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CHAPTER 5: Main findings from Brazil and discussion

5.2. Institutional Framework in Brazil (hydro power regime)

5.2.1. Environmental and social legal institutional framework

Batismo Afilhado Pai Mãe Madrinha

12/01/1885 Socal, Alexandre Socal, Antônio Canei, Henriqueta Rizzi, Ângela

16/02/1885 Biazus, Antônio Biazus, Lorenço Barchet, Giovanna Socal, Verônica

8/10/1885 Centi, Antônio Centi, Carlos Gabrielli, Madalena Rizzi, Ângela

7/02/1886 Sandre, Luigi A. Sandre, João Liesse, Celeste N/C

15/02/1886 Pippi, Maximiliano Pippi, Próspero Guariente, Serafina N/C

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Com o ritual de batismo, momento entendido como o nascimento espiritual do recém-nascido, fundava-se uma parentela através de padrinhos e madrinhas formalmente reconhecidos pela Igreja Católica. Sobre este assunto consultar: ALFARI, (2007).

4/04/1886 Tognotti, Francesco J.

Tognotti, Rancesco Ângela Tognotti, Ema

24/07/1886 Dalla Nora, Ester Dalla Nora, José Antônia Pivetta, Isabel

22/05/1887 Rasia, Maria B. Rasia, Domingos Rosa N/C

20/03/1888 Cureau, Ilario Cureau, Augusto Moretti, Tarsilla Lovison, Dominga

17/05/1888 Mascarini, Joaquim Mascarini, José Corrini, Catarina Segretto, Carolina

4/08/1888 Rigo, João Rigo, Luiz Dalfini, Cleonice Sanfelice, Clotilde

21/07/1888 Maria Julia Dores, José Maria Borges, Luiza da

Silva

Peppin, Santa

8/11/1888 Durgante, Antônio Durgante, Felipe Brondani, Oliva Rizzi, Maria

8/09/1889 Rosso, Felix F. Rosso, Luiz Balestro, Maria Felice, Maria

27/03/1889 Carlotto, Angela

Carola

Carlotto, João Franese, Maria Zanarelli, Rosa 12/06/1889 Pistoja, Luiza

Maria

Pistoia, Angelo Pittondo, Amalia Santini, Catarina

21/06/1889 Carlotto, Tereza Carlotto, Angelo Dal Bem, Antonia N/C

19/08/1889 Vaccari, Tereza Vaccari, Jeronimo Perin, Maria Rizzati Zanella,

Orsola

8/09/1889 Basso, Felix F. Basso, Luiz Balestro, Maria Lunardi, Dosalina

5/05/1890 Marin, Isabel T. Marin, Angelo Rizzi, Ângela Franchi, Carolina

11/04/1891 Gabbi, Fortunata Gabbi, Domingo Mori, Santa Bianchi, Fortunata

22/12/1891 Bos, José A. Bos, Angelo Zago, Virginia N/C

8/05/1892 Dormá, Luiz Dormá, Antônio Bressan, Rosa Sório, Mariana

9/04/1892 Copetti, Antônio N/C Copetti, Maria Copetti, Josefina

05/04/1893 Rossini, João Rossini, Júlio Zordan, Júlia Sório, Mariana

27/05/1893 Marin, Mariana Marin, Antônio Torri, Oliva Sório, Mariana

10/11/1893 Tognotti, Francesco Tognotti, Salvador Zago, Aurélia Sório, Mariana

1/07/1894 Zago, Antônio Zago, Angelo Langhi, Petronilla Bresolin, Regina

8/01/1896 Zago, João M. Zago, João Cherobini, Luiza Cherobini, Luiza

31/01/1896 Coradini, Carlos Coradini, Carlos Villani, Dorotea Coradini, Maria

3/10/1896 Rizzatti, Gaetano Rizzatti, Domingos Cremonese, Maria Franchi, Carolina

