Na tese Da Arquitetura
A tese que Saia apresenta no concurso da FAUUSP de 1957 foi chamada Da Arquitetura. Nela Saia fala sobre a criação arquitetônica, mostrando na abertura os problemas que podem existir quando há falta de rigor conceitual durante o processo de criação.
A arquitetura tem uma vocação irreprimível pela tradição. Inclusive quando pretende realizar, por um curioso processo de antecipação, aquilo que estima como objeto de futura tradição. Por isso, está sempre associada a um mito. Mesmo quando procura disciplinar seu ímpeto creador, pelo reconhecimento de um quadro aparentemente lógico do mundo objetivo, o arcabouço crítico dos juízes que utiliza, serve a um mito. Quando se alicerça no passado, aceita conceitos que já foram ou funcionaram como
verdades: quando se debruça sobre futuro, antecipa valores ainda não sancionados, mas pressupostos irredutíveis e fatais. Os arquitetos verdadeiramente creadores são, por isso, presa de um verbalismo incontido e, às vezes, delirante, com o qual procuram suprir a ausência de comprovação que os tradicionalistas encontram nas obras já realizadas e demonstradas. Esta necessidade de apoiar a creação arquitetônica num mito, oferece responsabilidade ao que se poderia chamar pesquisa de normas operativas da creação arquitetônica. (SAIA, 1957a, p.1-2)
E continua com uma crítica ao ecletismo:
A falta de saúde plástica, evidente por demais na obra erudita do século XIX, não tem apenas o significado negativo que o calor da luta pela arquitetura contemporânea procurou associar, evidenciar e acentuar; representa também um silencioso sacrifício em holocausto à legitimidade do fenômeno arquitetônico. Legitimidade que a colocou numa paradoxal situação de autodestruição generosa. (Ibidem, p. 3)
A fim de evitar uma arquitetura desmerecida, se propõe a examinar os elementos da criação arquitetônica, a saber, os conceitos de tese, programa, organização do espaço, esquema construtivo, resultados plásticos e partido. O trabalho se divide aí em seis capítulos, cada um abordando um dos conceitos da criação.
A tese é uma forma abstrata da inteligência ou da imaginação: igreja, cidade, casa. Por ser ainda uma proposição ideal, não tem grandeza nem qualquer outra espécie de compromisso ou atributo particular. Para se transformar em entidade de arquitetura, carece de assumir um compromisso particular. Passa então a univoca a idéia da tese, e passa a ter significado arquitetônico. (Ibidem, p. 8, grifo nosso)
Saia diz que, no entanto, para ser válida, a tese deve apresentar quatro elementos fundamentais: necessariedade, erigibilidade, funcionalidade e definibilidade. “Sem um destes elementos, nenhuma tese, erudita, tradicional ou popular, poderá subexistir” (Ibidem, p. 9).
O programa representa, entre as entidades autônomas que participam do fenômeno de creação arquitetônica, a pesquiza dos valores capazes de oferecer um significado objetivo à idéia da tese, o que consegue ao atribuir atributos às diferentes partes associadas à idéia original. (Ibidem, p. 11, grifo nosso)
Este capítulo se inicia relacionando programa ao conceito de tese apresentado anteriormente. Saia seguirá esse esquema até que tenha todos os conceitos interligados. Aqui utiliza muito a comparação entre arquitetura e as demais artes, pois afinal, estão todas ligadas ao conceito maior de cultura.
A carga artística de uma peça de Bach, ou da pintura das cavernas de Altamira, sentidas hoje, muito provavelmente não mantêm ligação alguma com as proposições que as originaram. A compreensão artística da pirâmide de Gizeh ou do Partenão, está vinculada à condição das teses que originaram tais monumentos, nos quais ficam patentes a necessariedade, a funcionalidade, a eregibilidade e a definibilidade, através dos termos dos programas que trouxeram as teses primitivas à condição de peça existente. Ao contrário, a Mona Lisa, quer tenha sido o resultado de uma insopitável dor de cotovelo como querem uns, uma inconfessável manifestação freudiana, como insinuam outros, ou ainda o exercício de uma capacidade técnica virtuosística, como proclamam muitos, o fato é que oferece hoje, independentemente de qual tenha sido sua razão verdadeira, uma determinada carga artística. [...] O Palácio dos Doges, no entanto, ainda que utilizado como sede de repartição pública, como galeria de arte ou como quartel de tropas nazistas, não pode ser desvinculado da sua
motivação original. A associação obrigatória à tese primitiva é uma insopitável manifestação do espírito, que considera a peça de arquitetura. (Ibidem, p. 14-15)
Depois se centra mais no conceito do programa, que também tem elementos essenciais: limite, função e bitola. Os elementos limite e função se ligam diretamente à condição “física” da arquitetura. Já o elemento bitola diz respeito às condições culturais.
