apoiada na antiga. Assim, todo trabalhador, por mais rudimentar que seja o seu trabalho, pratica ações de caráter técnico, logo possui um certo grau de tecnologia.
Vieira Pinto (2005) ainda elenca duas interpretações distintas para a definição da tecnologia enquanto conjunto das técnicas sociais: a primeira, legítima ao considerar a diversidade de operações e concepções tecnológicas existentes nas sociedades ou nações subdesenvolvidas; a segunda, ingênua e nociva por desconsiderar a diversidade da realidade tecnológica do mundo pobre. Logo, não possui compreensão dialética, ou seja, é uma interpretação unilateral, e desencadeia uma atitude de inferioridade e imitativa das populações subdesenvolvidas em relação às nações desenvolvidas, que cobiçam e importam tecnologias superiores das nações desenvolvidas de forma alienada, ou seja, não leva em consideração suas reais necessidades e finalidades sociais. Deste modo, essa interpretação se presta também ao quarto sentido da tecnologia como ideologia.
3.2.4 Quarto sentido: tecnologia como ideologização da tecnologia
Segundo Vieira Pinto (2005), ao elevar a tecnologia como ideologização da técnica, surge o problema do tecnocentrismo, em que os dominadores da técnica superior -
ou dominadores da consciência das massas trabalhadoras - querem nos fazer acreditar ser a teoria tecnológica uniforme e sua formulação exclusividade dos grupos dominantes economicamente. Acrescenta-se que tecnologia - ou ideologia da técnica - relaciona-se diretamente com o estado de desenvolvimento da técnica e se constitui como ideologia social para garantir duas finalidades essenciais dos grupos dominadores: internas – fazer da técnica uma mitologia ao santificar os seus processos e à conquista da cumplicidade da massa nacional explorada; e as externas – utilizar a técnica como instrumento de dominação, como produto ideológico carregado de nefastas intenções, para disseminar uma concepção falsa que julga os pensadores da metrópole (ou países centrais) os únicos capazes intelectualmente para criar tanto os grandes feitos tecnológicos, quanto sua teorização, por terem mais recursos materiais e financeiros para a pesquisa.
É fato que “A tecnologia é uma ideologia, mas nada tem de contemplativa, não corresponde ao produto imaginário de um pensamento desligado da realidade, e sim enraíza a sua verdade na prática da existência de quem a concebe”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 322). Assim, as nações dominadoras, ao utilizarem-se intencionalmente do caráter ideológico da tecnologia, asseguram sua ação nociva sobre os povos espoliados, que, persuadidos a crer em sua incapacidade criadora e intelectual, aceitam agradecidos o papel de povo pobre receptor dos bens ideológicos e produtos materiais da metrópole, pois enfeitiçados por uma ideologia autodepreciativa que supervaloriza o potencial das nações centrais exploradoras, incute nas massas trabalhadoras uma consciência alienada, desprovida de autoconsciência ou consciência da sua condição de nação explorada, serviçal e marginalizada.
Assim sendo, a tecnologia como ideologia servirá para manutenção de interesses políticos e econômicos,
principalmente como ideologia de exportação, mascaramento da realidade e alienação das massas trabalhadoras, maioria da população dos países subdesenvolvidos. Para manter o vínculo de subordinação cultural e econômica dos países pobres em relação aos países ricos, alimenta-se um processo contínuo e nocivo em que:
O importante está em nunca dar realmente ao país atrasado a oportunidade de criar para si a invenção técnica, que, naturalmente, viria acompanhada de uma percepção ideológica nova de sua realidade e assentaria os autênticos alicerces da formação da consciência para si. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 325).
O autor acrescenta que, de fato, interessa às nações provedoras da tecnologia de ponta manter a consciência das nações trabalhadoras sobre seu domínio. Assim, inserem nas nações pobres técnicos e especialistas sob o seu controle, fazem acordos com os técnicos e dirigentes nativos, instalam nas regiões pobres institutos educacionais, intrometem-se nas decisões políticas dos países receptores. Esses, condicionados ao se julgarem incompetentes em assuntos vitais tornados herméticos pela política de dominação, se sujeitam às estratégias e condições externas a fim de sentirem-se incluídos nesse processo de desenvolvimento e progresso tecnológico contemporâneo. Uma vez revestida desta aura de hermetismo, a tecnologia como ideologia tem também a função de induzir as mentes ingênuas a pensarem que a não aceitação ou incorporação da tecnologia importada é uma ação retrógrada e de permanência em um estágio de inferioridade em relação às nações com maior capacidade tecnológica.
Para Vieira Pinto (2005), essa atitude corresponde a uma aceitação acrítica em que as nações pobres, desprovidas de uma consciência para si, não levam em consideração as suas
reais necessidades ou realidade social, se deixando conduzir por interesses externos dirigidos pelo sistema mercantil dos países exploradores. Contrário a esse processo, emerge cada vez mais a necessidade de que:
O dever dos pensadores críticos está em arremeter contra essa inércia mental que, na verdade, protege uma clamorosa falsidade histórica. [...] Munida da concepção crítica correta que lhe vale de precioso instrumento de análise, todos os aspectos do ser nacional do país subdesenvolvido e os dos situados em planos mais altos tornam-se facilmente compreensíveis. Em particular, quebra-se o encanto do feitiço ideológico da tecnologia, deixa de ter efeito mistificador, logo que as intenções do enfeitiçador revelam-se transparentes. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 329). Passar do estado de país subdesenvolvido para o de desenvolvido, para o autor, exige dos sujeitos manusear o mundo de forma mais elaborada em que “[...] a realidade é um ponto de partida para a compreensão dos processos de aquisição de conhecimento por parte do homem que trabalha”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 15). Conceber a tecnologia como um elemento místico, descontextualizado do mundo real ou material, como algo transcendental, como objeto contemplativo de admiração e espanto, impede a humanidade de alcançar o verdadeiro sentido ou significado da tecnologia. Essa visão mística, nos impede de perceber na tecnologia sua potencialidade transformadora da realidade a partir da mediação ou trabalho humano, e assim nega aos homens sua capacidade de criar e transformar a própria realidade.
Ao discutir as dimensões ou diferentes sentidos inerentes à tecnologia, Vieira Pinto (2005) nos alerta sobre a necessidade da construção de uma consciência crítica acerca das questões que envolvem os processos de desenvolvimento e
conceituação da tecnologia, os quais repercutem também nas relações de trabalho. Ao concordarmos com este autor, salientamos a necessidade de propiciar aos professores de Artes Visuais uma maior participação nos processos de formação docente continuada com incorporação das tecnologias contemporâneas, sob um viés crítico e atento às problemáticas sociais. Para que a incorporação das tecnologias contemporâneas no contexto escolar ultrapasse questões apenas operacionais, mas alcance o plano conceitual e político em que, segundo Vieira Pinto (2005), é fundamental primeiramente desmistificar o discurso da “era tecnológica”.
Para Vieira Pinto (2005), o termo “era tecnológica”, tem servido como instrumento ideológico de manutenção das estruturas sociais e, até certo ponto, de uma forma velada continua sendo disseminado e reforçado por outros instrumentos também de controle social provenientes das instituições governamentais, o que passaremos a discutir a seguir.
3.3. AS TIC NA FORMAÇÃO DOCENTE: POR QUE DES-