6 Analysing shared cycling through a practice theory lens
6.3 Meanings
As memórias que se acumulam ao longo da vida do indivíduo condicionam e contribuem para a definição do seu ser, podendo estar mais ou menos presentes na consciência do mesmo. Delas faz parte o constante registo mental da vivência dos espaços, no sentido em que estes ajudam a definir, localizar e enquadrar a recordação, fortalecendo-a e atribuindo-lhe um sentido. De acordo com Holahan, citado por Muga (2006), a imagem sobre o ambiente permite resolver problemas, fazer referências ao ambiente físico e fornece uma base para o desenvolvimento da identidade pessoal e social.
Como escreve Gorjão Jorge (2007:83), “A manutenção do cenário da nossa existência, pessoal e colectiva, torna-se assim, também, uma necessidade psicológica”.
Georges Poulet, citado por Abreu (1998:83) refere, na sua análise profunda à obra À la recherche du temps perdu de Proust, que o tempo e o espaço não estão perdidos graças à força da memória. Pelo contrário, afirma que ao lado do tempo reencontrado está o espaço reencontrado. Poulet sustenta que “desde o primeiro momento que a obra proustiana se afirma como uma busca não só do tempo mas também do espaço perdido” (Abreu, 1998:82). O ser proustiano depara-se com sensações de angústia devido à mobilidade dos lugares no pensamento, lugares esses que, tal como os objectos, representam uma fixidez ilusória.
Com efeito, de acordo com o autor, “o ser privado de lugar encontra-se sem universo, sem lar, sem eira nem beira. Não está, por assim dizer, em parte alguma, ou antes, está em qualquer lugar, com destroços flutuando no vazio do espaço” (idem,ibidem) e quando se confronta com o retorno aos lugares familiares, o ser encontra-se em sua casa e descobre o lugar perdido. Como escreve Poulet, citado por Abreu (1998) “quando os lugares familiares retornam e recuperam o lugar primitivo, do mesmo modo aparentemente fortuito, aquele ser perdido no espaço descobre-se em sua casa e descobre ao mesmo tempo o lugar perdido (idem,ibidem). Os lugares não existem isoladamente, estão invariavelmente ligados a presenças humanas. E o contrário também se verifica. No que diz respeito à memória, as duas dimensões, espaço e tempo importam simultaneamente na definição da imagem, uma vez que “não há memória colectiva que não se desenvolva num quadro espacial” (Halbwachs, 1990 [1950]:143).
O autor defendia que a capacidade de lembrar é determinada pela partilha de um espaço, durante determinado tempo por determinado grupo, ao qual o indivíduo pertence. Como tal, distinguem-se três tipos de espaço: o espaço-habitat - como o lugar da residência familiar; o
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espaço-trabalho - onde o indivíduo desempenha as suas funções acompanhado de um grupo que também o faz; e o espaço-vida - o lugar de vivências, um bairro, por exemplo. Esta partilha do mesmo espaço permite o desenvolvimento de relacionamentos sociais, podendo estes adoptar formas diversas: de domínio, cooperação ou conflito. Como tal, importa referir que são os intervenientes humanos que vão impedir que as memórias se percam no tempo. Assim, a cidade, como lugar de vivências, dá origem a muitas e variadas memórias colectivas cujo ponto comum é exactamente o lugar.
O espaço aparece como uma entidade vazia e despida de significado, uma entidade que funciona como receptáculo de coisas e que só faz sentido através de elementos intermediários que o vão definir, sendo por isso essenciais. São exemplos desses elementos a luz, as superfícies limite e a forma.
Para Poulet, citado por Abreu (1998:83), se por um lado “são os lugares que oferecem precisão às imagens; que nos fornecem o suporte necessário, graças ao qual podemos atribuir-lhes um lugar em nosso espaço mental, sonhar com elas e delas nos lembrarmos”, por outro a memória constitui o processo que permite ao indivíduo ou grupo a construção do sentido urbano. O significado e os valores que os indivíduos atribuem aos lugares dos quais usufruem, aparecem através da memória, tal como as ligações simbólicas entre o ambiente do grupo e as suas crenças se vêem fortificadas pelas recordações. Acima de tudo a memória permite o olhar para as imagens e prioridades dos indivíduos, complementadas pelo ambiente físico.
Importa fazer referência à memória urbana e à memória da cidade, sendo que o que as diferencia é a especificidade das recordações. Há símbolos de urbanidade e símbolos que pertencem a uma determinada cidade. Desta memória fazem parte todas as lembranças que ficaram marcadas na paisagem ou nos registos de um determinado lugar.
O processo de recuperação de memórias na cidade tem-se interessado apenas pelo fenómeno social que existe a certa altura, não atendendo ao lugar em si. Com efeito, as memórias não ficam correctamente interrelacionadas com o lugar.
Quer a memória individual, quer a memória colectiva podem contribuir bastante para a recuperação da memória das cidades, na medida em que as recordações das pessoas podem transportar a momentos urbanos passados e formas urbanas que já desapareceram. No entanto a subjectividade da memória individual pode não permitir a transmissão coerente e real do passado. O espaço da memória individual pode sofrer alterações, transmitindo localizações fluidas ou deformadas e escalas multidimensionais.
Ainda relativamente à cidade, explica Halbwachs (1990 [1950]:84) “não é por má vontade, antipatia, repulsa ou indiferença que ela [a memória colectiva] esquece uma quantidade tão grande de acontecimentos e de antigas figuras. É porque os grupos que dela guardavam lembrança desapareceram.”Segundo o autor, quando uma lembrançasubsiste o seu registo é desnecessário, quando as testemunhas desaparecem surge então a necessidade do registo dos acontecimentos. Com efeito assiste-se à formação da memória histórica que, ao contrário da memória colectiva, que é um fenómeno vivo, é estática.
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37 | P á g i n a Ainda assim, o resgate das memórias urbanas para fortalecer a identidade do local é aqui considerado um factor de elevada importância.
Em suma, a memória está para além do propósito da mente humana, do corpo, dos aparelhos sensitivo e motor e do tempo físico, representando o resultado dela própria. É concretizada através de representações, rituais, textos, comemorações, entre outros modos representativos de uma intenção de reviver.