7. Utvikling gjennom nettverk
7.3 Avslutningskommentarer
7.3.2 Mer differensiert kunnskap
A solução proposta pelas ciências sociais não deixa de ser aparente, pois pelo menos duas questões ficam abertas acerca do interesse pela história. Por um lado, a pergunta acerca de uma história erudita, fruto da história monumental, e, por outro, a questão da racionalização decorrente da história pragmática, como, por exemplo, o que se verifica nas teorias do direito, da economia e da constituição, como bases do julgamento crítico e técnico sobre o presente. É inegável o fato do desenvolvimento histórico de cada um destes brações das ciências sociais;
porém, não é menos inegável que um interesse subjaz a esse desenvolvimento, impondo-se mais uma vez como tema para o historiador.
O conceito de história pragmática é importante porque permite que se coloque devidamente o problema do interesse a partir da sua relação com a situação. Deste modo, ficam lançados os termos para o próximo passo na construção do quadro teórico de Weil para uma filosofia da história, pois posta a importância decisiva do interesse e da situação para a compreensão da história pragmática, resta pensar o terceiro elemento fundamental da reflexão, a saber, aquele da relação entre ambos. Duas interrogações se impõem à tentativa de compreensão da estrutura argumentativa a ser erguida: primeiro, se a situação, além de ponto fixo a partir do qual o homem interroga a história, não é também um objeto do interesse; segundo, se o interesse pela situação é de uma ordem diferente daquele pela história. Nos dois casos as perguntas se dã̔ c̔m̔ traduçã̔ de uma ai̓da mais fu̓dame̓talμ “̔ que é ̔ h̔mem a̓tes de se i̓teressar pela históriaς Em que se̓tid̔ seria ai̓da h̔memς” (WEIδ, 1991a, p. 214).
Mais uma vez, trata-se da passagem da questão da história àquela sobre o homem. Supondo sempre a capacidade humana de colocar questões, é preciso ainda compreender que a importância daquilo que é posto se dá justamente porquanto pode encontrar as imposições da situação de quem interroga, isto é, que abra caminhos à sua superação. Como, porém, estar seguro de que a questão formulada é, de fato, essencial à sua situação? Para Weil, trata-se sempre de um fals̔ dilema, p̔is “̔ h̔mem só existe p̔r sua decisã̔ e dep̔is delaν ape̓as quando se decidiu, a situação se torna verdadeiramente sua situação, e não mais um momento qualquer da duraçã̔ i̓fi̓ita d̔ temp̔ ‘̔bjetiv̔’” (WEIδ, 1991a, p. 215). Em outros termos, apenas depois de perceber sua situação, o homem pode formular qualquer questão minimamente sensata, e esta situação é essencialmente identificada também com a sua história, de tal f̔rma que ̔ i̓divídu̔ p̔de dizer simplesme̓te, “eu s̔u ̔ meu passad̔” (ARτσ, 1948, p. 85).
Aparentemente, nós chegamos a um círculo vicioso: Na realidade, trata-se de um falso problema: o homem já se decidiu desde sempre. Ele não se volta abruptamente à história, ele vive nela. Possui ancestrais antes de se perceber
c̔m̔ “eu mesm̔”, a̓tes de ser i̓quietad̔ pela questã̔ e pela ̓ecessidade de
se decidir. A língua que ele fala, o mito no qual acredita, os conhecimentos que guiam sua orientação, os costumes que ele segue o colocam numa unidade de uma existência que é concreta e concretamente determinada porque se desenvolveu através das decisões consciente e inconscientes do passado. O homem vive num mundo humano. Ele não seria homem, nem para si, nem para os outros, se não fosse homem deste modo determinado (WEIL, 1991a, p. 215).
Sua faculdade de se admirar e pôr questões, porém, não significa imediatamente o exercício de formular perguntas. O homem pode viver neste nível, numa vida que orbita exclusivamente ao redor do seu ofício, da sua tradição, do seu interesse pelas coisas e por seus negócios. Coerentemente com aquilo que Weil desenvolverá futuramente na Lógica da filosofia, “̓ã̔ é ̓ecessári̔ que ̔ h̔mem ‘ve̓ha a si’” (WEIδ, 1λλ1a, p. 21η). Um “vir a si” que se realiza justamente na pergunta, possível, não necessária, que o homem dirige não mais aos objetos, mas a si mesmo, a partir daquela situação que é a sua, única capaz de oferecer o terreno não apenas à possibilidade da sua questão, como também à sua decisão.
