fatores de risco psicossociais que promovem a insatisfação, mas negativamente com os que promovem a satisfação.
Na amostra dos indivíduos do género masculino verificou-se a existência de correlações moderadas entre a variável ‘queixas músculo-esqueléticas’ e os itens das subescalas que dizem respeito aos fatores do ambiente de trabalho, ‘exigências cognitivas’ (ρ=0,401; p=0,019), ‘exigências emocionais’ (ρ=0,396; p=0,02) e ‘comunidade social no trabalho’ (ρ=- 0,352; p=0,041), as quais surgem ainda associadas às ‘queixas nos membros superiores’.
Através de uma comparação destes resultados com os das subescalas psicossociais com os valores médios mais elevados de insatisfação e satisfação para o género masculino verificou- se que as ‘exigências cognitivas’ eram a subescala com o valor médio mais elevado de insatisfação (69,96%), e a subescala ‘exigências emocionais’ (43,42%) encontrava-se na posição 6, o que nos indica que a correlação destas variáveis com a variável ‘percentagem de zonas corporais com queixas músculo-esqueléticas’ é influenciada pelo grau de insatisfação registado, crescendo ambas no mesmo sentido.
A mesma análise foi realizada para a variável ‘comunidade social no trabalho’, a qual apresentou um valor médio de satisfação elevado (77,85%) para o género masculino, explicando-se assim o sentido negativo da correlação, isto é, a correlação com a variável ‘queixas músculo-esqueléticas’ cresce em sentido inverso; quanto mais satisfeito o indivíduo estiver em relação a este fator menor será o seu número de queixas, passando-se o mesmo com a variável ‘saúde geral’ que também apresentou uma correlação negativa (ρ=-0,394; p=0,021) com este tipo de queixas para o género masculino.
É conveniente realçar que a variável ‘comunidade social no trabalho’ apresenta correlações positivas fortes com as variáveis ‘confiança vertical' (ρ=0,670; p=0), ‘justiça e respeito’ (ρ=0,724; P=0) e ‘qualidade da chefia’ (0,592) e uma correlação negativa forte com a variável ‘comportamentos ofensivos’ (ρ=-0,555; p=0). Estas correlações indicam que é importante reforçar a satisfação nestes itens os quais estão estreitamente ligados entre si, aumentando a satisfação nos primeiros e diminuindo a insatisfação no último, porque estes terão um reflexo positivo ao nível da saúde ocupacional mormente na diminuição das queixas músculo- esqueléticas.
Na análise por zonas anatómicas agregadas, a variável ‘queixas músculo-esqueléticas nos membros inferiores’ apresentou uma correlação negativa com a variável ‘confiança horizontal’ (ρ=-0,331; p=0,043), variável esta que tinha apresentado um dos valores médios mais elevados de insatisfação (59,21%) para o género masculino. Deste modo, o número de queixas músculo-esqueléticas varia de forma inversa a esta variável referente aos valores dos fatores psicossociais do local de trabalho. À medida que a insatisfação com a ‘confiança horizontal’ diminui, aumentam as ‘queixas músculo-esqueléticas nos membros inferiores’, possivelmente porque os trabalhadores adotam uma postura defensiva em relação aos seus colegas permanecendo mais tempo confinados ao seu posto de trabalho, e consequentemente prolongam a postura sentada.
As correlações entre a variável ‘queixas músculo-esqueléticas na coluna vertebral’ e as variáveis ‘ritmo de trabalho’ (ρ=0,310, p=0,058) e ‘exigências quantitativas’ (ρ=0,309; p=0,059), indicam que o aumento da quantidade e velocidade do trabalho a executar provocam um aumento das queixas, no género masculino.
As ‘queixas músculo-esqueléticas nos membros superiores’ apresentaram correlações positivas moderadas com as variáveis ‘exigências cognitivas’ (ρ=0,458; p=0,004), ‘exigências emocionais’ (ρ=0,362; p=0,025) como já foi mencionado anteriormente mas, associado a estas queixas também foi identificado o item ‘stress’ (ρ=0,375; p=0,02), indicando que o aumento dos níveis de stress também pode contribuir para a aumento dessas queixas, nos indivíduos do género masculino.
