de 1887 e 1888.263 Posteriormente, em 1893, aparecem no mercado da terra adquirindo lotes do proprietário Manoel Py através da mediação realizada pelo comerciante Bortoluzzi (ver quadro). As redes funcionavam como uma ponte entre os locais de origem e de destino, direcionando a imigração das famílias, e, também, fornecendo assistência no lugar de instalação. Os próprios imigrantes da comunidade do Vale Vêneto, através do envio de cartas, comunicaram os conterrâneos da província de Treviso sobre a disponibilidade de terras particulares que podiam ser compradas em espaços limítrofes aos núcleos coloniais. É provável que as referidas notícias, como as remetidas em 1886 pelo italiano Luiz Rosso, tenham incentivado a transferência de outras famílias das comunas localizadas na província de Treviso, como pode ser constatado no quadro anterior.264
A participação dos imigrantes no mercado da terra – na condição de compradores – era fomentada pela presença de intermediários. O funcionamento de um sistema de crédito favorecia os agricultores a ampliar as dimensões cultivadas ou fundar novas unidades de produção. E, nesse jogo, se destacaram alguns comerciantes como Paulo Bortoluzzi, que se sétimo capítulo da presente tese. Processo-crime, cível e crime, nº 1150, Maço 35, 16 de novembro de 1890, APERS.
262
Relação de distribuição dos lotes na Colônia Silveira Martins. In: RIGHI, 2001, p. 131. 263
Relação de distribuição dos lotes na Colônia Silveira Martins. In: RIGHI, 2001, p. 197-198; 211-212. 264
sobressaiu nesse campo de atuação como nenhum outro indivíduo da ex-Colônia Silveira Martins. Ao prestar assistência em forma de crédito desencadeou uma série de trocas econômicas, deixando as famílias camponesas na sua dependência.265 Essa articulação pode ser compreendida como tentativa de conquistar recursos e prestígio social. Ao atuar como procurador, o comerciante Bortoluzzi estava empenhado em fortalecer suas bases de apoio e aumentar as redes clientelares, muito embora também visasse criar reciprocidades com as famílias de imigrantes.
Outra forma de expandir sua influência foi realizar empréstimos em dinheiro para que outros comprassem terra.266 Bortoluzzi facilitou o recurso ao crédito, aumentando o número de negócios e favorecendo o comércio de bens e produtos. Através deste mecanismo, constituiu uma sólida rede de fregueses na região colonial. A prática de aquisição de terra através de suas mediações indica o quanto o fluxo dos bens materiais era orientado pelos vínculos sociais que conectavam as famílias. Ao assumir o papel de mediador no comércio de terras entre os imigrantes e os proprietários luso-brasileiros, permitiu o acesso às mesmas aos demais imigrantes, expandindo a área ocupada por italianos na região da ex-Colônia Silveira Martins. Pode-se concluir, portanto, que Paulo Bortoluzzi, considerado indivíduo “fanático” e “ambicioso” pelos conterrâneos, efetivamente conseguiu se “tornar chefe de uma colônia” no sul do Brasil.
265
Eduardo Grendi (1978, p. 145, 149) apresenta as características de funcionamento do mercado entre os camponeses, afirmando que a fonte mais comum de crédito era constituída por intermediários e comerciantes locais. Essa estrutura se assentava sobre a parentela e pelas coligações entre indivíduos.
266
Transmissões/notas: Santa Maria (4º distrito), livro 2, p. 3; Cachoeira do Sul (5º distrito), livro 11, p. 51, 96, APERS.
CAPÍTULO 3
Nos dois lados do Atlântico: estratégias familiares e redes
migratórias
Se tu desideri Viver beato Lascia il paese Dove sei nato. Va’ nel Brasile Terra opporturna Suolo propizio Per far fortuna.267
Neste capítulo, busca-se compreender os mecanismos utilizados pelos imigrantes no processo de ocupação e organização nos núcleos coloniais, isto é, as escolhas individuais e familiares colocadas em prática para fundar novas comunidades. As condições e a trajetória dos indivíduos que abandonaram a pátria, bem como a manutenção de uma ligação com os que haviam permanecido na Itália, revelam os sentimentos, as expectativas, os modos de vida e as opções dos que partiram. Uma conexão entre os dois mundos se manteve através da circulação de correspondências que possibilitou entender um dos aspectos que viabilizou a transferência de grupos familiares para o Novo Mundo. Seguir a trajetória de alguns indivíduos que mantiveram vínculos entre si é uma perspectiva que permite compreender a complexidade do fenômeno migratório a partir da visão dos protagonistas.