É o caso, portanto, da pergunta que não se volta mais diretamente sobre o interrogante. Descreve-se, assim, ̔ m̔vime̓t̔ d̔ h̔mem que ̓ã̔ se ̔cupa ape̓as de si, mas também “d̔s ̔utr̔s e d̔s fat̔res que determi̓am a sua c̔̓diçã̔” (WEIδ, 1991a, p. 216). Este movimento coincide com o alargamento do interesse que passa da solução das questões isoladas ao mundo compreendido como campo da ação do homem, interessado, finalmente, pela mudança de sua situação.
É justame̓te ̔ i̓teresse p̔r uma situaçã̔ “abs̔lutame̓te mudada” (WEIδ, 1991a, p. 216) que exige do homem o conhecimento do mundo. Tal conhecimento se traduz, concretamente, na compreensão das suas condições deste mundo e os caminhos que a elas conduziram.
À base deste interesse pela história se descobre uma tese considerada como evidente: na realidade humana, nada é absolutamente único. A história não se repete, é verdade, pois nada se reproduz de forma idêntica. Portanto, podemos aprender da história: eu posso me voltar ao passado para conhecer o que é necessário à realização de meu desejo, com a condição de que eu conheça as categorias de fatores cuja cooperação produziu os fatos desejados. Seria evidentemente desrazoável demandar uma resposta completa, pois isto suporia que toda a minha situação já se apresentou identicamente; mas eu posso buscar nas situações comparáveis fatores separados que agiram e que podem, portanto, agir (WEIL, 1991a, p. 216).
Mais uma vez, não é possível compreender a questão do objeto histórico sem se levar em conta o interesse do homem por seu passado. O duplo problema que surge deste tipo de reflexão: em primeiro lugar, a exigência de considerar o caráter histórico do interesse, porque o homem que interroga a história o faz sempre a partir de um interesse pessoal. Em segundo lugar, reconhecer que se, de um lado, o sentimento pode levar à revolta contra uma particular situação, de outro, só a decisão pela mudança supõe, além do sentimento, o conhecimento e a interpretação da própria situação. Finalmente, a passagem do sentimento de revolta à decisão
pela mudança apela sempre pela capacidade de relacionar a própria situação a outra coisa. Nas palavras de Weil, para que haja esta relaçã̔, ̔ h̔mem c̔̓ta ape̓as c̔m a históriaμ “a questã̔ que eu dirijo à história partindo de minha situação e a questão que eu ponho à situação me servindo da linguagem da história são uma coisa só. Eu compreendo minha situação pela história e a história p̔r mi̓ha situaçã̔” (WEIδ, 1991a, p. 217).
Para Weil, subjaz à não tematização da imbricação entre situação, interesse e história, o ideal da objetividade científica. Isto justifica, de um lado, a dificuldade da compreensão desta relação nas chamadas ciências sociais históricas e, de outro, o fato de que uma economia política, interessada na situação é obrigada a considerar as raízes históricas do presente. Trata- se, evidentemente, do exemplo da economia política marxista. De fato, da análise marxista fornece duas ilustrações essenciais à compreensão da proposta de Weil. Primeiro, o reconhecimento de que a linguagem histórica é a única a dispor dos conceitos e dos tipos para a c̔mpree̓sã̔ d̔ prese̓teμ “de ̔̓de, se̓ã̔ ̓a história, se p̔deria t̔mar ̔s c̔̓ceit̔s e ̔s tip̔s necessários? Como perceber uma forma de produçã̔ se̓ã̔ em relaçã̔ a uma ̔utraς” (WEIδ, 1991a, p. 217). Depois, o fato de que a ajuda do passado para a compreensão do presente revela, ao mesmo tempo, as forças do primeiro que ainda atuam sobre o segundo.
A questão do interesse ganha, assim, seus definitivos contornos. O homem se volta para o passado a partir do presente, em vista do conhecimento das forças que agem sobre ele e os meios à disposição para sua reação. Se, de um lado, a análise da situação presente é sempre o pano de fundo da compreensão do passado, de outro, são as categorias encontradas na história que permitem ao homem empreender o caminho de compreensão das condições postas no seu prese̓te. Em ̔utr̔s term̔s, “̔ i̓teresse que se tem pela história” é, a̓tes de tud̔, i̓teresse pelas condições da ação, ou seja, pelas forças ao redor da vida política.
