A busca pela compreensão do processo de mudança que leva à formação dos MDs, conduziu-nos à depreensão de algumas considerações importantes. Uma delas refere-se ao fato de
que os autores focados, Martelotta e Traugott, trabalham com concepções e definições de GR, de DC, de discurso, de gramática e de MD, diferentes, embora ambas se pressuponham funcionais. Diante disso, foi possível realizarmos uma série de observações relacionadas à proposta de Martelotta, no que tange à DC:
(i) embora adote a perspectiva textual-interativa e considere o fato de que não é possível estabelecer uma distinção nítida entre elementos de função exclusivamente textual e de função basicamente interacional, Martelotta define OAs como elementos que desempenham funções textuais e MDs como elementos que exercem funções interativas, desconsiderando o contínuo que regula tais funções;
(ii) a divisão entre OAs e MDs é pautada nas funções, respectivamente, textuais e interacionais. Apesar disso, o autor admite que em alguns contextos, os MDs podem atuar na organização das relações textuais, contrariando, portanto, a base racional para a sua classificação.
A partir dessa proposta de divisão apresentada por Martelotta, entre OAs (funcionalmente textuais) e MDs (funcionalmente interacionais), o próprio autor apresenta problemas relacionados à descrição das distintas funções dos MDs. Uma observação atenta dessas dificuldades mostra que elas resultam exatamente da tentativa de separar o que é textual do que é interacional, quando esses dois âmbitos de funcionalidade encontram-se numa relação de dependência.
(iii) apesar de afirmar que, em alguns casos, após assumir uma função gramatical, via GR, o item torna-se “menos gramatical”, o autor não faz nenhuma consideração quanto ao processo de desgramaticalização, pressuposto nessa afirmação;
(iv) em busca de justificativas para o processo da DC, Martelotta conceitua gramática, como âmbito da regularidade e previsibilidade, que não comporta a pragmática, e discurso, como espaço de criatividade, eventualidade e assistematicidade;
(v) a definição de DC, como uma mudança unidirecional, que leva o elemento a assumir, de modo gradual, funções mais abstratas e relacionadas à organização do discurso, leva-nos a constatar a grande semelhança entre as características desse processo e aquelas propostas mais
recentemente para a GR (por exemplo, nos trabalhos de TRAUGOTT, 1995, 2003), o que acarreta a observação de que os trabalhos sobre DC estão intrinsecamente associados ao processo de GR, não dispondo de um aparato teórico próprio e desenvolvido.
Em contrapartida, a proposta de Traugott de que a GR é suficiente, enquanto teoria, para explicar a emergência dos MDs, parte inicialmente da consideração de dois problemas: o aumento do escopo e da liberdade sintática, envolvidos nesse processo.
Em relação à perda de liberdade sintática e redução do escopo, considerações de naturezas distintas, são relevantes:
(i) a extensa literatura sobre o desenvolvimento de conectivos oracionais e dos próprios OAs constata que o aumento do escopo sintático é perfeitamente permitido na teoria da GR, dependendo do tipo de fenômeno focalizado;
(ii) esses parâmetros preconizam casos de GR de morfemas o que não contempla a natureza dos MDs;
(iii) é importante pontuar que a liberdade sintática e o aumento do escopo sintático, segundo Traugott (1995), podem ser relativizados de acordo com a análise de cada MD, não constituindo, portanto, características intrínsecas ao processo.
Além disso, Traugott (1995, 2003) sugere que outras características, também estruturais, tradicionais e largamente atestadas no início desse processo de mudança, podem ser consideradas mais salientes para a GR do que a própria diminuição da liberdade e do escopo sintático. Entre elas temos: (i) a descategorização, (ii) a redução fonológica, (iii) e a generalização; além (iv) do aumento de pragmática e (v) da (inter)subjetivização.
