A literatura profética critica abertamente o sistema sacrifical de Israel: “Porque eu
quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais que holocausto” (Os 6,6). Amós fala dos sacrifícios com ironia 163.
Pela manhã oferecerei vossos sacrifícios e ao terceiro dia os dízimos. Queimai pão fermentado como sacrifícios de louvor proclamem vossas oferendas voluntárias, anunciai-as, porque é assim que gostai israelitas! (Am 4,-4b-5).
161 Cf. PLEIN, Ina Willi. Sacrifício e Culto no Israel do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2001. p. 26. 162 Cf. PIXLEY, Jorge. Exige o Deus verdadeiro sacrifícios cruentos? In: ASSMANN, Hugo (org.). René
Girard com Teólogos da Libertação: um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. Petrópolis: Vozes, Piracicaba: UNIMEP, 1991. p. 205.
163 Para um estudo mais aprofundado sobre o profetismo indicamos: SICRE, José Luis. A Justiça Social nos
Profetas. São Paulo: Paulinas, 1990; SICRE, José Luis. O Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a
Miquéias também critica a lógica sacrifical:
Com que me apresentarei a Iahweh, e me inclinarei diante do Deus do céu?
Porventura, me apresentarei com holocaustos ou novilhos de um ano?
Terá Iahweh prazer nos milagres de carneiros ou nas libações de torrentes de óleo? Darei eu meu primogênito pelo meu crime.
o fruto das minhas entranhas pelo meu pecado?
Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom, e o que Iaweh exige de ti: nada mais do que praticar a justiça, amor e bondade
e te sujeitares a caminhar com Deus! (Miq 7, 6-8).
Para Miquéias, nenhuma relação humana é verdadeiramente saudável, harmônica e reconciliadora, senão aquela da justiça, do amor e da bondade. Profetiza de forma incisiva a ineficácia do sistema sacrificial e a insignificância do mesmo diante dos olhos de Iahweh. A exigência fundamental de Deus é a justiça, o amor e a bondade. Eis o caminho para agradar o coração de Deus e para reconciliar-se com o próximo e consigo mesmo. “Há grande
similaridade entre as intuições girardianas, a partir de seus estudos, da Bíblia hebraica e a literatura profética acerca do tema do sacrifício” 164.
Nessa mesma linha, encontramos a denúncia de Isaías (Is 1, 10-17). Os profetas mostram que mais importante que os sacrifícios é endireitar a conduta; a solução está na conversão e não na matança de animais. Todo ritual é relativizado diante da exigência de justiça; nada agrada mais a Iahweh senão a retidão e a justiça.
Os sacrifícios de animais era uma religião que favorecia os ricos, por que tinham o que oferecer. O profeta Jeremias diz:
Porque não disse e nem prescrevi nada a vossos pais, no dia em que os fiz sair do Egito, em relação ao holocausto e ao sacrifício. Não lhes ordenei senão isto: Escutai a minha voz, e eu serei vosso Deus e vós sereis meu povo (Jer 7, 22-23).
O salmo 50 segue a mesma linha:
Escuta, meu povo! Eu vou falar; vou testemunhar contra ti, Israel, eu, o Deus, teu Deus: não te reprovo por teus sacrifícios nem pelos holocaustos, que sempre estão diante de mim. Não tomarei o novilho do teu estábulo, nem os bodes dos teus apriscos, pois são minhas todas as feras das selvas e os animais nos montes, aos milhares (SL 50, 7-10).
O salmo 40 é outro exemplo de crítica sacrifical.
Não quiseste sacrifício nem oferta, abriste o meu ouvido.
Não pediste holocausto nem expiação, e então eu disse: Eis que venho (Sl 40, 7-8).
164 SCHWAGER, Raymund. Must There Be Scapegoats: violence and redemption in the Bible. San Francisco:
O salmista canta as maravilhas de Deus na história e ineficácia dos sacrifícios. “É
preciso realizar a vontade de Deus e anunciá-la para a grande assembleia” (Sl 40,9). Não se pode esconder a justiça, o amor e a verdade de Iahweh. Novamente, aparece a rejeição do sacrifício e a valorização da conduta como fundamento para agradar a Deus e libertar-se das ambiguidades das relações humanas. Os sacrifícios não têm efeitos diante de Deus. Ele não precisa de sacrifícios 165.