Para Weil, c̔m efeit̔, “a história e a p̔lítica sã̔ i̓separáveis” (WEIδ, 1991a, p. 218): a primeira encontra na segunda os meios para a construção do seu futuro, a segunda, por sua vez, tem na primeira a base do reconhecimento dos acontecimentos verdadeiramente imp̔rta̓tes, “rec̔̓hecíveis e̓qua̓t̔ tais pela questã̔ que põem s̔bre as decisões que f̔ram possíveis na situação passada, e estas possibilidades só podem ser percebidas pelas p̔ssibilidades prese̓tes e c̔̓cretas qua̓t̔ às questões e decisões” (WEIδ, 1λλ1a, p. 21κ).237
237 “A argume̓taçã̔ de Weber cartografa, de fato, que cada interpretação histórica parte de um interesse contemporâneo; por isso, já não pode ser vista como uma simples descrição de fatos estabelecidos a priori. Muito mais, os historiadores têm de trazer à tona a singularidade e a particularidade dos processos históricos sob a perspectiva de sua significação cultural para o momento presente. Ao mesmo tempo, Weber pretende abrir caminho para uma interpretação comparativa da História de épocas passadas como, por exemplo, dos antigos, com o objetivo de mapear conceitos, analogias e desenvolvimentos não apenas para a cultura ocidental, mas para cada
A compreensão da centralidade da história no pensamento de Eric Weil exige, portanto, a lida com a imbricação de alguns conceitos absolutamente fundamentais. Tais conceitos surgem, ainda que não plenamente desenvolvidos, quando se considera, acertadamente, que por trás do interesse pela história está aquele pelo próprio homem. De fato, se a história se caracteriza como a possibilidade “da ̔rie̓taçã̔ da decisã̔ ̓̔ mu̓d̔ huma̓̔” (WEIL, 1991a, p. 218) e da compreensão do homem em suas condições. Há, então, duas orientações distintas, separáveis apenas no campo da apresentação, no interesse pela história. Primeiro, o interesse pelas condições e pelas possibilidades de orientação e decisão no mundo. Ainda uma vez, são as categorias históricas que permitem a compreensão da situação presente. Isto pode ser dito tanto da perspectiva que persegue, no passado, as raízes do momento presente, quanto daquela que busca, num determinado momento histórico, os elementos essenciais da formação de um quadro referencial para a compreensão da situação atual e das condições da ação dentro dela. Nisto não fizemos mais do que repetir as ideias já apresentas. A segunda orientação, porém, se revela mais profunda, justamente enquanto subjaz à primeira. Trata-se da passagem, quase sempre inconsciente, da questão da história à questão do homem. De fato, por trás da pergunta pela história e do interesse por suas categorias, está não apenas a busca da compreensão das condições do homem, mas, ao mesmo tempo, o desejo da sua transformação. Em outras palavras, o homem que deseja transformar suas condições, não pode aspirar por isto sem estar disponível à sua própria transformação.
Mas somente o filósofo que pensa o interesse pela história vê a passagem da questão da história àquela acerca d̔ h̔mem. P̔r seu tur̓̔, ̔ que pre̔cupa ̔ “h̔mem c̔mum” (WEIδ, 2012a, p. 25) é a sua condição, e é justamente como ser descontente à procura de contentamento que ele age sobre ela. Porém, não se trata apenas de estabelecer os limites entre dois diferentes domínios de discurso, um sobre o nível da reflexão e outro sobre a ação; antes, busca-se as fronteiras entre a compreensão e a incompreensão no que concerne à relação do homem com a sua própria situaçã̔. τ “h̔mem c̔mum”, “agi̓d̔ s̔bre as c̔̓dições, quer perma̓ecer ̔ que é; é a si mesmo tal como é agora que quer transportar para circunstâncias favoráveis. Ele e sua situação lhe parecem coisas distintas; as condições lhe parecem exteriores a ele mesmo e não fazem parte do seu ser; fornecem-lhe ape̓as a matéria de sua atividade” (WEIδ, 1λλ1a, p. 21λ). τ “h̔mem c̔mum” se v̔lta para ̔ passad̔ em vista das p̔ssibilidades da sua ação no presente; o que lhe escapa é o que há de mais precioso ao filósofo, isto é, compreender o homem a partir do seu desejo de perscrutar o passado.
