8. ANALYSIS
8.2 E NTRY D ATA A NALYSIS
A adoção e concepção de dois processos distintos e especiais de mudança, a GR e a DC, ainda que não sejam suficientes para traçar, entre eles, um limite nítido, nascem, segundo Martelotta (2004), da observação, de um lado, de itens denominados MDs, que assumem tendências mais livres, em relação às restrições gramaticais, maiores possibilidades sintáticas de colocação, e que desempenham prioritariamente funções voltadas à adaptação do discurso ao seu
contexto de produção, e, de outro, de itens denominados operadores argumentativos (OAs), que ocupam posições mais fixas na sentença, assumindo funções prototipicamente gramaticais.
Nessa perspectiva, a GR é entendida por esse autor como um processo que pode levar itens lexicais e construções sintáticas a assumir, dentre outras possibilidades, funções referentes à organização interna do discurso ou a estratégias comunicativas, ou seja, a funcionar, mais especificamente, como OA, enquanto a DC leva-os a assumir função exclusiva de MD, podendo modalizar ou reorganizar a produção da fala, quando a sua linearidade é perdida, ou preencher o vazio causado por essa perda de linearidade, tal como proposto em Vincent, Votre e LaForest (1993).
Cabe aqui distinguir OAs de MDs. Os primeiros são, segundo Martelotta (1996, p. 194- 195), funcionam na organização básica e interna do uso da língua, sem fazer referência a fatos do universo biossocial. Além de desempenhar essas funções de caráter gramatical, ainda conferem uma orientação argumentativa ao discurso. Especificamente, os OAs tendem a:
(i) funcionar como elementos anafóricos ou catafóricos, aludindo a dados textuais já mencionados ou por mencionar, como, por exemplo, a ocorrência de lá, no trecho “eu tenho de ir a Petrópolis...você vai comigo? (...) aí fomos as duas e tal...chegamos lá...”;
(ii) ligar porções textuais dando-lhes uma orientação lógica, como na ocorrência de
porque, no trecho “é bom à beça porque...lá...lá é tudo assim calmo...”; e (iii) operar estratégias argumentativas chamando a atenção do ouvinte, tal como
então em “Mas, então, com meu pai não dava muito certo”.
Por outro lado, os MDs, como já dito, estariam mais relacionados à orientação da interação. Em relação a essa classificação, o próprio autor admite que é “impossível estabelecer nítida distinção entre elementos de função eminentemente textual como os OAs e elementos basicamente interativos como os MDs” (MARTELOTTA, 1996). Para corroborar essa dificuldade e, na verdade, tornar ainda mais clara a impossibilidade de ser estabelecida tal distinção, ainda retoma uma afirmação de Risso, Silva e Urbano (1996), segundo a qual, de acordo com a perspectiva textual-interativa, todo elemento de função textual cumpre sempre, de maneira contrabalanceada, uma função orientadora da interação, ainda que fragilmente, sendo o inverso também verdadeiro.
com funções textuais e MD com funções interativas e pontuar o reconhecimento desse questionamento por parte do próprio Martelotta. Na verdade, ao retomar uma definição de MD, apresentada por Risso et al. (op.cit.), sob a perspectiva textual-interativa, o autor já evoca uma concepção de texto como objeto de estudo e campo de depreensão de regularidades capazes de caracterizar as formas de processamento das estratégias, dos mecanismos de sua estruturação e também das suas funções pragmático-textuais, configurando um produto materializado lingüisticamente que, ao mesmo tempo, congrega e sinaliza o processo de formulação textual e de interação (JUBRAN, 2006). Assim, o autor chama a atenção, conseqüentemente, ainda que de maneira não proposital, para um ponto questionável de sua própria definição, o que, portanto, ao invés de corroborar a sua caracterização, acaba por apresentar-lhe uma incoerência, sobre a qual é estabelecida toda a distinção entre GR e DC.
É importante ter claro que, de acordo com a perspectiva textual-interativa, a análise das estratégias lingüísticas não resulta em uma dicotomia de funções textual e interativa, mas as conjuga, a partir de um princípio de gradiência, regulado pela dominância. Uma vez considerado esse princípio, será imprescindível uma tipologia funcional dos fatos discursivos, baseada em um
continuum, que comporte, de um lado, os elementos com funções predominantemente relacionadas à organização, condução, manutenção ou até quebra do fluxo de informação (+textuais) e, de outro lado, os elementos predominantemente focalizadores das circunstâncias enunciativas (+interativos), sendo que entre um e outro pólo, estão as classes intermediárias. Essa observação mostra, portanto, um balanceamento entre as funções textual e interativa, não a depreensão de uma em detrimento da outra, ou seja, um item, ao desempenhar sua função prototípica de ordem interacional, preserva algum traço de funcionamento textual, ainda que esse seja mais sutil, em relação ao outro. Assim, uma mesma forma pode prestar-se a diferentes funções, podendo enquadrar-se, conseqüentemente, em classes também diferentes, constituindo, exatamente por isso, classes não discretas, mas fluidas, graças à instabilidade das configurações discursivas (JUBRAN, 2006).
