O mito responde sistematicamente que sim. A Bíblia responde sistematicamente que não 188. A radical oposição de princípio entre mito e Bíblia nos mostra que a tradição bíblica é fundamentalmente antimitológica, além de revelar a essência do mito que até então era invisível. Os mitos sempre condenam as vítimas que, perseguidas pela coletividade, acabam devoradas pela violência do grupo. O mito é o resultado da multidão enfurecida, incapaz de
187 GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. p. 149.
188 Essa é uma afirmação largamente defendida por Girard, está no núcleo da sua teoria: o processo mimético
que forma o mito e o sagrado violento tem como essência a violência de todos contra um, mas o mecanismo mimético que conduz ao sacrifício do bode expiatório esconde a verdade. Girard mostra que a história das relações humanas desde a origem do mundo foi construída em cima da mentira de Satanás. O mito é resultado do sacrifício do bode expiatório, como as razões deste sacrifício são mentirosas e a vítima inocente, logo, o mito esconde a verdade. A Bíblia hebraica e principalmente os Evangelhos revelam a verdade da vítima e a mentira do mito. Cf. GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. p. 151.
perceber as razões da própria fúria; por isso, projeta sobre uma vítima inocente e indefesa sua violência destruidora.
Na história de José, os dez irmãos, passam fome na Palestina e precisam fugir para o Egito. Ali não reconhecem José com seus esplêndidos hábitos de primeiro ministro, mas José, ao contrário, os reconhece e sem apresentar-se, os interroga discretamente sobre Benjamim, seu irmão caçula que ficou na Palestina, por medo que uma possível desgraça provocasse a morte do velho pai Jacó. Doa-lhes comida e adverte-os, que se retornassem uma segunda vez, sem trazerem consigo Benjamim, não receberiam nenhuma ajuda 189. José impõe aos irmãos uma tentação que conheciam bem, depois de entregá-lo, a uma caravana, como escravo, agora abandonam o irmão mais jovem e frágil. Caem novamente na mesma tentação. Apenas Judá resiste, oferecendo-se no lugar de Benjamim. Como recompensa desse gesto, José, em lágrimas, perdoa todos os irmãos e toda a família no Egito.
O triunfo de José mostra que na Bíblia a violência não é resolvida pela vingança e pelo sacrifício, mas pelo perdão, única força capaz de superar definitivamente o “pingue-pongue” mimético, até então, interrompida provisoriamente pela expulsão unânime. A história do Gênesis acusa os dez irmãos de odiarem José sem motivo e sentirem inveja, devido uma liderança que gerava admiração no pai, Jacó. Portanto, a verdadeira causa da expulsão é mimética 190.
O texto bíblico nos ensina uma resistência sistemática das expulsões coletivas na qual se fundamenta o discurso mitológico. O confronto entre Édipo e José revela a deliberada intenção do autor bíblico de apresentar um novo paradigma, completamente diferente daquele defendido pela mitologia; na sua essência justificadora da violência coletiva, acusadora e vingativa. A Bíblia crítica a violência do mito. Girard não entra na questão da crítica textual, na veracidade ou não da história de José, quer apenas mostrar que o texto bíblico assume uma nova postura 191.
No mito, a violência arbitrária prevalece, ainda que inconscientemente. No universo bíblico, essa violência é identificada, desmascarada, denunciada e perdoada. A história de José é a negação das ilusões religiosas do paganismo 192. Revela o valor absoluto do Deus vivo. Entretanto, não são todas as vítimas da Bíblia hebraica que têm o mesmo destino de
189 Cf. GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. p. 150. 190 Cf. Ibidem. p. 154.
191 Cf. VALADIER, Paul. Violenza del sacro e non violenza del cristianesimo nel pensiero di René Girard. La
Civiltà Cattolica, Napoli, vol. 134, n. 4, p. 270, 1983.
José. Muitas morrem abandonadas por todos, circundadas por inimigos poderosos. No contexto bíblico, os homens são tão violentos quanto no contexto mítico.A diferença está na interpretação que a Bíblia dá à violência; diferentemente do mito, não é fundadora de religião. O Deus da Bíblia não nasce da violência coletiva contra o bode expiatório. O Deus do monoteísmo hebraico é transcendente e eterno. Além do mais, na Bíblia, Deus é solidário à vítima e contra os perseguidores. Girard acredita que o texto bíblico seja a primeira manifestação da história humana a defender a vítima e a desmascarar a violência da multidão. 5 Jó: a resistência da vítima
O Livro de Jó 193 aparece dentro do contexto bíblico, como etapa decisiva no processo de superação do sagrado violento. Nossa intenção é mostrar que o mecanismo vitimário existe no Livro de Jó, porém com novidades determinantes, que explicaremos a seguir.
O processo desencadeia-se a partir da mentira de Satanás (cap. 1, 9-11). Com a acusação mentirosa de Satanás, a violência unânime do mecanismo vitimário desemboca contra a vítima inocente. A mentira do Inimigo que provoca a queda do inocente é sacralizada, e o sofrimento imerecido do justo, é legitimado ideologicamente como sendo vontade de Deus. A mentira sacralizada de Satanás é encarnada na voz dos amigos. Estes, seduzidos pela mentira do Inimigo, acusam a vítima inocente de merecedora do castigo divino. Despejam assim, a violência unânime contra Jó e exigem a condenação sacrifical do inocente (cap. 4-5; 8; 11; 15; 18; 20; 22; 25-26).
A novidade fundamental de Jó está no seguinte fato: a vítima protesta e quer uma explicação convincente sobre os verdadeiros motivos de sua condenação. A verdade vem da vítima inocente e não da coletividade perseguidora a própria vítima não aceita a condenação. Numa sociedade violenta, exige-se justiça; primeiro, diante da sociedade representada pelos amigos (cap. 7; 9; 12-14), e depois, diante de Deus, seu Juiz e Testemunha (cap. 16-17). A vítima é redimida e os acusadores são acusados pelo Salvador da vítima. Jó enfrenta um duro combate contra a sociedade representada pelos amigos; contra a religião oficial representada pela tese da retribuição e contra si mesmo. Enfrenta com coragem o processo de integração, mesmo havendo experimentado sua debilidade física, no entanto, sua esperança permite
193 Jó é um personagem simbólico e mítico, que, como no caso de Adão, simboliza todos os homens na
experiência do sofrimento. O mal é algo insondável e injustificável que se impõe ao homem independentemente da sua conduta. O livro de Jó tematiza o mal moral, em contraponto com a inocência de seu protagonista. Cf. ESTRADA, Juan Antonio. A Impossível Teodicéia: a crise da fé em Deus e o problema do mal. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 82.
avançar para um nível superior da consciência, o que consegue não pelas próprias forças, mas contando com o Deus Go’el, seu redentor e defensor. Jó busca, implora, acredita e recebe a revelação de Deus. No encontro das liberdades de Deus e de Jó, este descobre o sentido profundo da existência humana e atinge a integração através do dom gratuito do Deus misericordioso (cf. 16-17; 19) 194.