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Estes encontros de certa maneira também auxiliaram a definir bases metodológicas para o processo artístico pedagógico que se desenvolveu. Em seguida dou início à narrativa sobre uma primeira experiência prática não visual, construída em parceria com um grupo de alunos do Programa de Pós Graduação em Artes Visuais na disciplina Arte Relacional nos limites do real e então sigo descrevendo os primeiros contatos com a ACIC e os agenciamentos junto à equipe pedagógica do Projeto Aragua Social. A partir daí seguem os relatos dos encontros com os jovens na ACIC junto com as atividades realizadas no Aragua, todos estão datados24. Articulados a estes relatos estão reflexões e diálogos com autores e artistas; assim mesmo da maneira como se configura um diário de campo ou de bordo, no qual tudo o que é relatado está contaminado pelo valor da experiência vivida, pelas suas relações com passado e pelo que pode ser considerado um devir.

3.2. Abordagens Metodológicas.

É importante fazer referência a que esta pesquisa em seu principio foi baseada nas abordagens metodológicas da terapia artística, buscando relacionar estes conhecimentos com aqueles provenientes da neurologia, como vimos mais aprofundadamente no capítulo I. Alguns dos exercícios propostos para o grupo de jovens foram desenvolvidos, aprendidos e aplicados dentro desta perspectiva e são fruto de minha formação em Terapia Artística Antroposófica. Nesta abordagem o trabalho inicia-se a partir do que cada indivíduo traz como imagem para o grupo, estas imagens individuais são consideradas com base na visão de ser humano integral, pautada na ciência antroposófica. Esta ciência desenvolvida por Rudolf Steiner é tratada como uma ciência espiritual que, amplamente falando, considera o ser humano como alguém possuidor de um corpo físico, um corpo anímico e um corpo espiritual. Não caberiam aqui maiores explanações sobre esta teoria dada sua complexidade e abrangência, porém é importante pontuar que estas três instâncias do ser humano descritas por Rudolf Steiner se relacionam, segundo o autor, às nossas capacidades de pensar, sentir e querer. Na visão da Terapia Artística Antroposófica o conhecimento

24 Para melhor compreensão e orientação da cronologia dos relatos há no item Cronograma uma tabela

que demonstra cada atividade com local e data. Nesta tabela estão colocados todos os encontros e atividades que de alguma forma integraram a construção deste saber. É importante notar que em determinados momentos não estão dispostos exatamente em ordem cronológica, pois há situações que acontecem simultaneamente; os relatos estão dispostos na ordem em que passaram a fazer sentido e relacionar-se entre si.

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dos fatos científicos precisa ser ampliado pelo emprego do modo goethiano de observação (...) mediante um pensar “tateante” ou “imaginativo” que se apoia irrestritamente nos fatos científicos, mas tem uma relação intima com a vivência e a criação artísticas. (HEIDE, 2003, p.12)

Rudolf Steiner em uma conferência realizada em 1923 expõe que:

(...) podemos estudar o ser humano - estudar segundo aquilo que a ciência dos últimos três a quatro séculos, como tal pode produzir; mas neste caso chegamos só até determinado ponto, no máximo até o organismo físico. No momento em que quisermos alcançar os membros mais elevados da natureza humana, não o conseguiremos a não ser que façamos o mundo ingressar numa compreensão artística do ser humano, porque o mundo cria artisticamente quando cria de forma espiritual; de maneira que ninguém em sua concepção intima, poderá entender o ser humano se não puder alçar o conhecimento cientifico à dimensão artística. (STEINER,1923 apud HEIDE, 1987-2003, p.13)

De acordo com esta abordagem compreendemos que o mencionado olhar artístico nos ensina a formular algumas perguntas necessárias para adquirir a capacidade de ler os fenômenos e processos característicos do ser humano, considerando que nesta perspectiva o fazer artístico seria uma ferramenta que auxilia na integração e entendimento de nossas atividades de pensar, sentir e querer.

Com o andamento dos encontros com os jovens percebi que esta metodologia precisava ser complementada com saberes mais específicos do campo de processos artísticos contemporâneos e do campo da educação, pois seria necessário criar dispositivos que pudessem sugerir interações mais próximas com um determinado grupo social, percebendo não somente o individuo, mas o individuo como produtor de subjetividades e um ser “desejante” dentro deste grupo.

Neste sentido a metodologia dos dispositivos criada por Mauricio Dias e Walter Riedweg e descrita por Suely Rolnik em Alteridade a céu aberto (2003) me pareceu relacionar-se claramente com a proposta ‘poético pedagógica’ implantada em meu processo de pesquisa, auxiliando-me a caracterizar e qualificar os passos do processo artístico pedagógico que se instarou. De acordo com a autora as estratégias implantadas pela dupla podem ser agrupadas em cinco etapas, que descrevo a seguir relacionando-as brevemente a momentos da pesquisa, no entanto todo o processo prático e metodológico está descrito por completo nos relatos de experiência contidos ao longo deste capitulo.