Ainda assim, Martelotta (1996, 2004) propõe que, como resultado da GR, o elemento pode se tornar mais gramatical, assumindo posições mais fixas na cláusula e, por isso, apresentando-se mais previsível no que diz respeito a seu uso. Na DC, o elemento se torna um MD, menos gramatical, passando a assumir funções relacionadas ao processamento do discurso, conseqüentemente, funções interativas, perdendo restrições gramaticais típicas de seu uso
original e tendo o seu leque de possibilidades de colocação aumentado.
A afirmação acima de que o elemento, ao assumir a função de MD, torna-se “menos gramatical” pressupõe, obviamente, uma função prévia gramatical, que, se desenvolvida via GR, leva-nos a pensar em um movimento contrário, ou seja, na desgramaticalização. Os trabalhos que defendem a pertinência da DC, ainda que lançando mão da definição apresentada, não tratam e nem sequer mencionam essa questão, que, no mínimo, exigiria, para a sua resolução, uma redefinição do processo da DC.
Nessa perspectiva, portanto, Martelotta et al. (1996), baseados em autores clássicos da GR, designam-na como um processo de mudança unidirecional que leva itens e construções sintáticas a assumir funções gramaticais, em determinados contextos, e, uma vez gramaticalizados, a desenvolver ainda novas funções gramaticais, tornando-se, portanto, mais regulares, previsíveis, compatíveis com as restrições da gramática, e fora do nível da criatividade eventual do discurso. É importante observarmos a distinção feita, pelos autores, entre gramática, como âmbito da regularidade e previsibilidade, e discurso, como espaço de criatividade e eventualidade, para usar os mesmos termos.
A partir dessa concepção, os autores, ainda de acordo com os trabalhos clássicos sobre a GR, a relacionam com os seguintes tipos de mudança: (i) a trajetória de elemento lingüístico do léxico à gramática; (ii) a trajetória de vocábulo a morfema; (iii) a trajetória de elemento lingüístico da condição de menos gramatical para mais gramatical; (iv) a trajetória de elemento lingüístico de mais para menos referencial; (v) a trajetória que leva uma construção sintática a se especializar em expressar função gramatical; (vi) a trajetória dos processos de repetição do discurso, no âmbito da criação e da intenção, em direção à gramática, por meio de sua regularização e sistematização; e (vii) a trajetória que leva construções negativas relativamente livres a se tornarem mais fixas, também em função de estratégias discursivas específicas. Chamemos a atenção para o item (vi), especificamente. A trajetória proposta aí determina nas entrelinhas que, apenas ao migrarem para a gramática, as estratégias discursivas ganham regularização e assumem uma sistematicidade, o que pressupõe uma concepção de discurso como algo irregular e assistemático.
Por sua vez, a DC pode ser definida, segundo Martelotta et al. (1996), como um processo de mudança lingüística que basicamente gera MD, sendo a função de preenchedor de pausa a que reflete estágios mais avançados da mudança, por ser a que menos guarda características dos usos
originais. Esse processo é motivado, segundo o autor, pelo fato de que o falante precisa de elementos que marquem estratégias interativas para reorganizar o fluxo do pensamento e, ao mesmo tempo, registrar essa reorganização para o ouvinte.
A trajetória do processo de DC, em alguns casos, é marcada por uma passagem do léxico para o discurso, via gramática. Ou seja, um elemento, inicialmente lexical, passa a ser usado com função gramatical e, em seguida, assume a função de marcador, tal como será mostrado no caso de assim. Em outras trajetórias, ocorre uma passagem do léxico para o discurso, na qual não é claro o trânsito pela gramática, isto é, um item parece deixar de expressar seu sentido original para assumir a função de marcar estratégias relacionadas ao processamento da fala, como pode ser observado no caso de elementos provenientes de perguntas, como, por exemplo, sabe?, né?,
entendeu?, ta? (MARTELOTTA et al., 1996).