Os sacrifícios não acrescentam nada a Deus que é Senhor de todas as coisas. Portanto, existiu no Antigo Testamento, principalmente nos profetas, uma crítica aberta ao sistema sacrifical; mas não uma crítica à violência do sacrifício como projeção da violência social que culmina no bode expiatório; trata-se de uma crítica moral.
Os três grandes pilares da religião arcaica, os interditos, os sacrifícios e os mitos são subvertidos pelo pensamento profético e essa subversão geral é governada pela clara emergência dos mecanismos que fundam a religião mítica. A literatura profética, absolutamente, não se constitui por relatos míticos ou mágicos. O profetismo é uma resposta singular a uma vasta crise da sociedade hebraica, agravada pelos impérios babilônico e assírio que ameaçam e destroem os pequenos reinos de Israel. Os profetas interpretam essa crise como sendo religiosa. Trata-se do esgotamento do sistema sacrifical, uma desintegração da ordem tradicional. Se essa crise é religiosa, cultural e social, é legítimo indagar se a solução, se o coração dessa crise, que é o fenômeno da transferência coletiva, máquina que gera o religioso, não irá aparecer? Girard responde afirmando, pois nos primeiros livros da Bíblia, o mecanismo fundador, aparece em várias situações numa série de textos isolados de forma rápida e ambígua. Na literatura profética, ao contrário, temos um espantoso grupo de textos, todos muito próximos uns dos outros e extraordinariamente explícitos, compostos por quatro cânticos do Servidor de Iahweh, intercalados na segunda parte de Isaías, talvez o mais grandioso de todos os livros proféticos, onde o Servidor aparece no contexto da crise profética para resolvê-la. Ele se torna, devido ao próprio Deus, o receptáculo da violência; ele é substituído por todos os membros da comunidade 166.
O anúncio profético tende a limpar-se da violência característica das divindades primitivas. Ao mesmo tempo, que atribui a vingança a Iahweh, numerosas expressões mostram que, na realidade trata-se da violência mimética e recíproca resultante dos conflitos
165 Cf. SCHWAGER, Raymund. Must There Be Scapegoats: violence and redemption in the Bible. San
Francisco: Harper & Row Publishers, 1987. p. 116.
166 Cf. GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo
humanos, embora, o Antigo Testamento não chegue a uma concepção da divindade completamente livre da violência. Em todo o Antigo Testamento, há um trabalho de fragmentação do dinamismo religioso mitológico, entretanto, não se pode afirmar que esse trabalho seja concluído pelo primeiro Testamento. Segundo Girard, mesmo nos textos mais avançados, como no quarto cântico do Servidor, subsiste uma ambiguidade no que diz respeito ao papel de Iahweh. Se a comunidade humana é apresentada como responsável pela morte da vítima em várias circunstâncias; em outras, o próprio Deus é apresentado como o principal autor da perseguição 167: “Iahweh quis esmagá-lo pelo sofrimento” (Is 53, 10).
O grande biblista alemão Gerard von Rad na sua Teologia do Antigo Testamento escreve:
Evidentemente era totalmente estranho às intuições do redator do Código Sacerdotal recomendar ao oferente qualquer ponto de vista. Destaca que o fato do Antigo Testamento manter rigorosamente o silêncio sobre o que Deus faz através do sacrifício. Enquanto, o Antigo Testamento é pleno de referimentos sobre o acontecimento divino operante entre os homens, pleno de revelação. Referente ao que Deus realiza através do sacrifício oferece silêncio e mistério 168.
Por isso, para Von Rad, é possível obter uma concepção unitária e sistemática na compreensão da pratica sacrificial hebraica.
A análise dos sacrifícios torna-se particularmente difícil pelo fato que a grande massa dos atos sacrificiais veterotestamentários com seus ritos não eram criação originária da fé em Yahweh, mas uma herança que Israel adquiriu ao entrar na terra de Caná 169.
Para Schwager, a compreensão do sacrifício no Antigo Testamento não é apenas uma instituição cultual de difícil interpretação. Além disso, há uma forte crítica profética à prática sacrificial. A grande crise de Israel que se manifesta primeiramente na destruição do Reino do Norte e durará até a destruição do Templo (587 a.C.), aprofundou a fé e fez emergir a mensagem profética. “Os profetas não reconhecem a bênção divina mediante o sacrifício. Ao
contrário, interpretam-no como expressão de falsidade e de mendicância que foram responsáveis pela crise fatal de Israel” 170.
