6.5 Systemtenking
6.5.6 Evaluering
Eu sei que o meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó:
depois do meu despertar, levar-me-á para junto dele, e em minha carne verei a Deus (19, 25-26 ).
O texto revela a profunda esperança da vítima sobre a existência de um Defensor dos seus direitos nos céus. Antes tinha invocado a terra para que não bebesse seu sangue, clamor permanente de justiça (16, 18); agora invoca o Defensor vivo que ouvirá seu clamor. Joga toda a sua esperança na teofania do Redentor e coloca a sua causa nas mãos de Deus 220. Sabe que seu Defensor entrará em ação a seu favor, mesmo que todos, até agora, estejam contra ele,
217 TERRIEN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994. p. 71.
218 Cf. GIRARD, René. La Ruta Antigua de los Hombres Perversos. Barcelona: Editorial Anagrama, 1989. p. 90. 219 Cf. Ibídem. p. 91.
desejando-lhe a condenação. No seu corpo ferido pelo sofrimento, com “a carne apodrecida
debaixo da pele” (v. 20), ao fim, verá Deus, que dará a solução definitiva para o seu caso, pois a verdade está na teofania divina e não nas acusações dos amigos. A revelação divina é o acontecimento decisivo; a última palavra acerca da inocência ou da culpa da vítima é sempre de Deus 221.
5.7.1 Problema da crítica textual
Este texto é muito famoso e de difícil compreensão 222. Jó havia reclamado a presença de um árbitro que julgasse sua causa (9, 33-35), depois pediu um mediador (16, 18-22); agora este personagem é chamado de Go’el, 223 traduzido como defensor, libertador, redentor. É um termo técnico do direito hebraico, um membro da família é o defensor do sangue derramado em homicídio (Nm 35, 19; 2 Sm 14, 11); o parente mais próximo tem direito de resgatar os bens de um falecido (Dt 25, 5-10; Rt 2, 20), no caso de perda da propriedade para que essa não saia do clã, ou quando um membro da família é vendido como escravo (Lv 25, 23-25). O verbo ga’al e o seu particípio go’el são aplicados à divindade: quando Israel é liberto da escravidão do Egito (Ex 6, 6; 15, 13); na libertação do exílio da Babilônia (Is 41, 14) e quando indivíduos são salvos da opressão e da morte (Sl 119; Pr 23, 11) 224. Ga’al é libertar. Go’el é aquele que liberta, resgata, redime, protege e defende:
E se o estrangeiro ou o forasteiro que vive contigo se enriquecer e teu irmão que vive junto dele se empobrecer e se vender ao estrangeiro ou ao forasteiro, ou ao descendente da família de alguém que reside entre vós, gozará de direito de resgate, mesmo depois de vendido, e um dos seus irmãos poderá resgatá-lo. O seu tio paterno poderá resgatá-lo, ou o seu primo, ou um dos membros da sua família, ou se conseguir recursos poderá resgatar-se a si mesmo (Lv 25, 47-49).
O termo Go’el, no direito social hebraico, indica o personagem que vinga o homicídio de um parente (cf. Dt 19, 16; Nm 35, 9), aquele que resgata os bens familiares perdidos (cf. Lv 25, 15, 47; 27, 13) e dá prosperidade a um parente morto sem filho, casando-se com a viúva, segundo a lei mosaica (cf. Dt 25, 5-6). Go’el, aplicado para Deus, reivindica um verdadeiro parentesco, uma aliança de sangue entre Deus e Israel, no qual o Senhor empenha- se na libertação do povo da escravidão no Egito (cf. Ex 6, 6; 15, 13), do exílio babilônico (cf. Jer 1, 34). Go’el é um vocábulo caro ao Dêutero-Isaías que lhe dá uma nova dimensão, no
221 Cf. GORDIS, Robert. The Book of Job: commentary new translation and special studies. New York: Jewish
Theological Seminary of America, 1977. pp. 47-52.
222 Cf. PIXLEY, Jorge. El Libro de Job: comentario bíblico latinoamericano. San Jose, Costa Rica: Ediciones
Sebila, 1982. p.104.
