1.2.2.1. Implementação dos processos de reanálise e de analogia
A reanálise e a analogia representam mecanismos importantes para a mudança lingüística em geral, especialmente para a morfossintática, podendo constituir sintoma saliente também da GR.
Sintaticamente, a GR atua na mudança que, de acordo com Hopper e Traugott (1993), parte de categorias maiores, constituídas por nomes e verbos, derivando categorias
intermediárias, compostas por adjetivos e advérbios, e daí categorias menores, nas quais estão as preposições, as conjunções, os pronomes e os verbos auxiliares. Nessa direção, concordam com a pressuposição de que os elementos pertencentes à categoria maior são lexicais, enquanto aqueles pertencentes à intermediária são gramaticais, sendo, no entanto, menos gramaticais do que os que constituem a categoria menor, integrantes de uma classe mais fechada. Assim, evidencia-se que esses autores admitem que, com a mudança, os itens se tornam gramaticais e se já gramaticais, se tornam ainda mais gramaticais.
Nesse trabalho, Hopper e Traugott citam Langacker (1977, p. 58), que define a reanálise como uma mudança estrutural em uma dada expressão, que não necessariamente provoca nela modificações em seu comportamento superficial. Um exemplo típico seria a fusão de formas que ocorre na formação de perífrases, provocando uma redelimitação das fronteiras de palavra, sem alterar a manifestação superficial das formas que compõem tal perífrase. Assim, numa perspectiva limitada à mudança categorial, entende-se a reanálise como um desenvolvimento de estruturas novas a partir de estruturas velhas, em que a estrutura abstrata muda sem provocar mudanças na estrutura superficial dos elementos.
Nesta perspectiva, Newmeyer (2000) identifica diferentes tipos de reanálise:
(i) a reanálise de estrutura de constituinte e de estrutura hierárquica, responsável pela alteração nas fronteiras entre constituintes, sem para isso representar um caso de GR, tal como mostra o exemplo:
(1) A mudança de [X para + SN]+ infinitivo >X [para+ SN+ infinitivo] Ele [pediu para Maria] fazer o almoço >
Ele pediu [para Maria fazer o almoço] > Ele pediu [para eu (>mim) fazer o almoço] 39
(ii) a reanálise de rótulo categorial, responsável pela alteração da ordem de palavras, que, segundo o exemplo abaixo, representa um caso legítimo de GR:
(2) Chinês: construções com verbos seriais (verbo > marcador de objeto)
S ba O V O (ba= pegar) (ele [S]pegou [V] bola [O] e chutou [V] a bola [O]) S ba-O V (ba = marcador de objeto) (ele [S] pegou-bola [O] chutou [V]
(iii) a reanálise que envolve grau de coesão (3) perda das fronteiras entre os constituintes
Let us (objeto pronominal) > Let’s (clítico) > Lets (sem limite claro de clítico) Ex.: Let’s go > Lets give you a hand.
Deixa eu > Deix’eu > (dei)xeu40
Ex.: (Dei)xeu fazer esse trabalho logo...
Segundo a perspectiva gerativista de Newmeyer, os fatores que explicam a reanálise correspondem e estão circunscritos àqueles que levam uma criança a construir gramáticas em que são atribuídos rótulos categoriais diferentes a um determinado elemento ou a uma seqüência de elementos, formando um conjunto estrutural de constituintes diferente daquele que compunha a gramática de seus pais. Assim, duas motivações podem ser reconhecidas:
(a) casos de opacidade: nos quais, mudanças lingüísticas, tais como as de ordem fonológica, impedem que a criança atribua a uma determinada estrutura a sua análise anterior, desencadeando a reanálise estrutural;
(b) casos de expressões exploratórias: em outras situações, o falante pode sentir necessidade de enfatizar, reforçar, tornar mais claro, ou ainda pode ser motivado por outras razões exploratórias. É o que exemplifica a negação ne...pas do francês. Seu uso tornou-se tão espraiado que a criança, durante o processo de aquisição da língua, tomou-o como parte intrínseca da negação e, conseqüentemente, efetuou uma reanálise categorial do Nome para um constituinte do Sintagma negativo.