3.1. Experiências migratórias
A partir da década de 1970, na Itália, as novas abordagens sobre a emigração italiana provocaram reviravolta na forma de pensar a mobilidade populacional. O papel dos
267267
Poesia composta pelo imigrante padovano Vicislao Tedeschi, provavelmente em 1877, quando chegou às colônias do sul do Brasil (Marcone apud BRUNELLO, 1994, p. 59-69).
indivíduos e suas escolhas frente às transformações mais amplas assumiram posição crucial para os estudiosos dos fluxos migratórios. Frente a isso, a explicação “rígida” apresentada pelo “modelo expulsivo”, que condicionava os movimentos migratórios a variáveis econômicas, políticas e à consequência direta dos processos de liberação da força de trabalho para a indústria, começou a mostrar sinais de fraqueza diante da incapacidade de apreender os aspectos fundamentais do “fenômeno multiforme”, como o das migrações.268
As reações aos paradigmas estruturais apontaram para uma mobilidade geográfica na península itálica antes mesmo da “grande imigração” para a América.269
Desse modo, a existência de uma dicotomia entre sociedade tradicional do Antigo Regime e moderna foi, então, diluída, uma vez que a primeira não era mais entendida como um mundo imóvel, possibilitando, assim, que o movimento transoceânico, do final do século XIX, fosse inscrito num processo de continuidade de migrações sazonais e temporárias, que há tempos caracterizavam os deslocamentos das populações rurais (RAMELLA, 2003).270 O espaço que compreendia a península itálica, durante o século XIX, era formado por regiões com significativas diferenças entre si que caracterizavam de diferentes maneiras os deslocamentos das populações rurais. Com a superação do modelo de expulsão começou a ganhar importância à circularidade da população do campo, principalmente através dos diversos tipos de migrações de curta ou longa distância que, por sua vez, estavam relacionados às condições especificas dos locais de partida. Assim, o retorno para as comunidades de origem não significava a falência do projeto migratório, mas um dos recursos utilizados pelos indivíduos para melhorar a condição econômica e o status social na terra de origem.
As novas pesquisas destacaram as escolhas dos imigrantes como sujeitos ativos que agiram segundo lógicas próprias de ação. Desse modo, perseguiram objetivos e acionaram mecanismos para garantir o sucesso das opções, analisadas como “precisas estratégias migratórias” dentro de uma idéia de autonomia e reprodução de características culturais
268No Rio Grande do Sul, a reação à “velha historiagrafia laudatória” iniciou já no final da década de 1970. Desde então, foi crescente a diversificação das abordagens sobre a imigração italiana. Chegou-se à complexidade do processo migratório, entendido como fenômeno constituído por indivíduos de origem social diversa que partiram de diferentes regiões da península itálica para se estabelecer não somente no meio rural, mas também no meio urbano (CONSTANTINO, 2008: 2010, p. 41).
269
O período de 1870 até 1920 é caracterizado pelos estudos migratórios como a “Grande Emigração”, pois foi o momento em que da península itálica partiram grande número de indivíduos para o Novo Mundo. Foi principalmente nas duas últimas décadas do século XIX que o Brasil recebeu mais imigrantes italianos.
270
Os diálogos dos historiadores com os sociólogos, antropólogos, geógrafos e cientistas sociais apontaram novas perspectivas para compreender a mobilidade territorial, resultando no questionamento do modelo estrutural de atração e expulsão, o push-pull. Essa visão considerava os aspectos econômicos como responsáveis pelo fenômeno emigratório, concorrendo ao mesmo tempo com a atração promovida por grandes centros urbanos no Novo Mundo. Ver: RAMELLA, 2003; FRANZINA, 2006; TRENTO, 1989.
próprias (RAMELLA, 2003, p 31-32).271 Os questionamentos a visão tradicional permitiram perceber os camponeses como atores sociais que buscaram se apoiar em redes de relações a fim de adquirir informações sobre os locais onde poderiam encontrar trabalho.
