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Hva vil det si at det er en profesjonell relasjon mellom familie og hjelpeapparat?

Nessa etapa, o início dos mitos se reduz a um único traço. O dia e a noite se confundem. O céu e a terra se comunicam: os deuses circulam entre os homens e os homens entre os deuses. Acabam-se as distinções, surge uma situação de absoluta indiferenciação. As grandes crises sociais que favorecem as perseguições coletivas são vividas como uma experiência de indiferenciação. Tal situação tem conotações catastróficas: o dia e a noite confundidos significam a ausência de sol e a decadência de todas as coisas. A indiferenciação primordial, o caos original tem caráter fortemente conflitual. Os indistintos não param de lutar entre si para se distinguirem uns dos outros. Tudo sempre começa com uma batalha interminável, sem possibilidade de decisão, pois deuses e demônios se reúnem de tal modo que não conseguimos distingui-los. Há sempre a presença da má reciprocidade, que uniformiza os comportamentos nas grandes crises sociais, suscetíveis a desencadear as perseguições coletivas 47.

46 Cf. HINKELAMMERT, Franz J. Sacrifícios Humanos e Sociedade Ocidental: Lúcifer e a Besta. São Paulo:

Paulus, 1995. pp. 11-16.

Lévi-Strauss 48 foi o primeiro a descobrir a unidade de numerosos inícios míticos no fenômeno da indiferenciação. Para ele, todavia, essa indiferenciação tem valor simplesmente retórico. Segue um mito presente na obra de Lévi-Strauss que contém o esquema vitimário.

Há muito tempo, os deuses não se distinguiam dos homens e os deuses eram, na terra, os representantes diretos dos clãs. Ora, aconteceu que um deus estrangeiro, Tikarau, fez-lhes uma visita, e os deuses do país preparam-lhe um esplêndido festim; mas antes eles organizaram provas de força e de velocidade para medir-se com seu hóspede. Em plena corrida, este fingiu tropeçar e declarou que tinha se ferido. Mas, fingindo mancar, ele saltou sobre a comida armazenada e a levou para as colinas. A família dos deuses lançou-se ao seu encalço; desta vez, Tikarau caiu de verdade, de modo que os deuses dos clãs conseguiram retomar dele: um primeiro, um coco; outro, um taro; um terceiro, uma fruta-pão, e os últimos, um inhame. Tikarau conseguiu alcançar os céus com a massa do festim, mas os quatro alimentos vegetais tinham sido salvos pelos homens 49.

Segundo Girard, esse mito contém o esquema da crise mimética e de uma desestruturação violenta que desencadeia o mecanismo da vítima expiatória. A confusão inicial entre o divino e o humano é significativa. Os efeitos nefastos da crise são imediatamente atribuídos à vítima 50. Ao contrário da concepção de Lévi-Strauss, a tese de Girard mostra a indiferenciação como origem da perseguição coletiva. Ao lado dos feios, temos também os excepcionalmente belos, isentos de quaisquer defeitos. A mitologia volta-se aos extremos, enquanto polarização persecutória. O estrangeiro é sempre um modelo de vítima; um homem vindo de outro lugar, suas particularidades comportamentais resultantes de tradições culturais, pode ser mal interpretado a qualquer momento, e tornar-se motivo de perseguição coletiva, para que a comunidade possa descarregar sua agressividade e purificar- se do mal que a assola 51.

No mito, o culpado é de tal modo consubstancial ao crime, que não se pode dissociar culpa e pessoa. Essa culpa aparece como uma espécie de essência fantástica, um atributo ontológico. Em numerosos mitos, basta a presença do desgraçado na vizinhança para contaminar tudo o que o cerca, passar a peste para os homens e os animais, arruinar as colheitas, envenenar os alimentos, fazer desaparecer a caça, semear a discórdia ao seu redor. O culpado produz a desgraça tão naturalmente como a figueira produz seus figos. A definição das vítimas como culpadas, ou criminosas, é tão segura de si própria nos mitos, o laço casual entre crime e a crise coletiva é tão forte, que sequer os pesquisadores mais perspicazes

48 Cf. GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo

vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 129.