18/03/1897 Negrini, José Negrini, João Segala, Vitoria Sório, Mariana

2/05/1897 Londero, Frederico Londero, Antônio Gubbiani, Tereza Sório, Mariana

16/08/1897 Bassan, Santa Bassan, Valentin Tizian, Maria Sório, Mariana

3/08/1897 Zamberlan, Benedito Zamberlan,

Domingos

Ceretta, Angela Bernabé, Josefa

22/12/1898 Padoin, José Padoin, Giosué Piasentin, Luiza Sório, Mariana

3/06/1899 Novelli, Emilia Novelli, Luiz Pavesi, Isabel Pavesi, Marina

O comparecimento de Antônio Sório como padrinho foi constante durante o período em que se manteve na condição de pároco em Silveira Martins. Foram trinta e sete batizados como padrinho direto, variando a madrinha e notando-se a presença de uma das sobrinhas (Mariana Sório) por oito oportunidades. Ao aumentar o número de afilhados, o padre foi estendendo os laços de afinidade com outras famílias. Em algumas situações, o mesmo surge sem estar acompanhado de madrinha (N/C – nada consta), como no caso quando foi padrinho do filho do comerciante Próspero Pippi. Outros imigrantes que possuíam casas de comércio no centro urbano de Silveira Martins também firmaram alianças com o pároco através do estabelecimento de relações de compadrio. Estas relações inter-familiares entre indivíduos que ocupavam cargos de prestígio e desempenhavam atividades comerciais tinham por objetivo a integração e coesão do grupo, podendo os benefícios serem usufruídos por todos os envolvidos. Assim, a atuação de Sório pode ser identificada como um mecanismo para manter o controle sobre a vida social e zelar pelo sucesso das iniciativas privadas na comunidade. O estabelecimento de laços de afinidades entre os conterrâneos de certa forma contribuíram para que Sório conduzisse uma política centralista na paróquia.

Os laços constituídos na pia batismal foram responsáveis por estabelecer uma rede parental que não se restringia apenas àquelas pessoas com quem se mantinha vínculos de sangue. A criação desse tipo de afinidade permitia a formação de novas alianças, bem como reforçava as existentes. Porém, ela passava a estar sujeita a várias formas de controle e censuras entre as pessoas que compunham tais configurações (VENÂNCIO, 2009, p. 246-47). As tramas sociais funcionavam como recurso de proteção, em termos de igualdade de condições, dos indivíduos que ocupavam algum status local. O próprio compadrio era um dos mecanismos de agregação, podendo se somar a outros que também sacralizavam relações sociais para além da família consanguínea. Constituía laços de parentesco simbólico legitimados pela doutrina cristã que, por sua vez, podiam ser utilizados para agregar e coordenar interesses de natureza diversa.

O ato de apadrinhar dava ao pároco um caminho para garantir status social e ampliar as redes de influência na região colonial. Nesse sentido, pode-se sugerir que a conquista e manutenção do prestígio social e político de Antônio Sório estava estritamente ligada a pia batismal. Ao aceitar ser padrinho, assumia publicamente o papel de “pai espiritual” do recém- nascido, conferindo, nesse momento, uma posição ao afilhado, deixando a família desse ligada a compromissos de respeito e gratidão. Certas atitudes seguiam regras culturais visando

à ordem social, estratégia sutil para o prestígio que possibilitava trocas e benefícios mútuos (XAVIER; HESPANHA, 1993).

Conforme vem se afirmando, uma das formas de aproximação do pároco com as famílias ocorreu através das relações de compadrio. Isso permitiu criar laços entre os conterrâneos da comunidade e reforçar a estrutura de governo da paróquia tendo como base a solidariedade parental. A formação de uma identidade local passava pelo estabelecimento de alianças consanguíneas, de apadrinhamento e de criação de associações e outros arranjos que garantiam segurança frente às circunstâncias inusitadas. Desse modo, a atenção sobre a constituição das tramas sociais serve para entender como eram concebidos os mecanismos de proteção entre os indivíduos.

