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Vieira Pinto (2005, p. 332), ao abordar “A tecnologia como o conjunto das técnicas existentes em uma dada sociedade, em certo momento de sua história”, explica que não há uma única sociedade constituída por uma uniformidade tecnológica. Ao contrário, numa mesma sociedade coexistem técnicas passadas e contemporâneas, que demarcam ou representam diferentes momentos do desenvolvimento histórico desta mesma sociedade, ou seu respectivo grau de progresso tecnológico, que também irá influenciar e ser influenciado por questões econômicas distintamente entre países ricos e pobres, ou técnicas superiores e inferiores, respectivamente.

Segundo ele, tanto a técnica, quanto a tecnologia se prestam também a posicionar economicamente os países e estimular relações hierárquicas em que a técnica tem papéis diferentes. Enquanto os países ricos investem seus recursos na expansão das tecnologias para ampliação do domínio da técnica, sua incorporação e geração de técnicas mais complexas ou superiores contínua. Já os países pobres, por não disporem de condições ou bens próprios para criarem uma tecnologia superior à já existente, se vêem obrigados a comprar no mercado internacional técnicas superiores. No entanto, sua incorporação é feita de forma descontextualizada, pois não leva em consideração as necessidades objetivas próprias à sua sociedade. Assim, contrariamente ao que se espera, o país subdesenvolvido empobrece cada vez mais.

A diferença consiste em que no país alto a tecnologia superior, de vanguarda, sendo descoberta e produzida em função das forças produtivas mais adiantadas disponíveis, o que significa sem laivos de alienação, exerce função ativadora e aceleradora, na verdade torna-se a técnica geradora, logo a seguir, de outra ainda mais avançada, num movimento de produção endógena, característico da economia do país em plena expansão. (VIEIRA PINTO, p. 332).

Ao elucidar essas diferenças dadas ao valor da técnica, Vieira Pinto (2005), esclarece que no país subdesenvolvido a incorporação descontextualizada, ou alienada, das tecnologias superiores tem um efeito contrário, pois embora em certa medida proporcione a sobreposição do novíssimo sobre o velho, desorganiza o sistema global da produção nacional, provocando disparidades significativas e até mesmo antagônicas regionais, com o acréscimo das diferenças sociais, em que de um lado tem-se uma fabricação modernizada e de outro áreas estacionárias ou em declínio. Diferenças que

servem para fortalecer muito mais o prestígio pessoal e de classe, em função de influências e interesses políticos do país.

Segundo Vieira Pinto (2005), não se pode planejar um desenvolvimento nacional em função de um relativo desenvolvimento atingido, mas sim em função das necessidades objetivas da realidade atrasada ou existente. Transplantar uma tecnologia superior, com fins puramente econômicos e políticos, sem se valer das reais necessidades objetivas de uma nação, ou classe trabalhadora, não é garantia de desenvolvimento. “Na verdade o que se tem que dar às massas trabalhadoras não é o resultado da tecnologia mas a própria tecnologia. Esta deve pertencer-lhes porque significa o conhecimento e a consciência do trabalho que fornecem”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 335). Observa-se, então, que ao contrário do que se pensa, a importação de uma técnica, quando não fundamentada nos interesses reais da nação, prejudica ainda mais o processo de desenvolvimento dos países subdesenvolvidos, que ao importarem essa tecnologia externa, deixam de investir em seu próprio potencial expansivo.

Enquanto se denominarem classes produtoras aquelas não empregadas o trabalho produtivo real, mas com suficiente força social para atribuírem a si próprias com exclusividade esse título, será impossível facilitar no trabalhador o surgimento da compreensão de sua verdadeira posição. A consciência do trabalhador reflete o estado do seu meio social e por isso o efeito das transformações induzidas pela tecnologia alienígena nua, segundo temos repetido, é desprezível. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 336). Munidos de uma consciência de si, ou consciência de sua própria realidade ou necessidades objetivas, os países subdesenvolvidos terão uma percepção verdadeira e correta

frente às próprias necessidades sociais. Dessa forma, importarão somente uma tecnologia realmente necessária ou inevitável para o trabalhador, que consciente da sua função e papel neste processo, ao tê-la em mãos saberá utilizá-la de forma criadora e autônoma. Assim, as tecnologias estarão sendo criadas para o trabalhador e não ao contrário como, nos querem fazer acreditar.

Vieira Pinto (2005), nos ajuda a compreender que somente mediante uma visão crítica acerca das questões que envolvem a técnica e a tecnologia, somos capazes de revelar os reais interesses ideológicos e políticos, camuflados nas falsas concepções engendradas com fins meramente mercantis e publicitários. Falsas concepções tendenciosas que supervalorizam as nações com tecnologias superiores e ao longo da história humana tem ocultado uma relação de dominação e exploração, reiteradas por um processo de submissão e exploração colonial que tornou possível aos países ricos o título de criadores da tecnologia. Munidos de uma visão crítica saberemos quanto esse título custou aos países subdesenvolvidos, ao terem além de suas reservas de matérias- primas ou recursos naturais também o trabalho braçal da sua população colonizada explorados. Uma população marcada por um regime de exploração colonial a que nós brasileiros também fomos expostos e ainda hoje sofremos consequências dessas relações espoliadoras.

Contudo, o autor explica não ser a única opção de resistência a negação e não incorporação por parte de nossa nação essa tecnologia importada. Segundo ele, não é este o caminho para o desenvolvimento endógeno, sonhado. Ao contrário, sua aquisição precisa ser consciente, estar a serviço das massas e de suas reais necessidades no caminho da afirmação da soberania nacional. “A condição para que se opere essa transformação reside na conversão do trabalho alienado em trabalho para si”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 338)

Na perspectiva de Vieira Pinto (2005), é fundamental que se valorize o trabalho das massas e a compreensão de que as massas trabalhadoras são dotadas da técnica que lhes é possível ter, possuidora de uma tecnologia variada. Esta precisa ser transformada e não anulada para o alcance da