2.3 Approximate search
2.3.1 Measures
A visão binocular é um dos elementos essenciais para a captação do texto quando se desenvolve o processo de aprendizagem da leitura e a sua integridade é indispensável para o ensino e a aprendizagem na criança. De acordo com Cornelissen et al. (1992), a leitura exige uma rápida integração da informação visual e linguística, pelo que é plausível que problemas num destes processos de integração possam contribuir para dificuldades de leitura nas crianças.
No início da década de 90, Cornelissen e sua equipa de investigadores desenvolveram uma série de estudos de investigação (Quadro 12) que demonstraram que crianças que apresentam um fraco controlo binocular podem manifestar sintomas de confusão visual durante a leitura de um texto, cometem mais erros de leitura e de ortografia do que crianças com visão binocular normal (Cornelissen et al., 1991; Cornelissen et al., 1992; Cornelissen et al., 1994).
De acordo com Cornelissen et al. (1992), crianças que apresentam um fraco controlo binocular podem cometer mais erros na leitura, nomeadamente em não-palavras. Uma não-palavra é definida como uma palavra que não existe no dicionário da língua (definição adaptada de Cornelissen et al.,1992). As crianças com alterações de binocularidade, especialmente as que apresentam problemas intermitentes, podem ter instabilidade binocular devido à interferência causada pelas duas imagens provenientes de cada olho.
Quadro 12 – Estudos que indiciam a existência de uma relação entre a visão binocular, a função visual, o desempenho académico e o desempenho na leitura em crianças
Legenda: AC/A=Relação acomodação/convergência; AV=Acuidade visual; DA=Dificuldades de aprendizagem; DL=Dificuldades de leitura; ppc=Ponto próximo de convergência; VB=Visão binocular;
Para comprovarem a sua hipótese causal, Cornelissen et al. (1992), testaram a leitura em crianças em fixação binocular (lendo com os dois olhos) e em fixação monocular. Os resultados do seu estudo demonstraram que a proporção de erros em não-palavras nas crianças com instabilidade binocular foi reduzida quando estas leram apenas com um dos olhos em oposição à Autores N e caraterísticas Idade Métodos Resultados
Cornelissen et al. (1992) 32 com VB instável 32 com VB normal 7-11
Lista de palavras BAS (British Ability Scales) e teste de Dunlop (avalia a estabilidade da visão binocular através do
sinoptóforo). A visão binocular foi considerada instável quando a criança falhou no teste de fusão de Dunlop.
A proporção de erros em não-palavras por crianças que falharam no teste de Dunlop foi reduzida quando as crianças leram apenas com um dos olhos em oposição à leitura em binocularidade. Cornelissen et al. (1994) 10 com VB instável 32 com VB normal Idade de leitura ≥ 7 anos e 6 meses
Lista de palavras BAS (British Ability Scales), teste de Schonell spelling e teste de Dunlop.
Os dois grupos de crianças cometeram erros em 56,3% de 50 itens de palavras do teste, não mostrando diferenças significativas. No que se refere ao tipo de erros, as crianças com visão binocular instável cometeram mais erros fonológicos.
Maples (2003) 540 Crianças
2º, 3º e 4º ano de escolaridade
Iowa Tests of Basic Skills (ITBS) e avaliação da função visual.
Os fatores visuais são melhores preditores do sucesso académico do que a raça e a situação sócio- económica. Goldstand; Koslowe; Parush (2005) 25 com DL 46 Controlos 12
Acuidade visual, esquiascopia, oftalmoscopia, visão cromática, cover teste, ppc, estereopsia, teste de supressão, movimentos oculares, altalef reading, screening test e tikva reading test.
68% dos participantes apresentava alteração das funções binoculares (masculino>feminino) e obteve uma performance académica inferior.
Dusek; Pierscionek; Mcclelland (2010)
825 com DL
328 controlos 6-14
Erro refrativo, acuidade visual para longe, função binocular, acomodação e convergência e velocidade de leitura.
<AV para longe
<Amplitude acomodação, convergência e vergências >Exoforia para perto
Toledo et al. (2010) 161 estudantes 8-10
Acuidade visual com a escala de Snellen, questionário e rendimento escolar.
Nos alunos com acuidade visual alterada (≤0,7) apenas 75% apresentaram rendimento escolar satisfatório comparando com 89,5% das crianças com acuidade visual normal (p=0,015).
Muzaliha et al. (2012)
1010 crianças com
DA 8-12
Teste de leitura e escrita e avaliação da função visual.
4,8% apresentavam uma acuidade visual alterada (<0,6). 30% das crianças apresentavam alterações da acomodação, insuficiência de convergência e amplitudes fusionais reduzidas.
leitura em binocularidade.
A maior proporção de erros em não-palavras pode demonstrar que estas crianças apresentam maiores dificuldades em palavras não familiares ou palavras novas com as quais ainda não tiveram contacto, o que poderá reduzir a capacidade da criança na adição de novas palavras ao seu vocabulário (Cornelissen et al.,1992).
