34 Relação analógica entre fronteiras conceituais (Ele é um bloco de gelo) que não deve ser interpretada literalmente
A explicação acerca da transferência de estruturas lexicais para gramaticais fundamenta- se, em Heine et al., em uma organização de categoriais cognitivas, na qual quanto mais à direita estiver o elemento, maior será o seu grau de gramaticalidade, tal como foi exemplificado, anteriormente, a partir da cadeia: PESSOA> OBJETO> ATIVIDADE> ESPAÇO> TEMPO > QUALIDADE.
A transferência de uma categoria para a outra não implica, necessariamente, a substituição da primeira pela segunda, podendo haver estágios em que categorias distintas coexistem lado a lado, revelando a inexistência de limites claros entre elas, de acordo com o princípio das cadeias de GR, também já abordadas.
Os autores chamam nossa atenção para o fato de que as categorias metafóricas distinguidas podem ser imediatamente refletidas na estrutura lexical, havendo, portanto, uma certa correspondência entre essas categorias e as classes de palavras, assim como exemplificado no quadro 9:
Categoria Tipo de palavra Tipo de constituinte
PESSOA Nome humano Sintagma nominal
OBJETO Nome concreto Sintagma nominal
ATIVIDADE Verbo dinâmico Sintagma verbal
ESPAÇO Advérbio Sintagma adverbial
TEMPO Advérbio Sintagma adverbial
QUALIDADE Adjetivo, advérbio, verbo de estado Modificador
Quadro 9: categorias metafóricas e classes de palavras
Dessa forma, a relação entre essas categorias ou domínios de conceituação é de natureza metafórica, como foi dito anteriormente, já que uma categoria pode conceituar outra, localizada, imprescindivelmente, à sua direita. Observemos os casos ilustrados abaixo, no quadro 10:
OBJETO>QUALIDADE Preposição com Cortou com a faca. (OBJETO) Cortou com rancor. (QUALIDADE) OBJETO>ESPAÇO Preposição fronte Minha fronte. (OBJETO)
De fronte. (ESPAÇO) ESPAÇO>TEMPO Preposição depois Depois de Maria. (ESPAÇO)
Depois de amanhã. (TEMPO)
Dessa forma, à relação por meio da qual objeto pode conceituar espaço, este pode conceituar tempo, e assim sucessivamente, os autores dão o nome de metáfora categorial. A transferência, entre um domínio cognitivo e outro, ocorre por meio de passos discretos e unidirecionais, representativos de saltos ou projeções metafóricas, que apontam para uma maior abstração, ou seja, para um movimento em que uma categoria é mais abstrata do que outra que está à sua esquerda, e menos abstrata do que qualquer categoria à sua direita.
Por sua vez, Sweetser atribui ao fato de que a linguagem é formada pela cognição, a possibilidade de estabelecimento de conexões entre essas áreas distintas da experiência humana, tal como Heine, a partir de sua proposta escalar de trajetória para a GR. Com base nessa constatação, a autora também propõe uma teoria semântica eminentemente cognitiva, que toma como alicerce estrutural das línguas a percepção humana e o entendimento de mundo. Nesta direção, para a autora, é a estruturação cognitiva do ser humano que lhe permite estabelecer correspondências ou identificações entre as diferentes instâncias de sua experiência. Assim, as conexões de natureza cognitiva se dão a partir da correlação entre a nossa experiência física e os nossos estados mentais.
Em relação à depreensão dos domínios cognitivos, Sweetser apresenta uma proposta baseada, como vimos em 1.1.2.2., em um esquema formado por três componentes; o primeiro, representativo das experiências sócio-físicas, denominado domínio do conteúdo; o segundo, relacionado ao raciocínio lógico e denominado domínio epistêmico e, por fim, o domínio
conversacional, que abrange as relações estabelecidas no ato de fala. A partir daí, notamos que, apesar de Sweetser, como Heine et al., recorrer a domínios para estruturar a cognição humana, numa perspectiva lingüística, uma diferença em relação ao número desses domínios cognitivos postulados por essa autora em relação àqueles propostos por Heine et al. torna-se bastante evidente. Enquanto Sweetser, em determinados momentos, adota um número bastante reduzido35 de domínios, Heine et al. alargam esse número, apoiados na necessidade de representar, especificamente, entidades prototípicas e fundamentais para a estruturação da experiência humana.
No entanto, essa distinção não prejudica o estabelecimento dos pontos de contato entre as propostas desses autores, nem obscurece o entendimento mais pormenorizado do mecanismo da
35 Sweetser utiliza os domínios do “conteúdo”, o “epistêmico” e o “conversacional” para explicar alguns fenômenos,
GR referente à transferência metafórica. Uma dessas semelhanças está no fato de que, também para Sweetser, por conta dessa tendência geral de usar a linguagem referente ao mundo externo, sócio-físico, para falar do mundo interno, mental, psicológico e emocional, existe um bem estruturado sistema capaz de possibilitar a união de domínios conceituais, como esses, aparentemente contrastantes. Esse sistema, denominado pela autora como sistema metafórico, é o responsável pelo direcionamento de várias mudanças semânticas, tal como sugerem também Heine et al.
Segundo a autora, o sistema metafórico, além de empreender mudanças semânticas, do ponto de vista diacrônico, também é responsável pela emergência e representação de formas polissêmicas e usos abstratos dos vocábulos, envolvidos no processo, do ponto de vista sincrônico, o que leva à pressuposição de que o sistema metafórico é altamente importante tanto para a análise semântica sincrônica quanto para a diacrônica, já que tanto a análise histórica da mudança pode esclarecer as conexões sincrônicas operantes e polissêmicas entre os diferentes domínios conceituais, quanto a análise dessas conexões sincrônicas podem esclarecer a mudança semântica, no decorrer da história. Essa caracterização dos aspectos sincrônico e diacrônico da mudança como co-operantes torna-os intrínsecos e impossibilita uma rígida separação entre eles. Essa mesma correlação também foi sugerida por Heine et al. enquanto uma característica da GR que abrange ambas as perspectivas de análise de maneira cooperante.
Nesta perspectiva, a metáfora não deve ser entendida como uma simples relação entre a palavra e o mundo, mas como um processo de estruturação do significado que opera por meio de projeções unidirecionais entre os diferentes domínios conceituais, sempre partindo das experiências físicas em direção aos estados psicológicos, também de acordo com a cadeia proposta por Heine et al.
Diante dessas considerações, os processos metafóricos podem ser entendidos, resumidamente, como uma característica semântica da mudança, em especial via GR, que acarreta a transferência de significados entre domínios de conceituação, responsáveis pela emergência de formas polissêmicas e indicativas dos diferentes estágios do processo, mediante uma trajetória unidirecional, que parte da concretude em direção à abstratização dos significados, passível de ser depreendida a partir das dimensões sincrônica e diacrônica e da correlação de ambas.