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3.6 Mesterlære
No tocante às opiniões dos professores sobre a participação dos pais na vida escolar (R), focamos aqui o que diz respeito às actividades em que participam os pais, às actividades em que devem participar, às características dos pais que mais participam, às características dos que menos participam e à iniciativa para a participação. Assim, segundo os dados, e que sistematizamos no quadro XII (Anexo 5), para a maioria dos professores entrevistados, as actividades em que os pais participam, são praticamente as mesmas em todas as escolas. Afirmam:
"participam em festas, reuniões, passeios, Janeiras, desfile de Carnaval";
"colaboram na organização de festas, no transporte de alunos a visitas de estudo, participam em reuniões, passeios";
"participam sempre nas festeis da escalei, nos passeios...". Também em relação a este aspecto se confirma a conclusão a que chega Pedro Silva (2001: 455), no seu estudo, quando diz que em quase todas as escolas ocorrem regularmente "rituais colectivos (reuniões, festa de Natal, magusto, etc.)", onde os pais são meros espectadores ou "meros consumidores destes rituais". Somente três professores apontaram os pais como organizadores de determinadas actividades, afirmando:
"organizaram o passeio da escola que foi feito com os pais..."; "...eles quiseram participar... fizeram teatros, fizeram canções, fizeram um número de palhaços, organizaram um lanche... o mesmo se passou com o Carnaval... eles organizaram-se, fizeram as fatiotas para os meninos e fizeram para elas próprias e andaram para aí a desfilar...";
"... a festa de natal do ano passado foi feita por eles...".
Convém referir que se trata de situações de participação esporádicas e que não são práticas comuns a todas as escolas contempladas neste estudo.
Questionados os professores sobre as actividades em que devem participar os pais, praticamente todos os entrevistados consideram que, além daquelas actividades em que normalmente os pais participam (reuniões, festas, passeios, feirinhas...), devem participar ainda em campanhas de angariação de fundos e sempre que haja necessidade de reivindicar junto das entidades competentes melhores condições para a escola:
"eu acho essencial eles participarem em tudo o que favoreça o bom funcionamento da escola... eu acho que os pais podem ter um papel muito importante na manutenção e conservação da escola... a escola é deles e devem protegê-la.";
"... angariar fundos para melhorar o funcionamento da escola... eles podem participar na planificação de actividades...".
Muitos foram os professores a considerar que devem ser os pais a organizar algumas das actividades da escola. Por isso afirmaram:
"Tirando as festas, organizar passeios, fazer tudo o que possa contribuir para o bom funcionamento da escola... há actividades
que podiam ser organizadas pelos pais como: organizer o magusto, tratar da missa da Páscoa...";
"... em actividades extra-curriculares como: festas, convívios, passeios... acho que não devem vir só assistir, devem organizar essas actividades. ";
"os pais não devem participar só como espectadores das actividades que se fazem na escola, os pais devem propor actividades para a escola e participar na sua organização".
Como já foi dito atrás, a organização de actividades tem sido, em muitas escolas, tarefa exclusiva dos professores. No entanto, verificamos que a maioria dos professores entrevistadas pretende maior colaboração dos pais, transferindo para estes a responsabilidade da organização de determinadas actividades. Esta situação, tal como no estudo de Ana Benavente (1990: 148), leva-nos a concluir que, os professores entrevistados entendem "o papel dos pais como um papel consultivo ou de colaboração e apoio quando, onde e como as professoras o determinam". Isto é, "trata-se de relações em sentido único centradas na instituição que as limita e controla, pois têm o poder de decidir dos modos que assumem estas relações" (Ibidem).
Apenas duas professoras se referiram à participação dos pais na sala de aula. Uma destas professoras declara que "sempre que os pais entendam que devem vir à escola ouvir o menino a 1er para lhe dar apoio", para si este envolvimento dos pais "é fundamental". A outra professora acrescenta que os pais "podem ajudar em aulas práticas sobre assuntos que dominam, por exemplo: bordados, carpintaria, agricultura...".
Como podemos constatar, a participação dos pais na sala de aula não é uma prática das escolas, nem sequer foi mencionada pela maioria dos professores nos seus discursos. No nosso entender, os professores, enquanto gestores do currículo, devem adoptar outra postura que valorize as aprendizagens significativas que podem advir com a participação activa da comunidade onde estão inseridos os pais dos alunos. A justificação para este facto vai ao encontro da opinião de José Diogo (1998: 175) quando afirma que
"a insegurança dos professores parece manifestar-se sobretudo na prática pedagógica, interpretando-se uma eventual intervenção das famílias neste domínio como uma ingerência nas funções educativas do professor ou uma situação ameaçadora da autonomia pedagógica do professor na sala de aula". Neste sentido, parece-nos que a maioria dos professores por nós contactados pretende que o relacionamento com as famílias se faça longe da sala de aula, de preferência com "bons pais". E, no dizer de Powell, "o bom pai" para os professores é aquele que não intervém nos assuntos da sala de aula, mas que todavia apoia os esforços do professor (citado por Afonso, 1993).