Eu odeio, eu desprezo as vossas festas E não gosto de vossas reuniões. Porque, se me ofereceis holocaustos.
167 Cf. GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo
vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 200.
168 VON RAD, Gerard. Teologia dell’Antico Testamento. Vol. I. Brescia: Paidéia, 1974. p. 298. 169 Ibidem. p. 290.
170 SCHWAGER, Raymund. Jesus in the Drama of Salvation: toward a biblical doctrine of redemption. New
Não me agradam as vossas oferendas
E não olho para o sacrifício de vossos animais cevados (Am 5, 21-22).
O profeta Jeremias colocou a discussão se de fato o culto sacrificial é vontade de Deus.
Assim disse Iahweh dos Exércitos, Deus de Israel: acrescentai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei a carne! Porque eu não disse e nem prescrevi nada a vossos pais, no dia em que vos fiz sair da terra do Egito, em relação ao holocausto e ao sacrifício (Jer 7, 21-22).
Os profetas proclamam o verdadeiro conhecimento de Deus fundado na justiça, no amor e na misericórdia (Os 6, 6; Am 5, 21-24; Mic 6, 6-8; Is 1, 10-17). O significado fundamental da crítica profética contra o culto sacrifical é questionado pelo fato que o culto sacrifical torna-se ainda mais importante no pós-exílio. Para Schwager, o fato do culto sacrifical pós-exílio ter crescido deve ser levado em consideração. Porém, a crítica era anunciada numa situação de crise e continha uma mensagem de juízo. Não algo abstrato ou filosófico, mas um juízo histórico de Deus sobre a religião sacrifical de Israel. Segundo o teólogo de Innsbruck, foi precisamente essa dura crítica profética que permitiu que a fé em Yahweh sobrevivesse sem sacrifícios durante o exílio. O culto sacrifical pós-exílio foi levado adiante numa situação diversa e, por isso, não deveria referir-se à crítica profética pré-exílica. “No pós-exílio houve alguns elementos da mensagem profética, entretanto, permaneceu
distante de oferecer uma resposta compreensiva como nos profetas pré-exílicos” 171.
A possibilidade de expiação através do culto sacrifical era relevante apenas para os pecados inconscientes (Lv 4, 2.22.27; 5, 1-15; Nm 15, 22). Os grandes pecados conscientes: adoração aos ídolos, injustiça sistemática, as mais sérias ofensas sexuais e os assassinatos; a teologia sacrificial da fonte Sacerdotal concorda com tal reflexão, pois não conhecia nenhuma expiação para esses pecados aos quais era pedida a pena capital (Lv 20, 1-27; Nm 15, 30-36). A questão levantada pelos profetas é a salvação diante desses pecados intencionais que não são resolvidos pela teologia cultual pós-exílica. Teoricamente os pequenos pecados, não intencionais eram expiados pelos sacrifícios, enquanto, os grandes eram purificados através da eliminação do pecador da comunidade. “O culto sacrifical pós-exílico era incapaz de resolver
a problemática do anúncio profético sobre o juízo” 172.
Constatamos que o sacrifício de expiação segundo a lei refere-se a uma realidade que a ética cristã não define como pecado, porque falta um aspecto fundamental: a escolha livre do
171 SCHWAGER, Raymund. Jesus in the Drama of Salvation: toward a biblical doctrine of redemption. New
York: The Crossroad Publishing Company, 1999. p. 180.
mal. Podemos, portanto, afirmar que nesse sentido o sacrifício já era vazio; não tinha condições de libertar verdadeiramente o homem do pecado. A história do sacrifício é uma progressiva passagem da forma do sacrifício violento (aquele das religiões arcaicas) ao sacrifício não violento (aquele da inocência da vítima e do dom de si mesmo). Nesse processo, o papel do Antigo Testamento é crucial para introduzir, preparar e acompanhar essa transformação. Se aceitarmos essa passagem de uma forma de sacrifício totalmente oposta à outra, podemos supor que, o sacrifício de comunhão, seja uma fase intermediária, particularmente a páscoa hebraica que adquire um valor fundamental neste processo que conduz ao antissacrificio, ou seja, ao sacrifício de Cristo, à páscoa cristã e à Eucaristia. Para Girard, o ponto culminante deste caminho é a figura do servo de Yahweh e o livro de Jó, autênticas figuras de Cristo.