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No âmbito dos estudos sobre função visual e leitura considerou-se também importante apresentar alguns resultados de investigações desenvolvidas com crianças disléxicas. Os resultados desses estudos demonstram que as crianças disléxicas apresentam alterações das funções visuais e menor controlo da visão binocular (Quadro 13).

Latvala et al. (1994) estudaram as funções visuais de 55 crianças com dislexia e compararam essas crianças com um grupo de controlo de 50 crianças. Os autores verificaram que os grupos não diferem significativamente face à acuidade visual, erro refrativo, cover test, estereopsia e acomodação. Um ponto próximo de convergência – ≥8cm – foi mais frequente nas crianças

disléxicas.

Quadro 13 – Estudos que indiciam a existência de uma relação entre anomalias da função visual e desempenho na leitura em crianças com dislexia

Autores N e caraterísticas Idade Métodos Resultados

Latvala et al. (1994)

55 Crianças com dislexia

50 Controlos 12-13

Erro refrativo, acuidade visual, acomodação, cover test, estereopsia e convergência.

Os grupos não diferem

significativamente no que diz respeito à acuidade visual, erro refrativo, cover test, estereopsia e acomodação. Um ponto próximo de convergência ≥8cm foi mais frequente nas crianças disléxicas.

Motsch;

Muhlendyck (2001) 33 Crianças com dislexia --

Erro refrativo, acomodação e cover test.

28 Crianças apresentavam alterações visuais, a maioria delas apresentava hipermetropia não corrigida,

alterações da acomodação e exoforias descompensadas.

Eden et al. (1994)

26 Disléxicos 39 Controlos 12 Leitores lentos (QI abaixo de 85 na WISC-R) 16 Leitores mistos 10 Movimentos oculares (fixação, sacadas e movimentos de perseguição) Amplitudes vergênciais

As crianças disléxicas apresentaram menor estabilidade dos movimentos durante a fixação e menores amplitudes vergênciais.

Eden et al. (1995)

26 Disléxicos

12 com outras dificuldades de leitura

16 com problemas mistos 39 Controlos

Todas as crianças apresentavam campos visuais normais,

heteroforias controladas e acuidade visual normal.

11

Aptidões fonológicas: consciência fonológica; memória verbal; nomeação. Aptidões visuo-espaciais: fixações; movimentos oculares; vergências, estereopsia.

Não se encontraram diferenças significativas para o sexo e tipo de mão diretora. No Grupo de crianças disléxicas detetaram-se mais crianças com défice de atenção e

hiperatividade. Os resultados indiciaram a existência de diferenças significativas entre as crianças com dislexia e os controlos para: consciência fonológica, nomeação, controlo da fixação, vergências e estereopsia. Bucci; Brémond- Gignac; Kapoula (2008) 18 Disléxicos 13 Controlos 11 Movimentos oculares e avaliação ortótica

O controlo binocular das sacadas em crianças disléxicas é inferior ao controlo de crianças não disléxicas de idades comparáveis.

Bouldoukian; Wilkins; Evans (2002)

4 Adultos e 29 crianças (20 com dislexia e 3 com outras dificuldades de aprendizagem especificas)

11-14 18-40

Foram aplicados filtros coloridos e um placebo para comparar os sintomas de astenopia e a performance na leitura.

O número de palavras por minuto aumentou significativamente com o filtro colorido, comparando com o filtro placebo (p=0,002).

Kiely; Grewther; Grewther (2001)

49 Disléxicos

40 com outras dificuldades de leitura

195 Controlos

5-16

Precisão na leitura (Revised Neale Analysis of Reading Ability) e função binocular (erro de refração, acuidade visual, acomodação, ponto próximo de convergência, estereopsia e alinhamento).

Não existe uma correlação

significativa entre a precisão na leitura e a visão binocular.

De acordo com Motsch e Muhlendyck (2001), muitas vezes as crianças são diagnosticadas como disléxicas. Porém, as suas dificuldades de leitura

são causadas por anomalias da função visual não detetadas. Por esse motivo, estes autores desenvolveram um estudo com 33 crianças diagnosticadas com dislexia para avaliação da sua função visual.

Os resultados do seu estudo são diferentes do estudo desenvolvido por Latvala et al. (1994), considerando que detetaram que 28 crianças apresentavam alterações visuais, a maioria com hipermetropia não corrigida, alterações da acomodação e exoforias descompensadas.

