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No início do século XX, o reconhecimento do potencial político da Arquitetura adquiriu uma relevância imensa para o avanço de uma vanguarda, que então começara a despontar, que preconizava a ruptura com a tradição arquitectónica do passado. Hoje em dia, porém, crê-se que esse potencial (talvez nunca conquistado) terá sido feito refém das realidades económicas de um mundo veiculado à consciência do global.

A arquiteta Lina Bo Bardi29 descrevia a Arquitetura como uma questão

essencialmente social, devendo a obra arquitectónica, portanto, ser interpretada no contexto da estrutura política na qual se inscreve. Em Anarchitecture: Architecture

Is a Political Act, Woods (1992) subscreve também esta noção de que a

Arquitetura é inseparável das condições políticas subjacentes à sua produção, sendo, por conseguinte, um ato político indissociável das relações humanas e dos modos de vida que o potenciam.

Pier Vittorio Aureli, influenciado pela teórica política Chantal Mouffe, e em conformidade com a divisa do corpo crítico de Mouffe, assere mesmo que a Arquitetura é sempre política30 – seja através do consenso, seja através do conflito

que a sua presença sempre envolve ou origina –, visto que é a expressão das estruturas de autoridade ditadas por uma determinada ordem hegemónica vigente numa determinada sociedade (v.g. o capitalismo neoliberal global). Tal constatação permite-nos inferir que, tal como Reinhold Martin 31 realça, a agência

29 Lina Bo Bardi (1914-1992) foi uma arquiteta italiana que sempre insistiu em tornar central o contexto

sociopolítico do seu corpo de trabalho. Nesse sentido, grande parte das suas obras lidavam com a preservação histórica – não necessariamente de edificado mas, no seu caso, da preservação da alma

popular da cidade – ou com as necessidade das comunidades mais pobres.

30 How is Architecture Political?: Mouffe in conversation with Aureli, Martin, Weizman and Whiting, The Architecture Exchange.

e autonomia da Arquitetura estão à mercê dos mecanismos económicos e governamentais que condicionam a forma arquitectónica.32

Segundo uma concepção idêntica à de Woods e de Bo Bardi sobre as relações entre as dimensões política e espacial, Léopold Lambert (2014) sugere que o modo como a prática do design se divulga deve ser reajustado por forma a que o seu exercício integre a “totalidade do projeto político”, no qual os efeitos de um qualquer objeto sobre um corpo, sobre o espaço que este ocupa e sobre a sua agência, são considerados.33

Delimitado e modulado pela arquitetura do último século – e em virtude do seu carácter político e social – o espaço do presente é também um espaço heterogéneo, afere Foucault. 34 Esta heterogeneidade revela-se através dos espaços

arquitectónicos e do modo como estes se manifestam “sobre a forma de relações entre lugares”,35 a fim de alcançarem certos objetivos. Estas relações que

estabelecem entre si tornam estes espaços indecomponíveis e não passíveis de se sobreporem a outros.

No interstício dos espaços heterogéneos existem, segundo Foucault, as heterotopias: espaços que se relacionam com todos os outros mas que, pela sua natureza, os contradizem. As heterotopias são representações daquilo que é considerado indesejável ou incómodo durante o processo de edificação de uma utopia.36

Foucault descreve a heterotopia como sendo o espaço, simultaneamente físico e mental, que se forma quando uma sociedade concebe as possibilidades da utopia mas a realidade em que os seus sujeitos existem é exterior ao domínio do utópico, sendo por isso um espaço paralelo – não-hegemónico, de alteridade (otherness) e ruptura – a um outro espaço.

A heterotopia é um repositório daquilo, ou daquele, que é apátrida em relação aos aspectos de aperfeiçoamento do percurso de uma sociedade rumo à utopia. Neste

32 Martin, R., Occupy: What Architecture Can Do, Places Journal.

33 Lambert, L., Topie Impitoyable. Bodies/Objects, Design and Violence, The Funambulist. 34 Foucault, M., op. cit., pp.46-49.

