Essa variável busca explicar se as ocorrências de [ e [ ] têm alguma relação com o seu parente tônico ou se a atonicidade permanente é uma condição.
173
Tabela 32: Efeitos das pretônicas derivadas
Média [+post] Fatores
Ocorrências Aplicação % Peso
Derivada de Tônica g[ rdinho, f[ lhetim, n[ vidade
117 22 19% 0,65
Sempre Átonas c[ luna, m[ rcego, c[ meço,
p[ lítico
1972 304 15% 0,49
Total 2089 326 16% -
Input: 0,13
Significância: 0,035
Os resultados, nesta Tabela, embora não possibilitem uma interpretação mais ampla da produção de vogal média fechada, em função de o programa ter selecionado esse grupo de fatores somente para a amostra da [+post], permitem inferir, através dos índices, que a maior emergência da vogal fechada no dialeto concentra-se em nomes derivados de mot[ ]rista/mot[ r, disp[ sição/disp[ r.
Conclui-se, portanto, através dos casos aqui consignados, que a produção de vogal média fechada explica-se pela pressão morfológica, ou seja, paradigmática, que se identificou nos itens lexicais da amostra examinada.
4.2.3.9 Gênero
Na hipótese de que a variável sexo pudesse apresentar alguma interferência na produção da vogal média fechada, buscou-se verificar se esse fator configuraria um indicador de mudança linguística no dialeto em questão. A Tabela a seguir traz os resultados obtidos pelo programa.
Tabela 33: Efeitos do gênero
Média [+post] Fatores
Ocorrências Aplicação % Peso
Feminino 1071 192 18% 0,53
Masculino 1018 134 13% 0,46
Total 2089 326 16% -
Input: 0,13
Significância: 0,035
O programa considerou apenas como estatisticamente relevante, para esta variável, a vogal média [+post]. Contudo, a proximidade que os índices aqui obtidos têm com o ponto neutro não nos permite, isoladamente, defender qualquer papel significativo dessa variável sobre a emergência da média fechada.
Vale observar que esta Tabela, bem como a Tabela 12 do presente estudo, que trata do processo da harmonia com a vogal média aberta, trazem exatamente os mesmo valores. Isto nos autorizar a dizer que a produção de vogais médias abertas ou fechadas independe da ação deste fator no dialeto.
Assim, partindo do pressuposto de que o gênero interage em conjunto com outros fatores, não podendo ser visto isoladamente, propomos, então, o cruzamento dos fatores gênero (embora o programa tenha selecionado apenas a vogal [+post]) e faixa etária. É o que a Tabela 34 mostra.
Tabela 34: Cruzamento da faixa etária com gênero
Média [-post] Média [+post]
Gênero Faixa Etária
Feminino Masculino Feminino Masculino
+50 anos 0,42 0,44 0,50 0,40
36-50 anos 0,54 0,48 0,57 0,44
175
O cruzamento dos grupos de fatores gênero e faixa etária ratifica a leve tendência das mulheres, de faixa etária compreendida entre 20-50 anos, a usar mais as variantes [ e [ no dialeto em análise. Todavia, o resultado desse fator, em relação aos homens, possibilita verificar que eles não são menos refratários à produção das médias fechadas, pois a realização destas vogais é mais atuante na faixa etária dos mais jovens. A literatura variacionista, no entanto, sempre apontou o fato de que o gênero feminino adota atitudes menos conservadoras do que o gênero masculino. Assim, diz Labov (1994) que, em muitas das mudanças linguísticas investigadas, as mulheres são consideravelmente mais avançadas que os homens.42
Os resultados do cruzamento desses grupos para os dados de Barbosa da Silva (1989, p. 304), em Salvador, mostraram que o padrão curvilíneo já delineado a favor de uma maior produção das médias fechadas pelas mulheres, antes do cruzamento, mantém- se. As mulheres da faixa etária compreendida entre 35-55 anos produzem mais as variantes inovadoras. Os homens, por sua vez, mesmo produzindo menos a regra de fechamento nas faixas etárias mais jovens, não impõem dados suficientes para modificar a primeira conclusão arbitrada: as mulheres lideram o processo de fechamento das vogais médias no dialeto.