De acordo com Eden et al. (1994), as crianças disléxicas apresentam alterações dos movimentos oculares na leitura; no entanto, essas alterações têm sido atribuídas aos problemas de linguagem. Estes autores empreenderam um estudo de modo a perceberem se o problema se situava ao nível do sistema visual ou do sistema de linguagem. Assim, compararam crianças disléxicas com crianças que apresentavam leitura lenta e crianças normais relativamente aos parâmetros da fixação, amplitude vergencial, movimentos de perseguição e sacádicos.

Os resultados do seu estudo indiciam que a estabilidade dos movimentos oculares durante a fixação é menor em crianças disléxicas devido à diminuição das amplitudes vergênciais (Eden et al., 1994). Curiosamente, os autores verificaram que as crianças que apresentavam leitura lenta mostravam uma performance semelhante às crianças disléxicas, o que pode sugerir que as alterações encontradas não são específicas da dislexia.

De acordo com Eden et al. (1995), são muitos os estudos de investigação que indiciam que os aspetos visuais da dislexia estão relacionados com uma alteração específica no módulo da linguagem situado no hemisfério esquerdo do cérebro. No entanto, de acordo com os mesmos autores, continuam a ser divulgadas investigações que evidenciam que as crianças disléxicas apresentam alterações visuais e oculomotoras, o que significa que o processamento visual é mais lento nestas crianças. De modo a poderem perceber se existem diferenças entre crianças disléxicas e controlos normais relativamente aos diferentes parâmetros visuais e fonológicos, os autores desenvolveram um estudo. Os resultados indiciaram que as crianças com dificuldades de leitura apresentavam diferenças significativas no que diz

respeito aos seguintes parâmetros: consciência fonológica, nomeação, controlo da fixação, vergências e estereopsia (Eden et al., 1995).

De acordo com Bucci, Brémond-Gignac e Kapoula (2008), o controlo binocular das sacadas em crianças disléxicas é inferior ao controlo de crianças não disléxicas de idades comparáveis, devido a anomalias nas vergências, nomeadamente na divergência (valor médio de 10Δ nas crianças disléxicas e de 17Δ nos controlos). As crianças com dislexia efetuaram mais sacadas corretivas e a duração total média das fixações foi superior com valores de 1491ms comparando com valores de 337ms nos controlos sem dislexia. Estes achados têm sido criticados por outros autores (Handler et al., 2011) que ponderam que os padrões de movimentos sacádicos nas crianças disléxicas não são a causa mas resultado da sua insuficiência de leitura. Estas críticas podem ter algum fundamento, na medida em que, quando é pedido a um leitor hábil para ler um texto de nível de dificuldade superior, o padrão de movimentos oculares torna-se semelhante ao de um mau leitor e a velocidade de leitura diminui (Morais, 1997), pelo que se pode depreender que o nível de leitura do indivíduo e o grau de dificuldade de um determinado texto influenciam os movimentos oculares.

De acordo com Bouldoukian, Wilkins e Evans (2002), algumas pessoas com dificuldades de aprendizagem reportam sintomas de astenopia e distorções percetuais da visão, mesmo após a correção de erros de refração ou tratamento das anomalias da visão binocular. Estes autores acreditam que esses sintomas podem ser reduzidos através da utilização de filtros coloridos, porque quando é colocado um filtro sobre um papel branco é possível eliminar os reflexos provocados pela luz incidente e pela luz refletida. Para testar a sua hipótese causal, os investigadores desenvolveram um estudo científico no qual avaliaram a performance de leitura com filtros coloridos e filtros placebo. Os resultados do seu estudo indiciam que existem diferenças significativas na utilização dos filtros e que a performance aumenta com os filtros coloridos em 4% (103 palavras por minuto com filtro e 99 palavras por minuto com o placebo). Embora os resultados deste estudo demonstrem uma diferença significativa, devem ser analisados com cautela pois as diferenças são

estreitas (apenas 4 palavras por minuto).

De acordo com Northway e Dutton (2009), continua a existir literatura confusa face à terminologia utilizada. Alguns estudos publicados consideram que as dificuldades de aprendizagem são todas resultado de dislexia; outros consideram-nas resultado de alterações da visão binocular. Por exemplo, Kiely, Grewther e Grewther (2001), no estudo que desenvolveram, concluíram que não existe uma correlação significativa entre a precisão na leitura e a visão binocular.

As diferentes metodologias dos estudos publicados dificultam a comparação de resultados, considerando que para se estudar crianças com dislexia dever-se-ia, em primeiro lugar, efetuar uma análise da visão binocular para exclusão de potenciais fontes de sintomas com consequências na leitura

(Northway; Dutton, 2009). Neste âmbito, a correção de anomalias visuais permite uma melhoria das funções visuais, o que pode ter um impacto fundamental numa leitura confortável.