223 Cf. SCHÖKEL, Alonso; SICRE DIAZ, Jose Luiz. Giobbe. Roma: Borla, 1985. p. 333. 224 Cf. TERRIEN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994. p. 170.
qual o vingador do sangue inocente torna-se o defensor da justiça 225 (cf. Jer 50, 34; Pr 23, 11; Sl 119, 54).
Deus é visto como um parente próximo, protetor e vingador do povo de Israel, especialmente dos pobres indefesos, excluídos da sociedade. Através da Aliança, o povo torna-se família de Deus, por isso quando ofendido, Iahweh toma a sua defesa (Is 43, 14; 44, 6-24; Sl 68, 6-7). Como dissemos, o texto é polêmico. Jó apela a Deus ou a um terceiro personagem? Gerhard Von Rad afirma que Jó refere-se a Deus. Jorge Pixley e Ernest Bloch acreditam que o Defensor de Jó não é Deus, mas um mediador, no contexto do direito hebraico. Nós consideramos que o Go’el, ao qual Jó espera, ansiosamente, como seu Defensor, é o Deus transcendente e misericordioso, solidário com as vítimas inocentes do mundo 226.
5.7.2 Interpretação de são Jerônimo na vulgata
A Escola Patrística Latina, desde Clemente Romano até Agostinho, interpreta o versículo como uma afirmação solene de fé na ressurreição. Na Vulgata de São Jerônimo vê- se claramente essa ideia:
Scio enim quod redemptor meus vivat et in novissimo de terra surrecturus sim et rursum circumdabor pelle mea et in carne mea videbo Deum quem visurus sum ego ipse et oculi mei conspecturi sunt et non alius
reposita est haec spes mea in sinu meo (19, 25-27) 227.
A Patrística e a Vulgata interpretam a ação do Go’el, no Livro de Jó, como ressurreição dos mortos. São Jerônimo analisa o texto numa perspectiva cristã, apresentando-o como fundamento da ressurreição da carne. O Go’el seria, na visão da Vulgata, o Deus que daria vida aos mortos no sentido cristão. O texto é um anúncio da ressurreição de Cristo. A exegese moderna deixa claro que Jó 19, 22 não tem essa conotação cristológica. Ao contrário, o texto trata da defesa e da libertação do oprimido numa dimensão humana concreta e não escatológica.
Não temas, vermezinho de Jacó, e tu, bichinho de Israel.
Eu mesmo te ajudarei, oráculo de Iahweh; O teu redentor é o Santo de Israel” (Is 41, 14).
225Cf. TERRIEN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994. p. 174.
226Cf. GIRARD, René. La Ruta Antigua de los Hombres Perversos. Barcelona: Editorial Anagrama, 1989. p. 89. 227 BIBLIA: VULGATA. 12. ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2005. p. 435.
O Go’el é haj (vivo), e está pronto para entrar em ação. Levantar-se-á como Testemunha, uma espécie de advogado de defesa nos processos para defender o assistido injustamente condenado (cf. Sl 27, 12; 35, 11; Dt 19, 15-16). O Go’el levantar-se-á como
‘aharon (último), depois de todos os pronunciamentos condenatórios dos amigos. Não há um sentido escatológico como supôs a Vulgata. Trata-se de um sentido jurídico no qual Deus apresenta-se como a prova definitiva, último a manifestar-se para estabelecer a verdade. Levantar-se-á sobre o pó (‘al’afar), isto é, sobre a terra, referindo-se à condição humana que se inicia e se apaga no pó (cf. Gn 3, 19; Ecl 3, 20). Não é um intervento escatológico, mas temporal. O Go’el falará a um Jó completamente destruído, “sem carne”, entretanto, realizado, pelo fato de contemplar o Deus que mostra a Verdade da sua inocência. Deus Go’el salvará Jó da morte em um julgamento libertador. A justiça salvadora de Deus estabelece a justiça do homem salvo, ou seja, aparece uma nova antropologia, que supera a tese da retribuição. O amor de Deus é a última palavra acerca do sofrimento do inocente 228.