49 LÉVI-STRAUSS, Claude. O Totemismo Hoje. Lisboa: Edições 70, 1986. p. 38.

50 Cf. GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo

vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 130.

conseguiram perceber. Trata-se de uma realidade completamente inconsciente, seja para os perseguidores que para os perseguidos. Há um domínio total das emoções miméticas (ódio, rancor, vingança e intolerância). Aparece aquilo que Girard chama de indiferenciação, todos contaminados pelos mesmos sentimentos. Os envolvidos não sabem o que fazem, não têm consciência dos processos e mecanismos dos quais são protagonistas 52.

Girard nota que encontrou no mito tudo aquilo que encontrou nos textos de perseguição, com uma diferença fundamental: há sagrado nos mitos e ele, praticamente, não existe nos textos de perseguição. A mitologia vem recheada de aspectos transcendentais. Para entender a transcendência do mito, precisamos partir da culpabilidade e da responsabilidade ilusória das vítimas; é preciso reconhecer nisso uma verdadeira crença. Não há espaço para dúvidas acerca da culpa da vítima. Vastas camadas sociais se encontram às portas de mazelas tão terríveis como a peste e a graças ao mecanismo persecutório. “A angústia e as frustrações

coletivas encontram uma satisfação vicária sobre vítimas que facilmente provocam a união contra elas” 53.

A vítima é um bode expiatório. O termo bode expiatório designa simultaneamente a inocência das vítimas, a polarização coletiva que se efetua contra elas e a finalidade coletiva dessa polarização. Os perseguidores se fecham na lógica da representação persecutória e não podem mais sair dela. A polarização exerce tal opressão sobre os polarizados que é impossível para as vítimas se justificar. O termo bode expiatório resume toda a tese de Girard sobre perseguição coletiva e sobre mitologia. O aprisionamento dos perseguidores na ilusão persecutória sobre a culpa da vítima nos autoriza a falarmos de um inconsciente persecutório. Prova disso é que os mais hábeis, atualmente, procuram descobrir os bodes expiatórios dos outros, jamais descobrem quais são os seus próprios. “Comumente as pessoas não percebem

ou não reconhecem seus bodes expiatórios, não são capazes de perceberem como perseguidores de alguém, tudo lhes parece legítimo e real” 54.

O mito leva os perseguidores a professarem a uma fé inabalável no poder maléfico da vítima. Essa fé polariza todas as suspeitas, tensões e represálias que envenenaram a vida da comunidade. É preciso que a comunidade seja esvaziada desses venenos, ou seja, libertada e reconciliada consigo mesma. O mito sugere isso: o sacrifício da vítima mostra o verdadeiro

52 Cf. GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004. p. 38.

53 Ibidem. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo vitimário. São

Paulo: Paz e Terra, 2008. p. 159.

54 FORNARI, Giuseppe. Da Dioniso a Cristo: conoscenza e sacrificio nel mondo greco e nella civiltà

retorno da ordem comprometida durante a crise, mais frequentemente ainda, o nascimento de uma ordem totalmente nova na união religiosa da comunidade, vivificada pela provação que acabara de sofrer. O mito realiza a conjunção perfeita de uma vítima altamente culpada e de uma conclusão simultaneamente violenta e libertadora explicada pelo fenômeno do bode expiatório. Essa realidade resolve o enigma fundamental da mitologia: a ordem ausente ou comprometida é restabelecida pelo bode expiatório, o mesmo que primeiro a abalou. É justamente isso que acontece no mito, a vítima é considerada culpada pelas desgraças públicas e depois, a mesma vítima, resgata a unidade perdida. O transgressor se transforma em restaurador e até em fundador da ordem que ele de algum modo havia anteriormente transgredido, segundo a visão do grupo 55.