Por outro lado, as correlações negativas entre as ‘queixas músculo-esqueléticas nos membros superiores’ e as variáveis ‘comunidade social no trabalho’ (ρ=-0,401; p=0,013), ‘justiça e respeito’ (ρ=-0,309; p=0,059), ‘recompensas’ (ρ=-0,342; p=0,036) e ‘satisfação no trabalho’ (ρ=-0,320; p=0,05), indicam que o aumento do número de queixas será influenciado pela diminuição da satisfação do indivíduo face a estes fatores, no caso dos homens.
Ao realizar a mesma análise para os indivíduos do género feminino, a ‘percentagem de zonas corporais com queixas músculo-esqueléticas’ nos 12 meses anteriores, correlaciona-se positivamente com os fatores individuais, no que toca aos ‘sintomas depressivos’ (ρ=0,337; p=0,016) e aos ‘problemas em dormir’ (ρ=0,312; p=0,026), verificando-se uma correlação forte entre esta última e a variável ‘burnout (ρ=0,531; p=0). Tal sugere que este fenómeno será causa ou consequência da má qualidade dos ciclos de sono que proporcionam ao organismo a possibilidade de usufruir de períodos de recuperação e repouso adequados, situação esta que tem efeitos adversos ao nível do sistema músculo-esquelético.
A variável ‘recompensas’ apresentou para o género feminino uma correlação negativa com as ‘queixas músculo-esqueléticas’ (ρ=-0,303; p=0,031), o que pode ser explicado pelo nível de satisfação apresentado por essa variável; quanto mais elevado o nível de satisfação menores serão as queixas músculo-esqueléticas. Para isso é importante que as variáveis que apresentaram correlações fortes com a variável ‘recompensas’ mantenham níveis de satisfação elevados, nomeadamente a ‘satisfação no trabalho’ (ρ=0,557; p=0), ‘justiça e respeito’ (ρ=0,563; p=0), ‘qualidade da chefia’ (ρ=0,506; p=0) e o ‘apoio social dos superiores’ (ρ=0,556; p=0).
As ‘queixas músculo-esqueléticas nos membros inferiores’ para os indivíduos do género feminino apresentaram correlações positivas moderadas com as variáveis ‘sintomas depressivos’ (ρ=0,476; p=0), ‘stress’ (ρ=0,396; p=0,002) e ‘burnout’ (ρ=0,341; p=0,009), o que se traduz também numa associação entre as referidas variáveis que variam no mesmo sentido.
Ao contrário dos indivíduos do género masculino, nos indivíduos do género feminino não se identificaram quaisquer correlações moderadas ou fortes envolvendo as ‘queixas músculo- esqueléticas na coluna vertebral’ o que, no caso dos trabalhadores administrativos que utilizam computadores, é um facto curioso, porque foram identificadas correlações moderadas entre as ‘queixas nos membros superiores’ e as ‘queixas nos membros inferiores’ (ρ=0,466; p=0). Atendendo às características antropométricas diferenciadas no que respeita ao género, por exemplo as proporções entre a largura de ombros e da anca, poderá existir uma causa do foro anatómico para esta curiosidade.
As correlações negativas entre as queixas músculo-esqueléticas nos membros superiores e as variáveis ‘recompensas’ (ρ=-0,354; p=0,006) e ‘apoio social dos superiores’ (ρ=-0,330; p=0,011), explicam a importância destes itens para os indivíduos do género feminino e, como a insatisfação com eles se pode refletir no aumento de problemas nesses membros. Quanto às repercussões da associação positiva entre as queixas nos membros superiores e a variável ‘problemas em dormir’ (ρ=0,334; p=0,01), já foi analisada anteriormente neste subcapítulo.
Face ao explanado, não se pode rejeitar a hipótese 2 dado que se verificou a existência de indícios que poderão comprovar a associação dos fatores psicossociais com as queixas ao nível do sistema músculo-esquelético, associação esta que é geralmente positiva para os fatores psicossociais que fomentam a insatisfação e negativa para os fatores psicossociais que fomentam a satisfação.