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No primeiro semestre de 2007, foi realizada a primeira visita à Escola Santana com o objetivo de solicitar a autorização para o desenvolvimento do trabalho de campo. A coordenadora Matilde, que nos recebeu, desde o início mostrou-se muito receptiva. Nessa primeira conversa, foram esclarecidos os principais objetivos da pesquisa e o que se pretendia com o trabalho de campo. Matilde contou-nos sobre o Projeto de Formação Contínua de Professores que acontecia na escola e nos apresentou livros e revistas do Projeto que relatavam os acontecimentos e as experiências vividas durante os cursos. Além disso, Matilde informou-nos que já houve dois trabalhos de pós-graduação desenvolvidos na escola.

Após a conversa com a coordenadora, buscamos as pesquisas mencionadas por ela. As informações retratadas nesses estudos indicavam ações importantes desenvolvidas pelo grupo

18 Matilde é pedagoga, Mestre em Educação e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de

São Paulo (PUC/SP). Atuou como coordenadora pedagógica em escolas da Rede privada e pública e possui experiência como professora universitária. Desde 1996 é coordenadora pedagógica da Escola Santana. Trabalhou na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo na gestão de 1989-1992, atuando, mais especificamente, na Formação Permanente do Educador e no Movimento de Reorientação Curricular. É a idealizadora do Projeto de Formação Contínua de Professores em Serviço.

de educadores que mereceram a nossa atenção: a formulação de projetos com o objetivo de enfrentar as dificuldades do cotidiano escolar, a partir da reflexão coletiva da prática.

Com a autorização para o início do trabalho de campo, o próximo passo envolveu uma conversa com a coordenadora Patrícia, responsável pelo período matutino e pelo trabalho com o grupo de professores que atuam no primeiro ciclo do ensino fundamental. Nesse encontro, foi decidido que as observações aconteceriam nos horários de trabalho coletivo dos professores e em salas de aula pertencentes ao ciclo I.

O primeiro encontro com os professores ocorreu durante o horário de trabalho coletivo, momento em que foram esclarecidos os objetivos da pesquisa. Explicamos aos professores que realizaríamos observações em diversos espaços e momentos, em especial, em sala de aula e, posteriormente, seriam feitas algumas entrevistas. Essa foi uma de nossas preocupações: o acompanhamento minucioso de uma diversidade de situações no cotidiano escolar. Essa dinâmica proporcionaria conhecer com maior profundidade a realidade da escola.

No período entre outubro e dezembro de 2007, realizamos 17 visitas à escola, com permanência, aproximadamente, de três horas em cada. Foram feitas observações em sala de aula de três professoras; nos horários de trabalho coletivo; em uma comissão de classe, que reuniu professores dos dois primeiros anos do ensino fundamental - ciclo I; em uma reunião para a formação de classes para o ano letivo de 2008; em eventos realizados no espaço escolar; nos horários de intervalo de aulas: entrada, recreio e saída das crianças e em um evento formativo. Nesse período, as observações ocorreram de duas a três vezes por semana. Realizamos também uma entrevista com uma das professoras que atua no ciclo I (professora Helena); conversas informais com funcionários e professores e análise de documentos da escola. Entre os documentos consultados ressaltamos o PPP, as revistas e os livros do Projeto de Formação.

Inicialmente, não estava prevista a análise de documentos. No entanto, as observações participantes e as conversas com os professores indicavam que a consulta aos materiais da escola traria contribuições para este estudo. Identificamos no PPP a concepção de educação, de avaliação, as metas a serem alcançadas pela escola e a proposta de formação contínua em serviço. Nas revistas, consultamos o registro feito pelos professores participantes do Projeto de Formação, relatando suas inseguranças, dúvidas e a contribuição das discussões no coletivo. Os livros do projeto, que fornecem orientações didáticas e propostas de trabalho para a alfabetização, foram compreendidos como materiais de estudo e trabalho dos professores.

Além desses materiais, os livros do Programa “Ler e Escrever - Prioridade na Escola Municipal” foram consultados, por influenciarem a escolha dos professores no que se refere às atividades realizadas em sala de aula. Esse Programa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo foi implantado em 2006 e compreende três projetos: “Toda Força ao 1º. Ano - TOF”; “Projeto Intensivo no Ciclo I – PIC” e “Ler e escrever em todas as áreas no Ciclo II”. Tais projetos, voltados ao ensino fundamental, visam enfrentar o fracasso escolar associados à leitura e à escrita. O TOF está direcionado aos ingressantes no 1° ano e o PIC aos alunos de 3ºs e 4ºs anos. Para os diferentes projetos, foram elaborados cadernos (livros) de planejamento e orientações didáticas para os docentes. Nestes, estão presentes as expectativas de aprendizagem e as metas pretendidas para cada período do ano letivo. A atuação do “aluno- pesquisador”19 nas classes de 1º ano do Ciclo I, junto aos professores, é outra característica do Programa “Ler e Escrever”.

Em 2008, retornamos à escola para realizar novas observações e entrevistas, seguindo as orientações sugeridas por ocasião do exame de qualificação. Durante um semestre, realizamos mais 15 visitas à escola, totalizando 32 visitas: retomamos a entrevista com a professora Helena, para discutir algumas questões surgidas com a análise inicial dos dados; realizamos entrevistas com a coordenadora pedagógica Matilde e com a professora Lúcia; fizemos observações em sala de aula e de um evento formativo. As observações ocorreram quinzenalmente, com duração de, aproximadamente, duas horas em cada.

As entrevistas realizadas com as professoras seguiram um roteiro semi-estruturado que envolveu categorias de análises elaboradas com base nos trabalhos de Maurice Tardif (2002) e Maria Iolanda Monteiro (2006): 1) Lembranças da vida escolar; 2) Formação Profissional; 3) Vida profissional; 4) A política de ciclos com progressão continuada. As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas.

