Capa do catálogo da mostra. Acervo Instituto Lina Bo e P M Bardi Esta exposição foi a primeira que aconteceu no SESC. Pode-se dizer que foi a exposição de inauguração. Não se tem uma data precisa para a inauguração oficial do Centro de Lazer; foram feitos diversos eventos, por diversos motivos durante o ano de 1982.
O Design no Brasil foi organizada e montada em conjunto com o MASP e com a colaboração do Núcleo de Desenho Industrial da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e demonstra, finalmente, uma preocupação com o design e com a produção industrial nacional.
No catálogo da mostra Lina e Bardi escrevem texto que justificam a exposição e suas inquietudes em relação ao design. Dois breves trechos serão aqui apresentados como referência para suas questões. Lina, sempre com o olhar focando na arte e no público em geral, coloca que: “Esta não é uma exposição de arte. Não tem peças valiosas em destaque, nem a ‘rarefação’ desse tipo de exposições. É uma enxurrada, uma falsa confusão, rigorosamente planejada. Por contingências históricas o Brasil industrializou-se de repente,
compelido, sem continuidade, dado imprescindível num
desenvolvimento orgânico. Aqui são representados alguns dados: Brasil manual (até 1960), Brasil industrial (70/80)
A exposição não ‘rarefeita’ é dedicada ao público popular. É nos moldes das feiras dos sertões nordestinos e supermercados paulistas que hoje inundam todas as capitais do Brasi.
Aos designers brasileiros e aos grandes responsáveis, a tarefa de uma revisão e balanço. Ao público, a alegria das feiras e a resistência ou aceitação de todo um modelo de comportamento.”144
Pietro Maria Bardi, focando na execução das peças, escreveu na frase de abertura do catálogo:
“Evocar a realidade antiga e atual do trabalho, reunindo produções- saudades e produções último-grito, conjugando-as numa homenagem e ao mesmo tempo, num fato de informação e comunicação. Os artesanatos, as oficinas, a pequena, a média ou grande indústria, o caçar-com-o-gato-por-não-ter-cachorro, o inventar e vencer da ciência e da técnica: todo um mundo a ser lembrado e evocado, cordialmente, uma palavra, uma lembrança do Brasil”145
Esta mostra, que aconteceu no saguão principal do Sesc, teve uma das maiores visitações da época. Na revista Valbrarte escontra-se escrito que “mais de cem mil pessoas, ao longo de seis meses de exposição, puderam ver o resultado da criatividade do homem brasileiro”.146 Este elevado número deve ter se dado tanto pela
qualidade da mostra quanto pelo espaço do Sesc que era novo e não tinha a imponência e seriedade de um museu, não intimidando a visita de um grande número de pessoas não acostumadas a museus tradicionais.
Com toda esta movimentação a repercussão na mídia foi elevada, gerando uma grande discussão en torno da industrialização brasileira, do design, da importação de produtos e sua inquestionável influência no produto local. Dentre diversos artigos da época a Revista Senhor, cuja linha editorial se aproximava às indústrias, publicou um belo artigo que ilustra a questão da industrialização:
“(…) Demonstrar que o Brasil ainda não encontrou seu próprio caminho nessa função mal compreendida (do design), mesmo nos locais onde mais deveria ser incentivada – a própria industria. Pois o desenho industrial já que nem alcançou status de profissão reconhecida.
Infelizmente deve-se levar em conta o pouco tempo decorrido desde o começo da industrialização, o que ajudou a nos tornar independentes do ‘know-how’ de outros países, especialmente dos Estados Unidos – que está em primeiro lugar na escala de ascendência sobre o nosso design.
144
BARDI, Lina Bo. Texto no catálogo da mostra que foi utilizado também em um cartaz.
145
BARDI, Pietro Maria. Catálogo da mostra. O Design no Brasil: História e realidade. Frase introdutória. 12 de Abril 1982
146
Lina Bo Bardi, que reagiu sutilmente às virulentas críticas contra a exposição na Fábrica da Pompéia, acusada de saudosista acha que é preciso refletir sobre o que aconteceu com o design no Brasil para que no futuro as exposições não sejam tão contundentes como esta.”147
Dentro do debate da industrialização, pontuando o atraso brasileiro e, comparando-o com outros países, Lina lembra que: “A passagem do artesanato para o período industrial no Brasil aconteceu bruscamente, ao contrário do Japão e da Finlândia, por exemplo, que também passaram pelo período da industrialização sem perder sua civilização. Fato que acontece no Brasil, que a cada dia mais se descaracteriza.”148
O local desta mostra, que coloca em questão a indústria, não poderia ter sido mais propício, visto que o Sesc era uma antiga fábrica e o levantar o tópico do design foi importante, mesmo não tendo gerado para a história do design brasileiro uma real e eficiente mudança. As questões levantadas em 1982 e 1983, consequências desta mostra, são levantadas atualmente, vinte anos depois, com um país decididamente industrializado e que continúa sendo influenciado por americanos. Ainda se questiona se o design produzido no Brasil é de “alma” brasileira. No catálogo da mostra Pietro Maria Bardi escreve: “A década de 50 eram tempos em que a importação de coisas e de mentalidades do exterior ainda predominava e liquidava no nascedouro quaisquer tentativas (de criação)”.149
Mesmo com imensos esforços atuais por parte de entidades como o Sebrae, alguns designers e casos pontuais, pode-se notar que a frase de Bardi é bastante atual. Seria necessário alterar somente a data.
147
DUCLOS, Nei. Design: Enfim uma Polêmica. Revista Senhor No 61. 19 de Maio 1982. p 62
148
AMARANTE, Leonor. Design brasileiro no Sesc Pompéia. 9 de Abril 1982. Depoimento de Lina para a entrevista.
149
Vistas gerais da mostra. A superior com os objetos manufaturados e a inferior com os objetos de produção industrial.
Tapeçarias com bordados. Elementos constantemente expostos por Lina, desde a primeira mostra Bahia no Ibirapuera em 1951, na primeira Bienal de São Paulo.
Detalhes de objetos expostos na área dedicada aos objetos pré-industriais. Uma cadeira com interessante e atípico pé, um avião feito com pedaços de objetos e restos e uma mesa repleta de ferros de passar à carvão.
Dois detalhes da parte da mostra que se dedica aos objetos industriais. Carros e aviões na imagem superior e diversos produtos como televisões, aparelhos de som, microscópios, etc, na inferior. Fotos: Acervo Instituto Lina Bo e P M Bardi