Nesta perspectiva, alguns autores, como Newmeyer (2000), ao criticar a GR, defendem que esse processo depende da reanálise, enxergando-a numa relação de equivalência com a alteração categorial, sugerida, segundo ele, pela própria definição do processo de GR. Assim, sem a reanálise, o processo pode configurar qualquer outro fenômeno lingüístico a não ser o da
GR. Outros autores descartam a necessidade desse processo ser acompanhado pela reanálise. Exemplos que poderiam constatar casos de GR em que o status do núcleo frasal determinante permanece sem mudança, ou seja, sem que nenhuma reanálise esteja envolvida, são dados pelas trajetórias que envolvem a GR:
(a) de um demonstrativo em artigo definido (this man > the man) (b) de um artigo definido em um artigo não-genérico
(c) do numeral one para um artigo indefinido (one man > a man)
Sendo assim, apesar de a reanálise representar o principal fator da mudança e de alguns autores, como até mesmo Meillet, a terem identificado com a GR, é importante reconhecer que, embora muitos casos de reanálise sejam realmente casos de GR, nem todos são resultados da transformação de um item lexical em mais gramatical, o que, portanto, não configura o processo.
A analogia, como levantado em seções anteriores, diz respeito à utilização de formas que já existem na língua para substituir outras que também já existem. Assim, enquanto a reanálise pode provocar mudanças semânticas, sintáticas e/ou morfológicas, alterando inclusive o sistema de regras, a analogia provoca alterações que expandem essa regra, no interior do sistema lingüístico, sem, para isso, mudá-la. Dessa forma, a reanálise lida com mudanças subjacentes e, em contrapartida, a analogia lida com as superficiais.
Meillet (1912) interpretou a analogia como sendo, estritamente, um processo por meio do qual as irregularidades gramaticais são regularizadas, focalizando-se nessa regularização o nível morfológico. Segundo ele, esse mecanismo era visualizado como uma proporção, ou seja, a “criação” de uma forma a partir do modelo de uma outra.
Na fórmula de proporção, um membro é escolhido como protótipo, ou seja, como modelo para a criação de outras formas. As diferentes teorias do protótipo (COLEMAN e KAY, 1981; KLEIBER, 1991; DUBOIS, 199141) consideram que categorias lingüísticas distintas organizam- se em torno de seus melhores exemplos, protótipos ou modelos. Assim, por meio da analogia, generaliza-se esse modelo e conseqüente se regularizam as formas.
41 Apud BAT-ZEEV SHYLDKROT, H. Tout: polysémie, grammaticalisation et sens prototypique. Langue Française,
Apesar de só a reanálise criar novas estruturas gramaticais, o papel da analogia também é muito importante no estudo da GR, porque também ela evidencia para o falante de uma língua, assim como para os estudantes dela, a instauração do processo de mudança.
Podemos tomar como exemplo da interação da reanálise e da analogia o processo de mudança da negativa do francês (HOPPER e TRAUGOTT, 1993). Vejamo-lo:
ESTÁGIO 1: A sinalização da negação era realizada a partir da colocação da partícula ne antes do verbo.
ESTÁGIO 2: Um verbo de movimento negado pela partícula ne poderia eventualmente ser enfatizado pelo pseudo-objeto nominal pas (que então significava ‘passo’): Il ne va (pas)
ESTÁGIO 3: A palavra pas sofreu reanálise e passou a funcionar como partícula negativa, em uma estrutura do tipo: ne Vmovimento (pas)
ESTÁGIO 4: O pas foi estendido analogicamente para outros verbos que não mantinham relação com o traço [+movimento], ou seja, houve a generalização da estrutura ne V (pas): Il ne sait
(pas).
ESTÁGIO 5: A partícula pas foi reanalisada como um concomitante obrigatório do ne na marcação da negação em geral: ne V pas.
ESTÁGIO 6: Na língua falada, pas vem cumprindo a função de ne por meio de dois estágios:
(ne) V pas (reanálise de ne como opcional), V pas (reanálise pela perda de ne). Assim, como resultado do processo, temos: Il sait pas.