τs d̔is term̔s esse̓ciais da reflexã̔ sã̔, p̔rta̓t̔, a “situaçã̔”, de um lad̔, e ̔ “h̔mem”, de ̔utr̔, e ̔ que disti̓gue ̔ filós̔f̔ é ̔ esf̔rç̔ em vista da passagem d̔
conhecimento do primeiro à compreensão do segundo. Com efeito, ele compreende que o homem não apenas pensa a situação, mas que ao transformá-la, se põe como critério de sua “c̔̓f̔rmidade”, dit̔ de f̔rma mais simples, quer que ela t̔me a sua fôrma. A pergu̓ta “̔ que é ̔ h̔memς” reaparece ref̔rmulada à luz da situaçã̔ ̓a qual a atitude e a esc̔lha d̔ h̔mem se realizam. Para Weil, como para Weber, o caminho para este novo nível reflexivo é a “c̔mparaçã̔”, p̔is ̔ h̔mem p̔de se perceber ̓a sua atitude, e ̓ã̔ ape̓as ̓a sua situaçã̔, a partir das escolhas que realiza, isto é, na sua relação com o que aceita e com o que rejeita. Nesta passagem, “̓ã̔ se trata mais da utilidade de um comportamento em relação a um fim possível numa dada situação; eu me ocupo do ser daquele que se encontra nesta situação. Eu não procuro mais alca̓çar um fim, eu pr̔cur̔ ̔ se̓tid̔ deste fim” (WEIδ, 1991a, p. 219).
A atenção se desloca das atividades dos homens e dos meios que estes dispõem à questão do sentido que deve subjazer a toda realização humana. Procura-se responder à pergu̓ta se “tem se̓tid̔ para mim querer ̔ que p̔de querid̔ ̓esta situaçã̔” (WEIδ, 1991, p. 219). Para Weil, é esta nova questão que revela a matriz fundamental da liberdade, porquanto, na sua origem, está a possibilidade de repelir o que a situação oferece, possibilidade tão real qua̓t̔ a “faculdade” de m̔rrer. Existe̓cialme̓te, o homem pode sempre se recusar a aceitar uma determinada situação, mas esta recusa é ela mesma a escolha de uma situação alternativa, nunca jamais a de viver sem estar situacionalmente determinado, o suicídio, a escolha da morte, só pode ter um sentido qua̓d̔ “as p̔ssibilidades da situaçã̔ e a p̔ssibilidade esse̓cial d̔ própri̔ ser sã̔ irrec̔̓ciliáveis” (WEIδ, 1λλ1a, p. 22ί).
A pergunta capital reaparece mais uma vez reformulada, retomada noutro nível:
É a questão da constituição do homem por si mesmo. O homem está sempre
̓uma situaçã̔, p̔rque só desc̔bre a si mesm̔ “situad̔”, c̔m̔ h̔mem ̓um
mundo determinado. No começo ele fala da situação e só mais tarde de si mesmo: poderá fazê-lo e o fará de fato quanto tiver compreendido que o que deseja pode ser irrealizável. O que sou eu? Incialmente, eu não sou eu mesmo. O mundo que vejo, os meus costumes, a língua na qual eu penso, eu não os escolhi. São produtos da atividade humana, mas não fui eu mesmo que os produzi; por meu nascimento, me encontrei nestas condições, mas não escolhi este nascimento. Entretanto, não posso falar destas condições sem conhecer outras, não posso perceber minha vida sem perceber que há outras formas de vida, não sei que falo uma determinada língua antes de compreender que existem várias. Só a vida dos outros interrogada quanto à sua forma e ao seu
“se̓tid̔” me permite buscar um se̓tid̔, uma f̔rma e uma u̓idade para
minha própria vida (WEIL, 1991a, p. 220, grifos do autor).
“τ que é ̔ h̔memς”μ se a pergunta kantiana encontra um conteúdo real ultrapassando o solipsismo, porquanto toda situação é compreendida, finalmente, como produção dos homens,
resultado da ação do gênero humano e não da soma dos indivíduos singularmente. É neste sentido que a pergunta pelo sentido da vida leva, obrigatoriamente, à reflexão sobre a história, p̔rque s̔me̓te ̓esta, e̓te̓dida c̔m̔ “a t̔talidade da existê̓cia huma̓a” (WEIδ, 1991a, p. 221), o sentido pode ser pensado. O homem, inicialmente cindido entre as possibilidades da sua situação e as da realização do seu próprio ser, encontra na unidade da história a possibilidade da c̔mpree̓sã̔ de si mesm̔ ̓uma u̓idade fu̓dame̓tal. “τ que me faz t̔mar p̔siçã̔, sã̔ as atitudes humanas concretas que encontro – mesmo que seja apenas para me opor a elas: toda c̔mpree̓sã̔, t̔da justificaçã̔ se elab̔ram dia̓te da história” (WEIδ, 1λλ1a, p. 221).