Cornelissen et al. (1994) apresentam críticas aos modelos convencionais da leitura, dado que estes assumem que o sistema visual das crianças apresenta sempre representações fiáveis das letras impressas na página de leitura. Estes autores defendem que algumas crianças apresentam sintomas de confusão visual: letras ou grupos de letras que se movem ao longo da página, que se separam ou ficam desfocadas. Para demonstrarem a sua hipótese causal de que as crianças que apresentam visão binocular instável cometem mais erros de leitura, desenvolveram um estudo testando a leitura em dois grupos de crianças com idade de leitura igual ou superior a 7 anos e 6 meses: um grupo de crianças que apresentavam visão binocular normal e um grupo de crianças que apresentavam visão binocular instável.
Os resultados do seu estudo demonstraram que, embora as crianças cometam o mesmo número de erros totais, os erros fonológicos foram mais frequentes no grupo das crianças com visão binocular instável (Cornelissen et al.,1994).
Maples (2003) estudou 540 crianças do 2º, 3º e 4º anos de escolaridade e os seus resultados indiciam que os fatores visuais são melhores preditores do sucesso académico do que a raça e a situação sócio-económica.
A partir de 2005, os investigadores começaram a estudar grupos de crianças com dificuldades de leitura, testando a sua função visual. Goldstand, Koslowe e Parush (2005) analisaram a função visual de crianças com dificuldades de leitura e detetaram que 68% das crianças apresentavam alteração das funções visuais e obtiveram uma performance académica inferior ao grupo de controlo. Estes autores concluíram que, à medida que a criança progride na escolaridade, a relação entre a visão e a leitura altera-se, o que significa que o papel da visão é mais significativo nos primeiros anos de
escolaridade (1º e 2º anos de escolaridade). Nos anos de escolaridade seguintes, a linguagem e outras aptidões cognitivas começam a assumir um papel mais preponderante.
Dusek, Pierscionek e Mcclelland (2010) detetaram que crianças austríacas, entre os 6 e 14 anos de idade, com dificuldades de leitura e de escrita apresentam maior probabilidade de ter alterações das funções visuais (tempo de leitura=108,64±61,7 segundos; número de erros=4,28±3,77; n=825). Ao comparar estas crianças com um grupo de crianças da mesma idade, sem dificuldades de leitura e escrita (tempo de leitura=75,98±32,78 segundos; número de erros=2,29±2,18; n=328), as funções visuais mais alteradas são a acuidade visual para longe, que está diminuída, a presença de um desvio em exoforia para perto, uma baixa amplitude fusional e de acomodação e um ponto próximo de convergência alterado (Dusek; Pierscionek; Mcclelland, 2010).
Toledo et al., (2010) dedicaram-se ao estudo de apenas uma função, a acuidade visual para longe com crianças entre os 8 e os 10 anos de idade que frequentavam o 3º ano de escolaridade em Minas Gerais, no Brasil. Os autores detetaram nesta amostra que 31% das crianças apresentavam uma baixa de acuidade visual no olho direito e 29,8% no olho esquerdo (ponto de corte ≤ 0,7), tendo estas crianças um mais baixo rendimento escolar quando comparadas com as crianças de acuidade visual normal. Yi et al., (2013) também estudaram a acuidade visual, mas de crianças chinesas do quarto e quinto anos de escolaridade (média de idades=10,6), e detetaram uma baixa de acuidade visual (ponto de corte ≤ 6/12) em pelo menos um dos olhos, em 24% das crianças. Muzaliha et al. (2012) estudaram 1010 crianças de idades compreendidas entre os 8 e os 12 anos de idade e apenas 4,8% apresentava uma diminuição da acuidade visual (ponto de corte < 6/12). No entanto, os seus resultados indiciam que 30% destas crianças apresentavam alterações da acomodação, insuficiência de convergência e amplitudes fusionais reduzidas.
Os resultados de uma investigação de Northway e Dutton (2009) indiciam que adultos com baixos níveis de literacia podem ter maior probabilidade de
apresentar anomalias da visão binocular. Neste estudo participaram 108 adultos escoceses com idades compreendidas entre os 14 e os 70 anos, 30 apresentavam uma leitura considerada normal. Em 50% dos participantes no estudo que apresentavam uma leitura alterada foram encontradas anomalias da visão binocular. As anomalias detetadas foram: redução das amplitudes fusionais (62%), insuficiência de convergência (50%) e heteroforias descompensadas (21%). Os participantes receberam tratamento e foram seguidos durante um ano com consequente aumento da velocidade de leitura. De acordo com Handler et al. (2011), quando a performance na leitura está alterada devido à presença de anomalias da visão binocular, a performance melhora assim que a anomalia é tratada. No estudo de Northway e Dutton (2009) também foram avaliadas as profissões dos participantes e, no grupo de leitores com visão binocular normal, as profissões desempenhadas incluíam no seu perfil funcional a utilização da leitura e escrita: assistentes administrativos, gestores e outros profissionais do governo local. Os resultados do estudo de Zheng et al. (2011) demonstraram que 16,9% dos indivíduos adultos com deficiência visual apresentavam uma inadequada literacia na leitura e 21% apresentavam uma inadequada literacia na escrita.