As ruas de um traçado hipodâmico foram calculadas com base no passo humano e nos meios de transportes vigentes ao tempo do arquiteto de Miletos. A cultura é fator contingente das bitolas. As pirâmides, por exemplo, tanto no seu bitolamento interno como externo, retratam problemas de cultura. A escadaria do Partenão está fora da escala humana, mas reflete uma condição de cultura. (Ibidem, p. 18)
Saia finaliza apontando as questões de irreversibilidade e simultaneidade. Ambas as condições são inerentes à criação arquitetônica. Uma pelo fato de que um dado não pode mudar a natureza de outro. E a última porque a presença, ao mesmo tempo, de todos os dados do problema é essencial para se chegar a uma totalidade.
A análise da organização do espaço como entidade autônoma é uma preocupação consciente da arquitetura contemporânea. A revolução antiacadêmica no campo das artes plásticas, o planejamento no setor da ordenação dos espaços necessários aos acolhimentos da crescente população do mundo e a tecnologia, colocaram este problema na ordem do dia. (Ibidem, p. 23, grifo nosso)
Seguindo seu esquema, Saia analisa o fato de que o espaço arquitetônico não foi estudado no mundo antigo, na Renascença ou no Barroco. Aí cita Vitrúvio, Alberti, Viollet-le-Duc...
Quando o espaço comparece o faz por força da fatalidade da vontade do cliente (Versailles), por impositura social (Hausmann), ou por tendência plástica (barroco); jamais, porém, como um dado de consciência. Nem a recessão dos planos, tão bem analisada por Wölfflin, nem a valorização do espaço externo anotada por Giedeon, nem mesmo a presença do Palácio de Cristal, onde o tratamento do espaço interno assume uma ação de
presença tão marcada, nenhum desses fatores conseguiu instituir o espaço como entidade autônoma da arquitetura. (Ibidem, p.25)
E mostra todo seu conhecimento teórico, traçando um histórico desde as mudanças trazidas pelo processo de industrialização, até o impacto dos novos materiais na arquitetura e à tendência à concentração urbana. Esses os dois fatores que levaram ao olhar mais atento à questão do espaço. E finaliza ligando este conceito aos dois primeiros.
A capacidade, cada vez mais consciente, da arquitetura receber a carga das contingências sociais, políticas e econômicas, de aceitar e acolher as verdades particulares, regionais, culturais, fazem com que a noção do espaço, quer quando nocionado como entidade autônoma, quer quando influenciado pela tese, pelo programa ou pelo partido, se aparece-lhe também para interpretar essa diversidade de manifestações do mundo contemporâneo. Inclusive para interpretar, e acolher ou recusar as sobrevivências, umas legítimas, outras atrapalhantes, que configuram a sociedade atual como usuária da arquitetura. Tanto no campo da edificação como no setor do planejamento, a interpretação espacial da situação proposta é um problema do profissional. [...] A organização do espaço deve conter, simultaneamente, o universal e o contingente. Deve conter a idéia da tese e a particularidade do programa. (Ibidem, p. 29-30)
Nem mesmo com referência à construção contemporânea caberia falar em
sistema construtivo, pois essa expressão importaria numa idéia de um
conjunto cuja organicidade, ainda está longe de ser satisfatória. Existiriam edifícios cuja construção tenha incorporado às conquistas da tecnologia contemporânea a ponto de crear uma organização tão completa e acabada de elementos e soluções que pudesse ser chamado de sistema? (Ibidem, p.31, grifo nosso)
Ao longo deste capítulo, Saia procura a resposta para esta pergunta. E diz que um sistema “constitui objeto de cultura, produtos de sedimentação de experiência e conhecimento lógico, noções que só assumem um nível crítico e levado a posteriore, quando as condições determinantes tenham sido ultrapassados e os acontecimentos possam ser analisados à distância” (Ibidem, p. 32). Nesse sentido, considera como sistema o caso dos índios tupis, dos astecas, dos egípcios,
dos gregos, dos medievais via gótico e do colonial paulista, entre outros. Passa então a analisar a produção contemporânea em busca de um sistema. Cita Le Corbusier, Mies van der Rohe, John Ruskin, Gropius. E termina afirmando que:
Um muro de tijolo, do mesmo tijolo utilizado desde a mais remota antigüidade, será perfeitamente consentâneo se o modus operandi do esquema construtivo, ao resolver os demais problemas de organização do espaço, de interpretação plástica, etc., seja nocionado de maneira a conter o pensamento que hoje se tem do uso do tijolo. Esta condição completa a estrutura característica da noção de esquema construtivo: adequacidade. (Ibidem, p. 38-39)
No capítulo seguinte, Saia fala do conceito “resultados plásticos” a partir de uma crítica ao que vinha (e ainda vem) sendo feito no Brasil no que se refere à plasticidade da arquitetura que, em muitos casos, passa a ser mero decorativismo descompromissado. Sem deixar de apresentar algumas referências internacionais. Aponta ainda a relação engenheiro-arquiteto.