Sendo assim, a partir da depreensão do cline adverbial, proposto por Traugott (1995), e de seu acréscimo ao inventário de clines sujeitos à GR, podemos concluir que esse processo de mudança não deve ser restritamente pensado como acarretando redução do escopo e da liberdade sintática, e que, graças a isso, o desenvolvimento de MDs pode ser considerado compatível com a GR prototípica em seus estágios iniciais, considerando-se que o tratar como um caso além dela seria obscurecer as similaridades com clines mais canônicos. No caso do desenvolvimento de
MDs, o que temos, mais especificamente, segundo a autora, é o desenvolvimento de construções altamente específicas via estratégias de uso no discurso, ou seja, um cline em que a sintaxe, via
fortalecimento pragmático no discurso transforma-se em uma sintaxe com funções diferenciadas. Diante de todas essas considerações, afirmamos que Traugott (1995, 2003), assim como outros pesquisadores citados por ela (TARBOR e TRAUGOTT, 1998, HOPPER, 2000), argumentam que a GR, assim como a hipótese da unidirecionalidade, requer um olhar que ultrapasse a morfossintaxe e que alcance a relação entre sintaxe e pragmática discursiva, entre cognição e comunicação. Considerando que diferentes partes da gramática têm diferentes propósitos, que os MDs, com todas as suas funções, tipicamente operam de modo diferenciado dos marcadores de caso e de tempo, podemos não ser surpreendidos se clines diferentes nos conduzirem a resultados morfossintáticos também diferentes, já que operam, afinal de contas, em partes diferentes da gramática.
Sendo assim, segundo Traugott (1995, 2003), essas diferentes partes da gramática se desenvolvem em diferentes línguas de modo regular, o que parece pressupor uma teoria capaz de explicar não por simplificação, mas pela depreensão não redutora da realidade lingüística, uma unidirecionalidade bi-modal, ou seja, capaz de acompanhar tanto a descategorização estrutural, que pode levar ao aumento de fixação da localidade da construção gramaticalizada, quanto àquela que leva ao aumento da força pragmática e abstração semântica, acarretando a possibilidade de uma maior independência sintática e de um escopo estrutural mais amplo na nova construção.
Para concluir, devemos entender que a aproximação dessas vertentes teóricas distintas nos possibilitou a percepção clara de que, para falarmos em termos de DC, como Martelotta, nos trabalhos aqui apontados, devemos, primeiramente, adotar a concepção de discurso como espaço de criatividade e assistematicidade, de gramática, como conjunto de regularidades, que excluem as de ordem pragmática, e de MDs como itens com funções estritamente interativas, já que, como vimos, admitir a contraparte textual representa problemas teóricos, além de conceber a GR de um modo bastante redutor, como um processo que leva à atrição e perda de propriedades pragmáticas e indissociável da propriedade relativa à fixação sintática, independentemente do fenômeno observado, o que não parece, para uma abordagem funcionalista, opção satisfatória.
Essas considerações parecem deixar claro que toda a dependência, o caráter redutor, a precariedade explicativa e definitória da DC, assim como os problemas teóricos dela decorrentes, na verdade, podem ser justificados pelo fato de que, no âmbito de uma mesma concepção de
discurso, de gramática, de MD, tal como apresentada por Traugott, não é possível a formalização da DC como um outro processo de mudança estanque da GR.
Assim, tomando como base a concepção de GR de Traugott, avaliada, após todas as considerações, como a mais coerente para a explicação da emergência dos MDs, apresentaremos, nas próximas seções, uma análise do item assim que parte da sua etimologia, passa por uma síntese dos resultados já empreendidos por pesquisas anteriores que também o elegeram como foco, para, por fim, alcançar a sua trajetória de desenvolvimento e de gramaticalidade, abrangendo, portanto, a diacronia e a sincronia do item.
A multifuncionalidade de assim:
do mais concreto ao mais abstrato
As propriedades intrigantes de assim foram reconhecidas desde a sua primeira análise, em Macedo e Silva (1990), e ainda hoje continuam a estimular novas possibilidades analíticas, graças à multifuncionalidade do item e ao desafio que a tentativa de percorrer o emaranhado semântico- pragmático das suas acepções representa.
As gramáticas tradicionais classificam assim como um simples advérbio de modo, a partir de critérios (i) morfológicos, por se tratar de uma palavra invariável, (ii) sintáticos, por ser uma palavra relacionada a verbos, a adjetivos e/ou a outros advérbios, e (iii) nocionais, já que se trata de uma palavra que indica uma determinada circunstância. No entanto, como lembram também Silva et al. (1999), esses critérios não são suficientes e adequados quando extrapolamos os limites da língua escrita e nos debruçamos sobre dados de língua falada, onde a ocorrência do item revela-se surpreendente.
Dessa forma, a modalidade discursiva torna inadequada a classificação de assim como um advérbio modal. Diante disso, sugerimos um continuum entre os diferentes usos e acepções do item, que parte dos mais concretos, próximos ao mundo biofísico, em direção aos mais textuais, e, por fim, aos que se encontram associados às experiências pessoais do falante. Para depreendermos, detalhadamente, esse continuum, recomporemos a trajetória do item, desde sua origem latina e seu uso no português arcaico, até sua multifuncionalidade contemporânea, a qual constituirá foco do presente trabalho.