Saliente-se que somente uma professora referiu a participação com medidas drásticas a tomar pelos pais, considerando que eles "podem sentir-se no direito de fechar a escola por causa de uma possível epidemia de uma determinada doença", ou no caso de haver "professores que merecem que os pais tomem medidas". Esta atitude não é partilhada pela generalidade dos professores, antes pelo contrário, aquilo a que se assiste frequentemente, é a opção pela defesa da classe.
É ainda interessante verificar que tal como aconteceu quando os pais nos manifestaram as suas opiniões, também os professores não fizeram qualquer menção às possibilidades dos pais participarem na gestão da escola. Este facto leva-nos a concordar com a tese de Licínio Lima (1998: 334) quando afirma que "uma intervenção dos pais, ou de outros membros externos à escola, em áreas e em órgãos de gestão escolar, sobretudo pedagógica, representará uma interferência de não especialistas em áreas de decisão, sendo compreensíveis as reacções negativas por parte dos docentes". Note-se que esta ideia reforça também o que dissemos atrás sobre a participação dos pais na sala de aula.
Em relação às características dos pais que mais participam, a maioria dos professores entrevistados refere que são as mães que participam mais, que são elas que se interessam pela educação dos filhos e que têm alguma disponibilidade para o fazer. Afirmam:
"algumas porque gostam... porque têm disponibilidade de tempo... eu acho que o mais importante para participarem é o interesse que dão ã educação dos filhos";
"são pais que se interessam pela vida escolar dos filhos... quase sempre são as mães que vêm ã escola... normalmente trabalham em casa a rematar peças das fabricas de confecção".
Tivemos também uma professora que caracterizou os pais que mais participam como "pais interessados, mas sobretudo curiosos, principalmente os pais dos alunos do 1o ano que estão cá todos os dias para ver como a
professora trata os filhos". De facto, no 1o ano do 1o Ciclo, a maioria dos pais
preocupa-se com a adaptação dos filhos à escola e, por isso, demonstram maior interesse pela sua educação.
Para alguns professores, as características dos pais que mais participam estão directamente ligadas às características dos filhos, considerando que aqueles que mais participam são os que têm filhos que não apresentam dificuldades de aprendizagem. Dizem:
"... normalmente são pais de alunos muito certinhos, interessados, que aprendem bem, que trazem tudo sempre direitinho... esses é que vêm regularmente ã escola".
Quanto às características dos pais que menos participam, os professores entrevistados, ao contrário do que dissemos atrás, consideram que a maioria desses pais tem fracas expectativas em relação ao percurso escolar dos filhos. Afirmam:
"quase sempre são os mais humildes... e os que têm filhos com problemas comportamentais na escola... esses... muitas vezes nem quando são chamados... os pais raramente aparecem à escola...";
"não aparecem aqueles que são pobres e aqueles que pensam que os filhos não sabem nada, aqueles que têm uma ideia que os filhos não têm capacidades e, normalmente, essas famílias têm muitos filhos... não aparecem , têm mais que fazer... têm baixas expectativas dos seus filhos";
"são os pais que têm filhos com mais dificuldades de aprendizagem, não gostam de estar em reuniões com receio de que se fale dos filhos na frente de todos, depois, sozinhas, vêm falar com a professora".
São também muitos os professores que caracterizam os pais que menos participam como "desinteressados":
"... outros pais que não vêm à escola são pais em que se nota um bocado de desinteresse pelas actividades escolares dos filhos e não valorizam muito a escola";
"os que não aparecem são os desinteressados";
"são pais novos, desinteressados e com mentalidades um bocado atrasadas... dizem que vêm amanhã, que vêm depois e nunca aparecem".
No que diz respeito à iniciativa para a participação dos pais, a maioria dos professores afirma que, embora alguns pais se desloquem à escola por iniciativa própria para tomar conhecimento sobre o percurso escolar dos seus filhos, quando é necessário participar em actividades da escola, tal só acontece por solicitação dos professores. Eles dizem:
"há pais que vêm à escola por sua iniciativa, mas não são a maioria... a maioria vem por solicitação dos professores para reuniões ou para tratar de assuntos sobre os filhos";
"já há pais, embora não muitos, que já tomam a iniciativa de vir à escola, mas uma grande parte ainda aguarda pela chamada por parte da escola";
"temos nós a iniciativa, mas também são eles quando lhes interessa... para já é mais por iniciativa dos professores".