O que aconteceu em São Paulo, aconteceu também na Europa do século passado e nos Estados Unidos. Os arquitetos saídos das escolas de Belas Artes ou dos apêndices arquitetônicos das Escolas de Engenharia, todos viciados pela formação acadêmica... abandonaram a arquitetura na mão dos engenheiros e das condições naturais, para se entregar ao mais desnaturado formalismo.
Assim, a revolução contemporânea na arquitetura, não foi feita pelos arquitetos, mas sim pelos engenheiros e pelos pintores e escultores. Enquanto os arquitetos se esmeravam no labor de um recobrimento decorativo sem lastro e sem sentido, os engenheiros, pintores e escultores, inconscientemente, é verdade, elaboravam uma revolução na fisionomia plástica da arquitetura contemporânea. (Ibidem, p. 42-43)
Nessa direção, relaciona os nomes10 que conseguiram acabar com o impasse acadêmico, levando novamente o arquiteto a uma posição de vanguarda. E dá a “fórmula”, que não deveria nunca tornar-se mecânica:
A organização do espaço, o esquema construtivo, uma relação com as condições do ambiente, soa, portanto, fundamentos legítimos da
interpretação plástica, desde que contenham aquela dose indispensável de idealização que permita o exercício da liberdade creadora. (Ibidem, p. 47)
Continua com uma advertência para outro problema de ordem plástica que surge com o sucesso do modernismo: a adoção de elementos sem vínculos com sua real utilidade. Com a disseminação de projetos modernos, algumas soluções passam a ser adotadas sem qualquer relação com a sua origem. É o caso dos brises, que ficaram famosos no edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro. E também da solução de pilotis, que se torna uma regra, quase um item indispensável em edifícios de “estilo” moderno, quando a intenção original era criar novas áreas públicas em meio às grandes metrópoles.
A organização de tantos fatores que concorrem simultaneamente no ato de creação da arquitetura, seu domínio e a superação dos problemas concorrentes, pressupõe uma disciplina. Essa disciplina é o partido. (Ibidem, p. 50, grifo nosso)
Novamente Saia se vale de um breve histórico (de Vitrúvio a Le Corbusier) para mostrar a importância da “estrutura mental” do arquiteto no processo de criação. Termina apresentando três condições que devem estar presentes no partido: a consideração dos cinco conceitos apresentados anteriormente, o respeito desses conceitos ao programa e à tese e a “intenção ideal”, por meio da qual o arquiteto vai expressar os anseios da coletividade.
Como conclusão, Saia apresenta cinco pontos críticos tanto para a criação arquitetônica, quanto para a formação de arquitetos, que são aqui reproduzidos.
A arquitetura é arte porque o seu processo creador está sujeito à operações irreversíveis.
O que caracteriza a engenharia é que nela são apresentados problemas particulares para serem resolvidos segundo processos particulares. Na arquitetura são propostos problemas universais cuja solução se processa segundo um tipo peculiar de elaboração técnico- artística.
A simultaneidade no comparecimento das entidades que participam do fenômeno da arquitetura e a irreversibilidade das operações do processo creador, diferenciam a arquitetura das demais belas artes.
O estudo da arquitetura deve ser feito, de um lado pela análise das entidades autônomas (partido, tese, programa, organização do espaço, esquema construtivo e resultados plásticos) e de outra parte pela pesquiza [sic] das intenções, particulares ou coletivas, conscientes ou inconscientes, que determinam caminhos preferenciais para épocas, situações ou casos isolados.
No domínio da creação, a arquitetura, o urbanismo e o planejamento constituem uma identidade. No campo da atividade profissional não pode haver diferenciação entre arquiteto, urbanista e planejador, porque existe equivalência de comportamento entre a natureza dos problemas abordados e de estrutura mental do profissional incumbido da sua solução. (Ibidem, p.57-58)
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O Da Arquitetura foi um trabalho acadêmico no seu sentido mais literal. Feito como um esboço do que seria seu curso na cadeira de Teoria, Saia mostra não só sua visão da Arquitetura, mas um pouco da sua visão de mundo. Nele é possível ver o comprometimento de Saia com a parte teórica da arquitetura, apesar de ele ter sido um homem de campo. Na verdade, ele diria algo como “apesar não, porque”. Era necessária uma profunda interligação entre teoria e prática. Para Saia não era possível um arquiteto não conhecer a história da arquitetura, não havia como ter uma produção correta e comprometida com a sociedade sem conhecer o que já havia sido feito e discutido e também o que estava sendo feito e discutido. Sem diálogo, sem debate, sem erudição, não se chegaria a lugar algum. Por isso a sua crítica constante à formação dos arquitetos contemporâneos: eles nem recebiam qualificação na faculdade, nem se preocupavam em procurá-la fora dele, coisa que Saia fez intensamente.