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A primeira etapa, segundo Rolnik, consiste em o artista ir ao encontro do universo onde pretende inserir-se e deixar-se por ele impregnar, tanto por meio do convívio informal quanto por meio de toda espécie de investigação. A partir daí, o artista elabora um conceito que norteará a estratégia de criação do dispositivo como um todo. (ROLNIK, 2003). Esta primeira etapa em meu trabalho se relaciona à aproximação do tema a partir de entrevistas e observações participantes realizadas anteriormente ao trabalho propriamente dito com os jovens da ACIC.

A segunda etapa consiste em selecionar os elementos que integrarão o dispositivo, pessoas, lugares, materiais, dimensões a serem mobilizadas e investigadas, assim como definir o modo como irão operar para realizar o conceito. (ROLNIK, 2003). Desta maneira posso distinguir que o contato com a ACIC é definidor desta etapa metodológica, bem como a escolha por iniciar o processo com base em propostas da terapia artística para então instaurar processos de simultaneidades afetivas e troca de saberes entre os participantes. Assim como a ACIC foi escolhida para integrar esta etapa do dispositivo metodológico também foi o Projeto Aragua Social e sua equipe pedagógica.

A terceira se baseia em estratégias de interação com o grupo escolhido de modo a criar as condições de uma vivência compartilhada. (ROLNIK, 2003). Nesta etapa as propostas em artes realizadas dentro da ACIC e a experiência com as aulas de surfe criaram as condições para uma vivência compartilhada.

As duas últimas etapas correspondem às estratégias de comunicação do trabalho, dos círculos mais restritos aos mais difusos. (ROLNIK, 2003). No caso de Mauwal a quarta etapa consiste na invenção de meios de comunicação circunscritos ao público da arte, mais comumente por intermédio de videoinstalações acompanhadas ou não de objetos, que podem ser apresentadas inclusive em museus e galerias. A quinta e última etapa consiste na invenção de meios de comunicação para um público mais amplo e variado, potencializando uma expansão imprevisível e em muitas direções ao mesmo tempo. (ROLNIK, 2003). Estas etapas se referem em meu processo metodológico à elaboração e apresentação desta tese de mestrado, destinada mais especificamente ao público acadêmico, porém não só, pois esta tem a intenção de, no momento de sua exposição pública, incluir todos os participantes do processo artístico pedagógico e deixar disponível o conhecimento aqui aprendido, tanto para as Instituições ACIC e Aragua, quanto para qualquer público interessado no tema. Podemos também identificar estas etapas caracterizadas por Rolnik como etapas de

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difusão no momento em que este projeto atinge a grande mídia e é divulgado no jornal local Noticias do Dia, este registro está disponível no item Deslizamentos ao fim do capítulo.

No que se refere a uma metodologia específica sobre a pesquisa qualitativa em educação utilizamos a abordagem descrita por Amarildo Menezes Gonzaga, que trata de procedimentos orientadores da pesquisa, complementando as outras abordagens já mencionadas e acrescentando a isto a possibilidade de criação e combinação de métodos de pesquisa de acordo com o contexto em que o pesquisador se insere.

A pesquisa qualitativa é uma arte (...) o pesquisador é um artífice. O cientista social qualitativo é instigado a criar seu próprio método. Seguem procedimentos orientadores, mas não regras. Os métodos servem para o pesquisador; nunca é o pesquisador que serve aos métodos. (GONZAGA, 2006, p.75)

Gonzaga traz ainda a etnografia holística como um método da pesquisa qualitativa sob a perspectiva de Peter Woods, abordando a prática etnográfica tanto como ciência quanto arte. “É um enfoque aberto não predeterminado, indutivo com mais frequência do que dedutivo (...) o labor inicial costuma ser tipicamente complicado e caótico, até que começam a surgir temas centrais.” De acordo com Atkinson e Hammersley, mencionados por Gonzaga, esta pesquisa de caráter etnográfico tem forte ênfase na exploração da natureza de um fenômeno social concreto, antes de que se possa comprovar uma hipótese, tem a tendência a trabalhar com dados não estruturados, geralmente é realizada com um número pequeno de casos e a análise dos dados implica interpretações dos significados e funções das atuações humanas , por meio de descrições, apreensões de categorias e explicações verbais. (GONZAGA 2006, p.77).

Desta forma os relatos que seguem são um reflexo desta abordagem metodológica sobre a pesquisa e se caracterizam, portanto pela interpretação de significados e situações sempre baseados em experiências práticas e referências teóricas. Todos os encontros foram registrados em um diário de campo e posteriormente revistos para encontrar suas possíveis articulações com autores e artistas incluídos no corpo teórico desta pesquisa. Também foram registrados digitalmente, por meio de fotos e filmagens que da mesma maneira foram revistas para reaver a validade e coerência dos registros feitos no diário de campo.

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Sendo assim a combinação das abordagens descritas acima e suas inter- relações enriqueceram o corpo metodológico desta pesquisa de caráter artístico- pedagógico, qualitativo, etnográfico e de implantação de dispositivos. Todas as abordagens serviram em diferentes momentos de suporte para definir o projeto de pesquisa e orientaram o seu desenvolvimento.

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