35 Tradução livre. Citação original: “[s]ous la forme de relations d'emplacements.” Idem, pp.46-49. 36 A utopia é uma idealização aperfeiçoada da realidade; é um sítio sem espaço físico que, por analogia

sentido, a utopia é um espaço que não é real. A sua influência, todavia, – como objeto de desejo e circunscrição do território mental – paira sobre uma série de espaços reais, que podem ser heterotopias mas dos quais a heterotopia se distancia, e sobrepõe outros espaços a um real, na medida em que os contesta ou inverte. Por este motivo, Foucault assegura que a heterotopia, ironicamente, por seu lado, funciona como um meio de fuga à repressão ou autoritarismo das contingências sociais, económicas e políticas das sociedades e dos ambientes humanos.

As heterotopias são várias; podem ser de crise – quando surgem em resposta a uma situação indesejada no seio de uma sociedade – ou de desvio – quando a sua narrativa diverge da narrativa da normalidade e dos seus preceitos (v.g. lares, hospitais psiquiátricos, prisões, comboios, cemitérios). Museus e bibliotecas, por nascerem da vontade de preservação do tempo, existem fora de qualquer tempo específico e são imunes à sua passagem destrutiva, sendo por isso, também, heterotopias. Os festivais, feiras ou outro tipo de eventos esporádicos são, por sua vez, heterotopias efémeras, pertencentes a um tempo limitado que está destinado a desaparecer. Por isso, uma heterotopia está sempre relacionada com fragmentos de tempo e difere do tempo cronológico, que é linear. Pode-se então afirmar que os espaços reais da heterotopia só existem em relação a outros, e não subsistem sem eles e sem a oposição ou conflito que estes lhes colocam.

O facto de a arquitetura poder conter, na sua essência, aspectos políticos não é uma ideia nova, uma vez que o seu papel é considerado múltiplas vezes em termos da sua instrumentalização, como referido anteriormente em Botton (2006). Também Sparshott (1994) e al-Sabouni (2016) caracterizam a arquitetura como a organização coerciva do espaço social; ao assumir a estética da violência, do controlo de comportamentos, da monitorização de percursos e do estabelecimento de ritmos maquinais, a ação da arquitetura dá forma a construções que encerram determinados compromissos políticos e que por isso manipulam a agência, interações e autonomia das pessoas que com estas estruturas estabelecem contacto. O aprofundamento da questão da ocupação é particularmente importante se se assume, como no caso desta investigação, que o espaço – e por extensão a Arquitetura – é inerentemente político. Quando um corpo ocupa um espaço, explica Lambert (2014), este corpo/objeto impede que um outro ocupe esse mesmo espaço. Esta ação, tendo em conta a natural finitude material do espaço,

implica uma relação de exclusividade: estabelece-se uma troca entre o vazio e o corpo ou entre um corpo e outro corpo. O conflito estabelecido pelo choque entre a agência individual dos dois corpos resulta numa circunstância de violência que é, em essência, política. Só a confrontação com a inevitabilidade da violência contida na ação de ocupação nos permitirá controlar as condições em que esta opera. O espaço, a arquitetura e o corpo devem portanto contrariar, mediante um esforço antagónico – e proporcional em intensidade – a tendência violenta do poder, que frequentemente se impõe e alastra pela vontade de um sujeito ou pela simples ausência de uma reação. Lambert acrescenta que a intensidade política de uma dada situação de ocupação (da violência pré-existente) é “proporcional ao nível de antagonismo entre corpos e objetos” criado por essa mesma ocupação.

Em suma, como produto da ordem política e do capitalismo neoliberal contemporâneo e como elemento passível de instrumentalização, o espaço da Arquitetura é também um espaço social e hierárquico, onde a diferenciação de usos ou a viabilização de acessos aos seus recursos são elementos definidores de relações de poder. Nesse sentido, torna-se imperativo reconhecer que a agência e autonomia da Arquitetura estão inteiramente dependentes da aptidão crítica – democrática e agonística – que uma sociedade, através de um esforço colectivo, seja capaz de reunir.37

37 How is Architecture Political?: Mouffe in conversation with Aureli, Martin, Weizman and Whiting, The Architecture Exchange.