COSTA, J.S*; DIAS, L. L**; MEIRA, G.L. DE S**; DEIRÓ, A. G. J***; DEIRÓ, T. C. B. J**;
* ESCOLA DE NUTRIÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA - AV. ARAÚJO PINHO, Nº 32, CANELA CEP: 40110-150 - SALVADOR, BA - BRASIL TELEFONE: (071) 3283-7700.
** ESCOLA DE NUTRIÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA- SALVADOR- BA
***UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ, UESC, BRASIL.
Resumo: A restrição proteica e a manipulação do sistema serotoninérgico em período de rápido crescimento do encéfalo (durante a programação neonatal) podem de maneira independente resultar em alterações no desenvolvimento de ratos. Este estudo investigou o efeito da administração de L-Triptofano (15mg) e seus efeitos no maturação somática em ratos Wistar cujas mães receberam dieta hipoprotéica durante a lactação. Ratos Wistar machos neonatos foram distribuídos em quatro grupos de acordo com a administração de salina (SAL) ou L-triptofano 15 mg/kg/dia (TRIP15) s.c e dieta materna na lactação (dieta padrão com 23% de proteínas: Nutrido ou dieta hipoproteica com 8% de proteínas: Desnutrido), obtendo-se assim os seguintes grupos: nutrido solução salina (N SAL; n=18), nutrido triptofano (N TRIP15; n=19), desnutrido salina (D SAL; n=23) e desnutrido triptofano (D TRIP15; n=22). Sendo avaliados do 1° ao 21° dia de vida: peso corporal (PC), eixo longitudinal (EL), comprimento da cauda (CC). Conclui-se que os ratos tratados com L-triptofano, nessa dose, não apresentaram diferenças significantes em ratos nutridos. Quando submetidos à desnutrição o tratamento com L-triptofano provocou redução significativa no ganho de peso, e na velocidade de crescimento do eixo corporal e da cauda em animais desnutridos. Podemos inferir, que o possível aumento da síntese serotoninérgica quando associado à desnutrição pode alterar a fisiologia do crescimento de ratos neonatos.
Palavras chave: Desnutrição, L-triptofano, serotonina, crescimento. Introdução
Há períodos críticos em que, os processos de desenvolvimento do sistema nervoso central (SNC) são altamente dinâmicos e envolvem alterações anatômicas, fisiológicas e neuroquímicas, sensíveis a estímulos ou insultos oriundos do meio- ambiente (MORGANE, 1978, 1993). Este período varia entre as diferentes espécies: em humanos inicia-se no último trimestre de gestação e perdura até os três ou quatro primeiros anos de vida, no rato, compreende as três primeiras semanas de vida pós-natal (MORGANE, 1978) que coincide com o período de lactação. Estudos epidemiológicos têm mostrado que a restrição proteica na primeira infância, além dos efeitos imediatos sobre o desenvolvimento corpóreo e do sistema imunológico, aumentam a susceptibilidade para desenvolver doenças crônico-degenerativas na vida adulta como obesidade, diabetes, cardiopatias e hipertensão (CASTRO, 2003). Muitos dos efeitos da
desnutrição pré-natal são permanentes, pois é nesse período crítico de desenvolvimento do cérebro que acontecem os processos organizacionais, tais como neurogênese, migração e diferenciação celular, formação de circuitos neuronais e início da atividade de neurotransmissores (ALMEIDA, 2002). Já em 1993, Morgane afirma que entre os nutrientes, as proteínas parecem ser o componente mais importante para o desenvolvimento de funções nervosas, pois elas fornecem aminoácidos que são precursores de neurotransmissores ou, em muitos casos, atuam como o próprio neurotransmissor. Destaca-se, entre os aminoácidos, o triptofano, um aminoácido neutro, essencial, que contribui para o crescimento, a síntese proteica e para a síntese do neurotransmissor serotonina (5-HT), (FERNSTROM, 2000). Esta é produzida nos núcleos da rafe a partir da hidroxilação e carboxilação do aminoácido essencial triptofano (ROSSI, 2004) e regula o desenvolvimento de tecidos neurais e não neurais (LAUDER, 1990). Por outro lado o papel do hipotálamo e a programação de seus circuitos vêm sendo estudados como regulador da homeostase de energia e seu envolvimento no desenvolvimento da obesidade associada com desnutrição no início da vida, indicando a ligação do estado nutricional no inicio da vida com estados metabólicos na vida adulta
(
OROZCO-SOLÍS et al., 2010). Tais mudanças influenciam a estrutura corporal de animais e podem causar alterações na maturação de reflexos o que pode ser um fator indicativo do desenvolvimento do sistema nervoso (DEIRÓ et al., 2006). O presente estudo avaliou os efeitos da administração de L-Triptofano (TRIP 15mg) sobre a influência dos parâmetros de crescimento em ratos desnutridos durante a lactação.Metodologia
Estudo experimental controlado, aleatorizado, utilizando ratos albinos, da linhagem Wistar machos, neonatos, foi realizado formando-se grupos de acordo com a dieta materna em: nutrido = N (dieta com 17% de proteína – AIN 93G) ou desnutrido = D (manipulada e com 8% de proteína) e administrado salina (SAL) ou triptofano 15mg/kg/dia, s.c.(TRIP15), do 7º ao 21º, de acordo com o peso corporal - obtendo-se assim os seguintes grupos: nutrido solução salina (N SAL; n=18), nutrido triptofano (N TRIP15; n=19), desnutrido salina (D SAL; n=23) e desnutrido triptofano (D TRIP15; n=22). Sendo avaliados do 1° ao 21° dia de vida: peso corporal (PC), eixo longitudinal (EL) e o comprimento da cauda (CC). Utilizou-se paquímetro Starret Caliper (0,01cm de acurácia) para a medida do CC e EL; balança semi-analítica digital Marte, (modelo AS 2000C - capacidade 2000g c/0,01g de acurácia) para o PC. Os dados foram analisados utilizando-se ANOVA - Two Way Repeated Measures seguido do teste de Bartlett e Teste Mann-Whitney-Wilcoxon. Comitê de ética: 20.10 da Faculdade de Odontologia da UFBA.