O desejo mimético é um processo histórico da crise sacrifical que engendra a rivalidade mimética. Alguém escolhe uma pessoa como modelo e deseja ardentemente aquilo que lhe pertence. Vem daí o conflito. Este conflito é contagiante. Quanto mais pessoas desejam o mesmo objeto, tanto mais pessoas haverá se envolvendo e se agitando no circuito rivalizante. O desejo mimético do objeto transforma em obsessão recíproca de rivais, quanto mais aumenta o número dos rivais, tanto mais o desejo tenderá a tornar-se o que Girard chama um “mimetismo de antagonismo”. O estágio no qual o desejo mimético alcança o nível de uma forte convergência e se chega a criar uma reunião de antagonistas é o estágio de maior violência. Nesse estágio de unanimidade mimética, todos se unem contra um único alvo: o bode expiatório. O grupo inteiro participa, de um ou de outro modo, na destruição da vítima 56.

Trata-se de um processo completamente inconsciente. A escolha do bode expiatório, enquanto alvo da unanimidade violenta, onde se descarrega o furor destruidor da mímesis negativa é um mecanismo que permaneceu inconsciente, desde a origem do mundo. A passagem do todos contra todos, para o de todos contra um é uma dinâmica inconsciente seja para os perseguidores, seja para a vítima. Ambos aceitam o mecanismo como sendo a verdade. Na visão dos perseguidores a vítima é absolutamente culpada e a vítima, atingida pela força maléfica da violência unânime, tem sua personalidade desintegrada e acaba aceitando a culpa que não tem. O poder satânico da violência domina a vítima a ponto da mesma perder completamente sua dignidade, tornando-se incapaz de resistir. Segundo Girard,

55 Cf. GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo

vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 57.

será na Bíblia hebraica, que iniciará o processo de desvendamento dessa lógica perversa, bem como o processo de resistência da vítima, na qual apresenta Jó como o grande modelo 57.

Os bodes expiatórios não curam as epidemias, as secas, e as inundações. Mas a dimensão principal da crise, o processo de má reciprocidade, liquida as sequelas interpessoais da projeção de todo o maléfico sobre a vítima. O bode expiatório age apenas sobre as relações humanas perturbadas pela crise, mas dará a impressão de agir igualmente sobre as causas exteriores: pestes, secas e outras mazelas sociais. O efeito do bode expiatório inverte completamente as relações entre os perseguidores e sua vítima. Essa inversão produz o sagrado, os antepassados fundantes e as divindades. Os grupos humanos adoecem, as relações no interior do mesmo se deterioram e depois se restabelecem, graças às vítimas unanimemente execradas; por fim, rememoram essas doenças sociais em conformidade com uma crença ilusória que facilita a sua cura, a crença na onipotência dos bodes expiatórios 58.

O mito contém sistemas de representação persecutória. Há no mito a eficácia do processo persecutório; negamos-nos a reconhecer essa eficácia justamente porque ela nos escandaliza. Sabemos reconhecer a fase maléfica da vítima, isso nos parece normal, mas não conseguimos reconhecer, ao contrário, a fase benéfica 59. Girard não tem dúvidas, o mito esconde a verdade. Aquela verdade da vítima inocente escolhida pela coletividade como bode expiatório, considerado culpado pelas mazelas da vida na comunidade, é camuflada. O mito contém uma lógica perversa, fundada na perseguição coletiva de todos contra um. “Dessa

perseguição surgiu a cultura e a lei. Defendida por todos como a maior das verdades, o mito é uma mentira. Essa mentira canaliza a violência e pacifica a comunidade” 60. O judaísmo e, principalmente, o cristianismo desmascara o mito e revela a verdade da vítima; propondo-nos o caminho do perdão e do amor para resolver os dramas e contradições das relações humanas.

57 Cf. GIRARD, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim. Rio de Janeiro: Top Books, 1999. p. 204. 58 Cf. Idem. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo vitimário. São

Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 128.

59 Cf. Idem. A Violência e o Sagrado. Rio de Janeiro: Paz e Terra; São Paulo: UNESP, 1990. pp. 32-50.

60 SCHWAGER, Raymund. Must There Be Scapegoats: violence and redemption in the Bible. San Francisco: