Schwindt (1995), em sua dissertação de mestrado, investiga os contextos linguísticos e extralinguísticos que atuam na regra de elevação das vogais pretônicas, seguidas de vogal alta em uma das sílabas subsequentes da palavra, nos dialetos do português falado em Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, capitais que integram o Projeto Variação Linguística do Sul do País (VARSUL). O fenômeno foi analisado sob a perspectiva da Teoria da Variação, com o fim de se verificar a influência de fatores sociais e linguísticos na regra de Harmonia Vocálica.
O corpus da pesquisa constituiu-se do registro de fala de 36 informantes, falantes monolíngues do português. Segundo o autor, a regra de Harmonia Vocálica nos dialetos investigados apresenta sistematicidade, depreendida a partir da regularidade com que o fenômeno ocorre em determinados ambientes. O contexto principal para aplicação da regra é a presença de uma vogal alta contígua, já apontado por Bisol.
Em artigo de 2002, Schwindt retoma essa discussão fazendo um recorte somente com os dados do dialeto gaúcho. O autor apresenta e discute os resultados dos fatores que contribuem para esse processo.
Schwindt assume, com base em estudos precedentes, que a harmonização vocálica é uma regra variável, em moldes labovianos, motivada por fatores linguísticos e sociais, que tem baixa aplicação no português e que, do ponto de vista da mudança linguística, é um processo estável.
Os resultados mais relevantes da análise que asseveraram os argumentos do autor podem ser assim resumidos: (i) o gatilho e o alvo devem estar em relação de dominância, independentemente do acento da vogal alta; (ii) os contextos preferidos são a palavra não- derivada e verbos; (iii) a homorganicidade das vogais não se mostrou relevante.
A análise dos fatores linguísticos, segundo Schwindt (1995), além de apontar a caracterização da regra de harmonização vocálica como variação estável, no dialeto gaúcho, sinalizou, por outro lado, a existência de outra regra, de natureza fonética ou mesmo acústica, como mostrou Bisol (1981), que coexiste com a regra fonológica descrita em questão.
2.3.1.4 Harmonização vocálica: análise variacionista em tempo real (CASAGRANDE, 2004)
Casagrande (2004) apresenta uma análise da regra de harmonização vocálica em tempo real na cidade de Porto Alegre, contrapondo dados de fala referentes a duas épocas distintas: final da década de 1970 e final da década de 1990. O objetivo da autora é verificar o status da harmonização como regra variável, no sentido de ser uma variável em progresso ou uma variável com indícios de estabilidade, quer no indivíduo quer na comunidade. Para tanto, a necessidade da realização em dois estudos: um em tempo aparente17 e outro em tempo real18.
A amostra da pesquisa é constituída de 24 entrevistas, 12 para o estudo de painel e 12 para o estudo de tendência. A realização do estudo de painel foi feita utilizando-se seis
17 “Os estudos de distribuição em tempo aparente se fazem necessários em comunidades em que os dados em
tempo real não estão disponíveis. A fim de se detectar variação e possível mudança lingüística nesses casos, realiza-se na comunidade um recorte em função das faixas etárias dos falantes e compara-se o comportamento lingüístico dos diferentes grupos etários, dos falantes mais jovens aos mais velhos” (CASAGRANDE, 2004, p. 38).
18 Segundo Labov, “para se detectar uma mudança lingüística em uma comunidade de fala, é preciso arrolar
evidências que mostrem alguma variação através de coleta e análise de dados, e, passadas algumas décadas, retornar ao local para verificar se houve ou não avanço no uso da regra variável em estudo” (1994, p. 39).
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informantes recontatados do projeto NURC19 que tiveram sua fala gravada, pela primeira vez, em meados de 1970 e, pela segunda vez, no período de 1998 a 2000. O estudo de tendências teve como base Bisol (1981), em que a autora analisa, ao lado de uma amostra maior representativa da fala popular, uma amostra suplementar representante da fala culta de Porto Alegre, extraída do projeto NURC, constituída por doze indivíduos com nível superior. Todos os informantes, nos dois estudos, possuem nível superior.
Casagrande (2994) analisa 5.538 dados, 2.933 para a vogal /e/ e 2.605 para a vogal /o/. Os resultados da análise quantitativa para o estudo de painel dizem respeito às variáveis sociais e possibilitaram as seguintes conclusões: a) os falantes mais velhos, tanto para /e/ quanto para /o/, comparativamente, mudam seu comportamento; b) os falantes da faixa etária intermediária, tanto para /e/ quanto para /o/, tendem a diminuir o uso da regra à medida que avança de faixa etária; c) os mais jovens mudam o comportamento ao usar menos a vogal alta no ambiente da pretônica /o/; d) o comportamento dos mais jovens para a pretônica /e/ não pode ser definido por um padrão.
Em termos gerais, no que respeita ao estudo de tendências, em que se averigua o comportamento da comunidade, Casagrande (2004) compara seus resultados aos de Bisol (1981) e, ao procurar ver a simetria de aplicação da regra entre os estudos, constata um decréscimo de aplicação na amostra do final da década 1990, em relação à amostra do final de a 1970, indicando que a comunidade, assim como os indivíduos, não permanecem estáveis e, de modo geral, apresentam discreta regressão no uso da regra.
Em relação ao estudo em tempo aparente, expectativas baseadas no estudo de Bisol (1981) são confirmadas, pois muitos dos fatores mostraram exercer a mesma influência sobre a regra, como: a) vogal alta contígua, tônica ou não, é o fator determinante na aplicação da regra; b) a presença de consoantes de articulação alta entre as vogais-alvo e gatilho; c) o papel do sufixo verbal com vogal alta em detrimento de outros sufixos.
Especificamente em relação aos aspectos fonológicos, Casagrande (2004) constatou que: a) o espraiamento do traço de abertura não encontra obstáculos se houver segmentos consonantais simples intervenientes correspondentes no traço alto20, como
perigo ~ pirigo, coluna ~ culuna; b) o nó de abertura existente nos segmentos /ñ/ e/ / intervenientes, ao invés de bloquear o espraiamento, dá continuidade ao processo, lançando
19 Únicos informantes disponíveis até a época da pesquisa.
seu próprio espraiamento, como em s[eñ]ior ~ s[iñ]or, m[e ] or ~ m[i ]or; c) o espraiamento [-aberto 2] parece atuar com mais facilidade dentro do limite de palavras prosódicas e palavras derivadas a partir de sufixos derivacionais produtivos e sufixos flexionais de verbos, como em correria ~corriria, pedia ~pidia.