Os laços de compadrio cumpriam a função de regular as tensões existentes e mediar acertos que ofereciam riscos à manutenção da paz e do equilíbrio entre sujeitos em disputa. Como exemplo, pode ser citado o italiano Giosué Padoin, um dos indivíduos que haviam lançado pesadas críticas ao pároco logo que esse assumiu o cargo em Silveira Martins no ano de 1884. Em 22 de dezembro de 1898, padre Antônio Sório e sua sobrinha Mariana Sório foram padrinhos de José Padoin, filho de Giosué Padoin e Luiza Piasentin.387 Isto demonstra que as oposições iniciais foram vencidas pelo pároco. Mas o contrário poderia acontecer, ou seja, quando havia vínculos de “parentesco espiritual” que eram rompidos por algum motivo, pondo fim às relações de reciprocidade. Em 8 de novembro de 1888, o sacerdote foi padrinho do filho de Felipe Durgante, e deve ter se sentido lisonjeado ao batizar a criança que recebia o nome de Antônio.388 Contudo, algo pode ter acontecido entre os compadres, pois Felipe Durgante foi apontado como um dos maçons que teria atacado o padre em emboscada, em dezembro 1899, que resultou na morte de Sório.389

Geralmente, as relações de compadrio visavam reforçar a coesão de grupo entre aqueles que já participavam de associações locais e outros círculos de sociabilidade. Os membros da sociedade de mútuo socorro dos operários italianos de Silveira Martins, coordenada por Sório,390 são os que mais aparecem no livro de batismo oferecendo seus filhos para serem apadrinhados pelo pároco. Essa prática atesta a ideia de que os vínculos de agregação existentes entre os italianos de Silveira Martins eram reforçados através do

387

Livro de batismo da paróquia de Silveira Martins de 1884-1899, ADSM. 388

Em 8 de novembro de 1888, padre Antônio Sório e a Sr.ª Maria Rizzi foram padrinhos de Antônio Durgante, filho de Felipe Durgante e Oliva Brondani. Fonte: Livro de batismo da paróquia de Silveira Martins de 1884- 1899, ADSM.

389

Versão construída pelos padres palotinos, conforme visto no primeiro capítulo. 390

parentesco espiritual. A opção de Sório foi trabalhar no sentido de criar uma maior unidade corporativa na comunidade. Isso lhe permitiu ter legitimidade para atuar como representante dos interesses locais frente ao mundo externo. A adesão do pároco às associações laicas era um meio de definir identidades e reforçar dependências recíprocas.

Os laços de compadrio que ligavam uma família à outra faziam parte de uma política do parentesco entre os imigrantes. Os vínculos criados poderiam ser acionados em diferentes momentos. Quando Antônio Sório foi atacado, no final de 1899, ele recebeu assistência dos sujeitos que faziam parte de seu grupo de relações, tanto compadres pela pia batismal quanto companheiros da sociedade de mútuo socorro. A solidariedade de parte dos indivíduos que compunham as redes formais de aliança e parentesco espiritual do pároco pôde ser identificada no leito de morte, na organização do funeral e na divulgação pública dos motivos do falecimento.391 Portanto, o momento da morte aparece como ocasião privilegiada para se perceber como a solidariedade entre as famílias de imigrantes era eficaz. Se houve de fato crime, os homens entenderam que seria justo preservar a honra do padre e da família, apresentando para as instituições públicas outra versão para a morte, no caso ferimentos oriundos de “queda do cavalo”.

Para o padre Antônio Sório, os poucos parentes consanguíneos no Brasil – somente os quatro sobrinhos estavam com ele – reforçou a importância de criar laços na pia batismal para ampliação da rede familiar. Por isso, aceitou ser padrinho sem se importar com a condição social daqueles que o convidavam: de donos de casas de comércio a artesãos, de trabalhadores urbanos a proprietários rurais. Mas a maior parte dos imigrantes que se tornaram seus compadres não eram simples camponeses afastados das atividades de administração da paróquia ou da vida sociopolítica local. Sório foi padrinho dos filhos de pessoas importantes da sede Silveira Martins, como os comerciantes Próspero Pippi, Antônio Londero e Ema Tognotti. Escolher os compadres entre as pessoas de proeminência local era uma forma de se cercar de recursos numa sociedade em processo de acomodação. As relações de apadrinhamento estabelecidas por Sório propiciaram a constituição de uma ampla rede que possibilitou a consolidação do patrimônio imaterial do pároco na região colonial.