A organização do roteiro a partir de temas permitiu uma flexibilidade, garantindo transformações no decorrer da própria entrevista. As professoras entrevistadas foram convidadas a narrar sobre suas experiências, concepções e sentimentos. O principal objetivo foi compreender a dimensão histórico-dialógica dos saberes docentes e aprofundar e esclarecer algumas informações levantadas por meio das observações. As entrevistas,

19 O aluno-pesquisador é um estudante universitário, de Letras ou Pedagogia, que acompanha e auxilia o trabalho

do professor do primeiro ano do Ciclo I, para o desenvolvimento do Programa "Ler e Escrever - Prioridade na Escola Municipal", mediante convênio entre a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e Universidades ou Institutos Superiores de Educação.

agendadas com antecedência, aconteceram na própria escola, durante a hora-atividade20 das professoras. A entrevista realizada com a professora Helena durou aproximadamente duas horas e meia. Com isso, houve a necessidade de fazê-la em dois dias. A entrevista com a professora Lúcia durou uma hora e meia e foi realizada em apenas um dia.

A entrevista com a coordenadora Matilde teve por objetivo compreender a influência de seus saberes na criação do Projeto de Formação Contínua de Professores e na construção do PPP da escola, que é um importante instrumento que orienta a ação docente em sala de aula. A entrevista foi gravada, transcrita e seguiu um roteiro semi-estruturado, a partir dos temas: 1) Trajetória pessoal e profissional; 2) O Projeto Político Pedagógico; 3) O Projeto de Formação; 4) O ensino em ciclos com progressão continuada.

Nos momentos de observação em sala de aula, procuramos não interferir no andamento das atividades buscando ampliar as possibilidades de observação e registro. A própria presença da pesquisadora já altera o andamento das atividades, especialmente no início do trabalho de observação. Por essa razão, pretendíamos minimizar essa interferência. Entretanto, quando solicitadas para responder algumas questões ou opinar sobre algum assunto, procuramos fazê-los e, posteriormente, registrar no caderno de campo a intervenção realizada para considerá-la na análise.

Ao longo das observações mantivemos conversas com as professoras que enriqueceram os dados obtidos. Essas conversas aconteciam na própria sala de aula, enquanto os alunos realizavam alguma atividade; nos horários de trabalho coletivo e nos eventos promovidos pela escola. A relação de confiança que se estabeleceu entre as professoras e a pesquisadora proporcionou a obtenção de informações sobre os acontecimentos ocorridos em sala de aula mesmo quando a pesquisadora não estava presente nessas situações.

A necessidade de analisar as informações obtidas em campo impunha a interrupção do trabalho de observação em sala de aula. Entretanto, ao retornarmos à escola, as professoras relatavam os fatos passados que consideravam de relevância. Por exemplo, o desenvolvimento de uma atividade diferenciada; a confecção de um portfólio para o acompanhamento dos avanços dos alunos e os registros sobre os projetos realizados em sala de aula.

As observações nos horários de trabalho coletivo priorizaram as discussões entre a coordenadora Patrícia e os educadores sobre o processo de ensino-aprendizagem e as ações necessárias para que os alunos pudessem avançar em relação à leitura e à escrita. Dessa

20 A hora-atividade compõe a jornada de trabalho do professor. Esse momento é destinado ao preparo de

forma, poderíamos identificar as estratégias pensadas pelo grupo de professores no espaço coletivo da escola para atender a heterogeneidade em uma classe e quais as suas concepções sobre educação escolar, relação professor-aluno, ensino-aprendizagem, organização dos tempos e espaços e avaliação.

Quanto aos Seminários de encerramento do Projeto de Formação de 2007 e 2008, realizamos anotações em nosso caderno de campo sobre os preparativos, o envolvimento da comunidade escolar, a ansiedade dos professores que iriam oferecer alguma oficina e a participação de professores de outras unidades escolares; gravamos as palestras proferidas por professores universitários convidados para o evento e transcrevemos a fita. Participamos também de duas oficinas: no ano de 2007, “Leitura e Escrita nos anos iniciais do Ciclo I” e, no ano de 2008, “Práticas de Registro na sala de aula”, sob a responsabilidade de professoras da Escola Santana que participam do Projeto de Formação. O principal objetivo foi identificar que saberes esses professores estão se apropriando, modificando e recriando com base nos cursos oferecidos pelo Projeto de Formação, especialmente, para o trabalho com a diversidade em sala de aula (CENA 3).

Na reunião destinada à formação de classes para o ano letivo de 2008, realizamos anotações sobre a dinâmica utilizada pela equipe pedagógica para instigar o debate entre os educadores sobre mudanças indispensáveis para a construção de uma escola de melhor qualidade e mais adequada às necessidades da comunidade escolar. Também, procuramos registrar as falas dos professores durante a discussão, que será analisada em mais detalhe na apresentação da CENA 4.

Na comissão de classe observada, reunião feita entre os professores dos dois primeiros anos do Ciclo I, registramos as percepções dos professores sobre as expectativas de aprendizagem para cada período do ano letivo e sobre as dificuldades apresentadas pelos alunos de cada classe. Nesse momento, os educadores discutiram e analisaram sondagens, instrumentos utilizados para identificar a hipótese de escrita da criança e avaliar os conhecimentos que ela possui sobre a escrita, com o objetivo de proporcionar intervenções significativas e redirecionar o trabalho pedagógico. A realização das sondagens, embasada no estudo da Psicogênese da Língua Escrita de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, mostra-se complexa e desafiante para o professor, como será apresentado posteriormente na CENA 12.

Capítulo 3. A mobilização e a construção de saberes docentes no cotidiano