Assim, percebemos que esses dois mecanismos possuem efeitos distintos. A reanálise envolve uma reorganização linear, portanto, sintagmática e local, ocasionando uma mudança na regra, sem, contudo, ser diretamente observável, enquanto, por outro lado, a analogia envolve essencialmente uma organização paradigmática, ou seja, uma reorganização superficial dos padrões de uso, tornando observáveis as mudanças que não o eram na reanálise. Vejamos a interação desses mecanismos, no gráfico abaixo, que representa o desenvolvimento de be going
Eixo sintagmático Mecanismo: Reanálise ESTÁGIO 1: be going [to visit Bill]
V direção propósito ESTÁGIO 2: [be going to] visit Bill V ação (por reanálise)
ESTÁGIO 3: [be going to] like Bill V (por analogia)
ESTÁGIO 4: [gonna] like/visit Bill (por reanálise)
Eixo paradigmático Mecanismo: Analogia
No primeiro estágio, temos um verbo direcional e uma oração que exprime um propósito. No segundo, já há um auxiliar de futuro, acompanhando um outro verbo que exprime atividade, como resultado da reanálise. No terceiro, a partir da analogia, ocorre uma ampliação dos tipos verbais, ou seja, uma abertura no antigo paradigma. No quarto e último estágio, surge, via reanálise, o auxiliar complexo a partir de um só morfema gonna.
Por fim, é importante ressaltar que tanto a analogia como a reanálise são mecanismos de grande importância para o quadro da mudança lingüística. No entanto, isoladamente não são suficientes para que ocorra o processo de GR.
1.2.3. Redução fonológica
Segundo Heine et al. (1991), quando uma unidade lingüística está gramaticalizada, seu corpo fônico tende a sofrer erosões, que indiciam concretamente a ocorrência da GR, já que caracterizam o ajustamento do item ao seu novo paradigma, uma vez que uma palavra lexical, quando se torna gramatical, precisa sofrer ajustes também em relação ao seu tamanho, como vimos no princípio da iconicidade, segundo o qual o tamanho de um item é proporcional ao significado que ele veicula.
Bybee (2003) explica as reduções fonéticas essencialmente a partir da lei do menor esforço, responsável pela transformação dos itens mais freqüentemente usados em itens mais curtos do que aqueles menos usados. Assim, a rotinização também seria responsável pela perda de material fonológico. Como exemplo podemos citar os casos (a) e (b) abaixo:
a) Vossa mercê (expressão lexical) > Vosmecê > Você > cê (pronome/clítico) b) Estar (item lexical, estar de pé) > estar (auxiliar) > ta (auxiliar/clítico?)
Segundo Newmeyer (2000), quatro fatores podem ser utilizados para explicar a ocorrência desse processo, a saber:
(i) Princípio da quantidade: relativo à relação icônica, já explicitada, entre a quantidade de informação veiculada e a quantidade de codificação lingüística. Vale ressaltar, no entanto, que nem sempre uma forma reduzida é a responsável pela veiculação da menor quantidade de informação. Vejamos o exemplo:
Mary doesn’t study linguistic any more: nesse caso not se reduz mesmo veiculando informação
importante, o que não ocorre com does.
(ii) Lei do menor esforço: as expressões lingüísticas mais freqüentemente usadas tendem a ser encurtadas;
(iii) Valor da informação: pressuposta correlação entre o valor da informação de um determinado signo lingüístico e a quantidade de material empregado para expressá-lo (princípio distintivo entre itens que veiculam informação referencial e gramatical);
(iv) Motivação física: quanto mais uma determinada entidade física é usada, mais provavelmente ela se esgotará, o que leva a uma relação entre a freqüência de uso de um elemento gramatical e a redução da substância fonética experimentada por ele.
Toda essa abordagem acerca dos mecanismos que operam a GR mostra que a direcionalidade típica, atribuída a esse processo de mudança pelos teóricos, pode ser visualizada nos diferentes níveis da língua:
(i) nível semântico: significados mais concretos se tornam mais abstratos, não podendo ocorrer o fenômeno inverso42.
(ii) nível fonético: a mudança recobre a uma redução da substância fonética.
(iii) nível morfossintático: ocorre um processo de recategorização, que deve partir de uma categoria maior ou intermediária, em direção a uma categoria menor. Assim, nomes podem, via processo de GR, se transformar em advérbios e estes em conjunções ou mesmo preposições, não sendo provável, no entanto, ocorrer a derivação inversa.