Para os dados de Recife (2008, p. 331-333), Barbosa da Silva constata também uma gradação etária entre as mulheres (25-33 e 35-43 anos) favorável à aplicação, mantendo o mesmo padrão ascendente, porém chama atenção para um padrão curvilíneo não muito nítido entre os falantes masculinos, pois há uma tendência maior da produção destas vogais nas faixas extremas (23-33 e 55-63 anos); para elucidar, então, a aplicação da regra de fechamento, nesse dialeto, a autora analisa o comportamento individual de cada informante e chega à conclusão de que a regra de fechamento das médias pretônicas não é um comportamento individual, assistemático, porque atinge todos os informantes e que, no dialeto recifense, essa regra se aplica mais entre os homens.
Pereira (1997, p. 87-88), ao proceder essa combinação nos dados de João Pessoa, confirma, em termos percentuais, as mulheres da faixa etária de 25-49 anos como as que mais produzem as vogais médias fechadas. Salienta, ainda, que o comportamento da vogal
42 “In most of the vowel shifts that we will look at, women are considerably more advance than men”
[-post] se assemelha ao da vogal [+post], com a ressalva de que aquela se apresenta mais sujeita ao fenômeno de fechamento do que esta.
Diante do exposto, vê-se que os resultados de Teresina-PI, aqui analisados, coincidem com os de Barbosa da Silva (1989) e de Pereira (1997), ao apontar as mulheres com faixa etária de 20-50 anos como as que apresentam uma leve tendência à pronúncia da vogal média fechada.
Assim, com base na concepção laboviana de que a faixa etária corresponde a estágios temporais aparentes e as diferenciações no uso da linguagem em função do sexo decorrem de aspectos de ordem social, constata-se no dialeto teresinense, por um lado, a variante média fechada como a forma preferencial das mulheres mais jovens e, por outro, um evidente decréscimo desta preferência em relação à idade do grupo das mais idosas. Para uma melhor visualização do padrão curvilinear resultante do cruzamento desses fatores, observem-se, a seguir, os Gráficos 5 e 6, vogal média [-post] e vogal média [+post] respectivamente. 0,00 0,10 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70
+50 anos 36-50 anos 20-35 anos
Feminino Masculino
177 0,00 0,10 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60
+50 anos 36-50 anos 20-35 anos
Feminino Masculino
Gráfico 6: Cruzamento da faixa etária com gênero – Vogal média [+post]
É possível constatar que o padrão curvilíneo que emerge desses Gráficos põe em relevo uma sensível regularidade para os dois gêneros, interpretáveis da seguinte forma: (i) os falantes mais velhos são os que menos produzem a média fechada tanto a [-post] quanto a [+post]; (ii) os falantes mais jovens são os que mais a realizam indistintamente; (iii) a faixa intermediária é a que distingue a produção entre ambos os gêneros, com acentuada expressividade para os índices feminino.
4.2.3.10 Conclusão
A análise desta variável permitiu que chegássemos a algumas conclusões relacionadas aos condicionadores que favorecem a produção de vogais médias fechadas no dialeto teresinense em que a média baixa é a presença mais comum.
Constatou-se, a partir dos resultados obtidos, que, tanto para a vogal / / quanto para a vogal / /, a contiguidade com uma vogal da mesma altura configura-se como o primeiro e maior condicionador da realização das vogais médias fechadas na posição pretônica. Essa sequência vogal média fechada mais vogal média fechada confirma-se consistentemente como forte indício para a determinação da altura das pretônicas neste contexto, tal como foi constatado nas pesquisas de Barbosa da Silva (1989 e 2008), Maia (1986) e Pereira (1997).
Também se verificou que a vogal tônica exerce um papel, pois tende a preservar a vogal média fechada em todo o paradigma derivacional.
Em relação às consoantes circundantes, foi o contexto seguinte que se mostrou como mais favorecedor para a realização das médias fechadas, destacando-se as consoantes nasais e palatais por concentrarem os maiores pesos tanto para a vogal [-post] quanto para a [+post].
No que respeita às variáveis extralinguísticas, os resultados da combinação dos fatores gênero e faixa etária apontam para o papel dos mais jovens, tanto mulheres quanto homens, que apresentam um leve sinal de abertura para a presença da vogal média fechada no dialeto.
Concluímos, portanto, que os resultados obtidos para as produções das variantes [ e [ , no dialeto de Teresina-PI, assemelham-se aos demais falares nordestinos descritos por Barbosa da Silva (1989 e 2008), Maia (1986) e Pereira (1997). A bem da verdade, conforme afirma Barbosa da Silva (1989), os ambientes que favorecem a emergência dessas variantes parecem ser comuns aos dialetos do Norte e Nordeste do Brasil.
5 PROCESSOS FONOLÓGICOS CONCORRENTES NA REALIZAÇÃO DAS