Assim, os pontos de partida da DC tendem a ser elementos lexicais que apresentam valor semântico passível de extensão para usos interativos e discursivos, e os pontos de chegada, ou seja, os seus resultados, tendem a se identificar com elementos lingüísticos que, segundo Vincent, Votre e Laforest (1993), apresentam, recorrentemente, as seguintes características: (a) asseguram um ritmo dinâmico aos enunciados emitidos em intervenções longas; (b) constituem elementos repetitivos no discurso e não têm valor relacional; (c) ocorrem no fim de um sintagma prosódico; (d) são fracos e podem sofrer redução fonética.
Dessa forma, os MDs, para Martelotta et al. (1996), são usados, prioritariamente, para reorganizar a linearidade das informações no discurso, quando, por motivos diversos, como insegurança ou falha na memória, ela é momentaneamente perdida. Estão, portanto, relacionados ao processamento das informações na fala, marcando para o ouvinte as reformulações necessárias, já que ela é caracterizada por essas constantes estratégias de construção textual, e colaborando na obtenção de tempo para que o falante possa organizá-la. Vale enfatizar, no entanto, que os autores reconhecem a possibilidade, ainda que subsidiária, de atuação desses itens na organização das relações textuais.
Segundo Martelotta (2004), é difícil caracterizar a função dessas partículas e, principalmente, elencá-las em uma trajetória linear de mudança, basicamente, por três motivos: (i) suas funções são mais subjetivas e mais dificilmente caracterizáveis estruturalmente, uma vez que são pragmático-discursivas; (ii) suas funções parecem sobrepor-se e mesmo confundir-se; e (iii) parece ocorrer influência mútua entre os usos. Observadas pontualmente, essas dificuldades
metodológicas, em relação ao trato com as partículas denominadas e caracterizadas pelo autor, são frutos da tentativa de separar o que é de ordem textual do que é de ordem interacional, quando, na realidade, esses dois âmbitos de funcionalidade encontram-se interligados, e, como sugerimos, interligados até mesmo numa relação de dependência. Em relação a (i), só é possível verificar estruturalmente a contraparte textual das partículas pragmático-discursivas, ou interativas, se se admitir que elas executam alguma função nesse domínio; a (ii), as funções não se confundem, mas têm ambas as naturezas, textual e interativa; e, quanto a (iii), realmente os usos influenciam-se mutuamente, de acordo com as especificidades de cada contexto.
Os estudos sobre o processo de DC, no entanto, são pouco desenvolvidos e se limitam, em geral, à análise de casos específicos desvinculados de uma teoria que defina princípios comuns aos diversos casos e identificadores do processo. Segundo Martelotta et al. (1996), muito pouco se sabe a respeito desse processo, em razão da raridade dos trabalhos dedicados ao assunto; mesmo assim, a partir de suas análises, esses autores ratificam a proposta de que a DC é um processo de mudança unidirecional, que leva o elemento a assumir, de modo gradual, funções mais abstratas e relacionadas à organização do discurso, à medida que vai perdendo sentido referencial e assumindo um conjunto de funções não-discretas, mais voltadas para a viabilização do processamento discursivo.
A partir dessa definição podemos perceber uma grande semelhança entre as características desse processo e aquelas propostas para a GR, o que acarreta a observação de que os trabalhos sobre DC normalmente estão intrinsecamente associados ao processo de GR, para não dizer dependentes dele. Alguns autores como, por exemplo, Vicent, Votre e Laforest (op. cit.), identificam instâncias de DC sob a rubrica de pós-gramaticalização (post-grammaticalization). Esse termo, no entanto, parece impróprio por sugerir um processo posterior à GR, o que, como já apontado, nem sempre ocorre. De qualquer forma, esses autores consideram que as investigações sobre estágios, mecanismos e princípios pertinentes ao processo de GR propiciam um ponto de partida consideravelmente relevante para estabelecer generalizações sobre a DC, o que, para outros, aponta para a não individualidade desse processo, ou melhor, para a possibilidade de a própria GR explicar também o único fenômeno abarcado pela DC.
Dessa forma, essa concepção de que existem dois processos de mudança não é consensualmente aceita na comunidade científica. Trabalhos como os de Traugott (1995, 2003), retomando também outros trabalhos, como os de Tarbor e Traugott (1998), Hopper (2000)
consideram que a teoria da GR é sim capaz de abranger a emergência também dos MDs, descartando qualquer outro tipo de mudança relativo a eles, como a DC.