A contribuição para essa mudança de perspectiva veio, principalmente, dos novos estudos que ressaltaram o papel das mobilidades na península itálica do Antigo Regime, destacando-se Giovanni Levi (1985, p. 79). No livro Centro e periferia, o autor analisou o processo que levou a cidade de Turim a se tornar um centro político, cultural e demográfico na região do Piemonte, comprovando a existência de frequentes migrações das populações do campo para a cidade que buscavam garantir a própria sobrevivência ou complementar as economias familiares. Após essa constatação, a migração temporária ou definitiva passou a ser entendida como mecanismo preciso de subsistência e reprodução do grupo camponês.272 Desse modo, os deslocamentos escondiam aspectos como estratégias demográficas, hereditárias, estrutura familiar, escolhas individuais e ciclos de vida (LEVI, 1989, p. 101).
Mesmo antes da emigração italiana se tornar um fenômeno de massa, as populações do território peninsular se movimentavam constantemente para outras regiões e países europeus, como forma de aumentar as rendas familiares. O deslocamento sazonal constituía um dos pilares da economia de muitas comunidades que desenvolviam trabalhos itinerantes, representando mais que apenas um recurso para assegurar a própria subsistência. Uma visão dinâmica e ativa das migrações dos homens das áreas montanhosas foi apresentada por Diogini Albera e Paola Corti (2000, p. 12) em La montagna medtiterrânea: uma fabbrica
d’uomini? Mobilità e migrazioni in uma prospettiva comparata (secoli XV-XX). Os autores se
opunham à imagem passiva dessa sociedade entendida apenas como um reservatório de trabalhadores. Essa nova perspectiva passa a considerar que as pessoas das montanhas não apenas dispunham de recursos e informações, mas, também, formulavam projetos, escolhiam itinerários e selecionavam as oportunidades econômicas. Assim, ao emigrarem não estavam necessariamente fugindo de um ambiente hostil, pobre e restrito, mas sim se projetando para uma multiplicidade de serviços em espaço que se estendia para além das fronteiras regionais.
271
Um dos fenômenos relacionados à emigração circular é o das remessas ou rendas enviadas do exterior para familiares na comunidade de partida como uma forma de adquirir terras ou pagar dívidas. Sobre essa questão ver: CESARE, 2001; MASSULLO, 2001; RAMELLA, 2003.
272
Os movimentos migratórios estavam diretamente relacionados aos ciclos de vida das famílias que procuravam garantir as necessidades de subsistência e reprodução de acordo com o seu tamanho. A idéia da busca por equilíbrio entre consumo e produção como um dos aspectos fundamentais de estruturação da unidade camponesa foi apresentado por Alexandre Chayanov (1974) ao estudar a realidade russa dos séculos XIX e XX. Chayanov realizou uma conexão entre os aspectos econômicos e culturais distanciando-se da lógica da acumulação do capital. Após seu estudo, vários outros levaram em conta a perspectiva de organização da família camponesa. Ver: GRENDI, 1978; LEVI, 1985: 2006.
Foi esta “cultura da mobilidade” que possibilitou que as rotas e os caminhos transoceânicos fossem seguidos como novas oportunidades no final do século XIX.
A “grande emigração” é a continuação de um “costume antigo” vivido pelos contadini de diversas regiões do território peninsular italiano. Em muitas áreas o próprio trabalho agrícola se caracterizava como uma atividade de migrantes, onde pequenos ou grandes grupos de braccianti273 e contadini se transferiam em determinadas épocas do ano para locais onde
exerciam temporariamente as atividades ligadas à agricultura. Uma cultura da viagem e da constante peregrinação se encontrava difundida no mundo camponês que significava mais do que uma fuga da miséria, pois, muitas vezes, emigrar era visto como a condição necessária