391

Os indivíduos Giuseppe Zago e Domenico Bevilaqua assinaram a certidão de óbito de Antônio Sório confirmando os motivos da morte do padre. Livro de registro de óbito do Cartório Cível de Silveira Martins (RS), 3 de janeiro de 1900, folha 140 (verso), nº 1202, Cartório Civil de Silveira Martins. Ambos aparecem mais de uma vez entre os contratantes de parentesco espiritual, só que tendo os sobrinhos do padre como padrinhos de seus filhos. Domenico Bevilaqua era, também, membro da sociedade de mútuo socorro dos operários italianos de Silveira Martins, instituição fundada por Antônio Sório e outros imigrantes em 1885.

Contudo, as relações entre o padrinho e os afilhados deviam funcionar em mão-dupla, pois tanto o padre quanto a família passavam a manter uma série de obrigações morais entre eles. Ao escolherem o pároco como padrinho, as famílias esperavam conferir à criança certa ascendência moral, que ela fosse orientada espiritualmente e socialmente.392 Os padrinhos, quando não pertenciam ao grupo dos parentes consanguíneos, eram escolhidos entre aqueles mais qualificados para orientar e garantir uma posição satisfatória para os filhos. Em último caso, deveriam substituir os pais caso esses morressem. As famílias criavam expectativas em relação aos padrinhos, principalmente na questão de auxílio moral, porém, sem esquecer que o padrinho também poderia fornecer apoio material, quando necessário. Os padrinhos poderiam socorrer compadres endividados, ou intermediar negócios de terras para beneficiar os afilhados menores de idade.393 O que mais pesava na hora de escolher o padrinho não era a posição econômica, mas, antes, o prestígio que esse tinha na sociedade local. Numa realidade em que as oportunidades eram medidas pelos recursos relacionais que cada um podia acionar, assumia importância significativa as ações que propiciavam a reprodução dos vínculos sociais.

O pároco Antônio Sório apareceu apadrinhando também acompanhado, em oito oportunidades, da sobrinha Mariana Sório. Esta jovem assumiu papel fundamental na política de ampliação das redes da família Sório. O primeiro batismo em que participou tinha vinte e seis anos, em 1892. A partir de então, ela começou a se destacar na questão de ampliação das redes da família Sório. Enquanto jovem, realizou serviços na casa paroquial, certamente atendendo aos pedidos do tio, cuidando, também, da limpeza dos objetos sacros da igreja.394 A oportunidade para assumir o papel de madrinha foi garantida pelo tio/pároco que a inseriu nas redes de relações das quais se encontrava integrado.

392

Os registros de batismo são dados fundamentais para perceber a questão da constituição do patrimônio imaterial de um indivíduo ou de um grupo. Estudos destacam dois aspectos que podem ser identificados como subjacentes ao batismo: o primeiro deles é o funcional, que fomenta as solidariedades sociais e ocorre no mundo dos homens; enquanto o outro é o aspecto religioso, no qual os vínculos espirituais firmados, sob os auspícios da Igreja, se dão na esfera divina (Gudeman apud HAMAISTER, 2006, p. 207). Desse modo, o compadre fica responsável, de certa forma, pela vida futura dos filhos espirituais, devendo, assim, interceder por trabalho, fornecer empréstimos financeiros e, se possível, agilizar uma colocação para o afilhado na sociedade local. 393

O imigrante Angelo Pettenon comprou terras do compadre para o próprio afilhado. Esse se tornaria dono da propriedade adquirida pelo padrinho somente quando atingisse a maioridade. Transmissões/notas, Santa Maria (4º distrito), livro 1 - (25-01-1895 a 22-10-1898), p. 193, APERS.

394

No registro das despesas da paróquia de Silveira Martins, entre os anos de 1885 e 1892, aparece pagamento realizado a Mariana Sório pelos serviços realizados na igreja. Caixa de Silveira Martins, Centro de pesquisas genealógicas, Nova Palma (CPG-NP).