Resultados e Discussão:
Comparados os grupos nutridos, N SAL e N TRIP15, não houve diferença em nenhum dos parâmetros.
Comparado ao grupo N SAL, o grupo D SAL apresentou redução do CC, F(3,82)=38,2412 do 14° ao 21° dia; do PC do 13° ao 21° F(3,80)=46,6306; do EL F(3,82) = 47,4540 do 14° ao 21° dia, p <0,05.
O grupo D TRIP15, comparado ao grupo N SAL, apresentou redução do CC, F(3,82)=38,2412 do 7° ao 21° dia; e do PC do 9° ao 21° F(3,80)=46,6306; do EL do 6° ao 21° F(3,82)=47,4540, p <0,05.
O grupo D TRIP15 em comparação com N-TRIP15 apresentou redução do CC, F(3,82)=38,2412, do 7° ao 21° dia e do PC do 9° ao 21° F(3,80)=46,6306, no EL do 6° ao 21°F(3,82) = 47,4540, p <0,05.
D TRIP15 comparado com D SAL apresentou redução no EL, F(3,82) = 47,4540 do 8° ao 21° dia. Não houve diferença para os demais parâmetros. p<0,05.
Comparando N TRIP15 e D SAL o último apresentou redução do CC, F(3,82)=38,2412, do 14° ao 21° dia e, do PC do 13° ao 21° F(3,80)=46,6306, EL do 12° ao 21° F(3,82)=47,4540. p <0,05
Conclusão
A administração de TRIP15 não alterou o PC e CC e EL em animais nutridos. Entretanto a restrição proteica diminuiu o ganho de peso, e a velocidade de crescimento do corpo e da cauda dos ratos neonatos. Observa-se que nos grupos em que houve restrição proteica associada à administração de TRIP15, os déficits no crescimento somático ocorreram precocemente e prolongou-se até o final do período de aleitamento. Podemos inferir, que o possível aumento da síntese da 5-HT promovido pelo L- triptofano o seu precursor, quando associado à desnutrição pode alterar a fisiologia do crescimento de ratos neonatos. Dados da literatura ainda são escassos, assim estudos com L-triptofano nessa fase inicial da vida, ainda se fazem necessários para melhor se compreender tais achados frente à programação metabólica neonatal.
Agradecimentos: Ao Prof. Federico Costa (Fundação Oswaldo Cruz, Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz) pelas análises estatísticas e a todas as estagiárias do Laboratório Experimental da ENUFBA
Apoio: CAPES, PIBIC-UFBA, FAPESB, CNPq Referências
CASTRO, H. M. Nutrición fetal y patologias crónicas del adulto: los aspectos genéticos y ambientales de la “frugalidad”. Rev Med Maule, 2003
Deiro TCBJ, Manhães-de-Castro R, Cabral-Filho JE, et al. Sertralina atrasa o crescimento somático e reflexo ontogenia em ratos recém-nascidos. Physiol Behav 82:338-344, 2006.
DEIRO. T.C., et al. Sertraline delays the somatic growth and reflex ontogeny in neonaterats. Physiol Behav. v.28,n.87, p.338-44, 2006.
FERNSTROM, J.D. Can nutrient supplements modify brain function? Am J Clin Nutr. 2000
LAUDER, J.M. Ontogeny of the serotonergic system in the rat: serotonin as a developmental signal. Ann N. Y. AcadSci, v. 600, p. 297-313, 1990.
MORGANE, P. J.; AUSTIN-LA FRANCE, R.J.; BRONZINO, J.; TONKISS, J.; DIAZ- CINTRA, S.; CINTRA, L.; KEMPER, T.; GALLER, J. R. Prenatal malnutrition and development of the brain. Neuroscience and Biobehavioral Reviews, 17: 91-128, 1993.
Orozco-Solís R, Matos RJ, Guzmán-Quevedo O, Lopes de Souza S, Bihouée A, Houlgatte R, Manhães de Castro R, Bolaños-Jiménez.Nutritional programming in the rat is linked to long-lasting changes in nutrient sensing and energy homeostasis in the hypothalamus. F. PLoS One, 21;5(10):13537, 2010
ROSSI, L.; TIRAPEGUI, J. Implicações do Sistema Serotoninérgico no Exercício Físico. Arq Bras Endocrinol Metab. 48(2):227-33, 2004.
SMART, J.L., DOBBING, J. Vulnerability of developing brain. II. Effects of early nutritional deprivation on reflex ontogeny and development of behaviour in the rat. Brain Research, Volume 28, Issue 1, (16) 85–95, 1971.