Chapter 3: Material and Method
3.1 Material
Este pequeno capítulo tem uma função muito específica no conjunto deste trabalho, visto que apresentará uma panorâmica global da evolução da militância nos principais países da Europa e em Portugal, com uma amostragem do ratio M/E em Portugal e em Espanha45, con-
cluindo-se com a evolução dos números da militância entre nós.
Pouco anos antes de se fechar a cortina do século XX, alguns autores começaram a obser- var a sedimentação de um crescente descontentamento com a actividade política, reflectida num aumento da desconfiança nos políticos e nas instituições dos sistemas democráticos (Dalton, 1999; Pharr e Putnam, 2000; Torcal, 2003), plasmado em relação aos partidos políti- cos no que alguns autores chamaram de “strong and consistent decline in the gross numbers” (Mair e van Biezen, 2001). Apesar dos números globais poderem não dizer grande coisa sobre as flutuações e as dinâmicas intra-partidárias (van Schuur e Vöerman, 2009: 1), é ine- quívoco o declínio em relação a mais de uma dezenas de países (Scarrow, 2015: 72), sendo a percepção deste facto que confere maior pertinência à necessidade de conhecer as suas
45 Uma análise dos números da militância pode ser feita fundamentalmente sobre três perspectivas,
a saber: (i) pelo número bruto, total ou absoluto de militantes (M), que Duverger designa por “taxa de adesão” (Duverger, 1951); (ii) pelo número total de militantes relativamente ao número de votantes/ eleitores num partido (M/V); ou (iii) pelo número de militantes face ao número total de eleitores recen- seados (M/E), também designada por “densidade partidária” pelo seu criador (Bartolini, 2000).
O simples critério do número total de militantes pode ajudar a adquirir uma ideia sobre a dimensão do partido num determinado país, ou seja, numa perspectiva individual, como lhe chamaram Katz, Mair et al.(1992: 330), e permitirá saber como evoluiu num determinado quadro temporal esse partido no país em que opera. Isto é, se ao longo dos anos cresceu, se encolheu ou se manteve-se estável. Esse critério, no entanto, é pouco útil do ponto de vista comparativo. A diferente dimensão de cada país e as circunstâncias próprias da vida política nacional não permitem extrapolações, inserindo factores de divergência que não podem ser sopesados da mesma forma. Não faz sentido comparar os números ab- solutos de um partido em Portugal com os de um partido na Alemanha ou em Itália porque a dimensão do país, o número de habitantes e de eleitores é muito diferente. De qualquer modo, a este critério quantitativo se recorrerá quando se abordarem especificamente os partidos portugueses para o efeito de serem comparados.
Mais utilizado como meio de estandardização de valores entres países, o segundo critério é consid- erado um indicador de penetração (ou encapsulação) mas, como também foi sublinhado (Katz e Mair, 1992: 331), esse indicador distorce a realidade na medida em que parte do pressuposto que cada parti- do tem um eleitorado fixo, o que não corresponde à verdade e é facilmente verificável pela análise dos resultados obtidos pelo mesmo partido em diversos actos eleitorais.
O terceiro critério é aquele que apresenta maiores virtualidades no estudo comparado ao introduzir um factor de correcção decorrente do controlo da dimensão do eleitorado, para depois proceder à transformação dos números brutos numa percentagem em função da evolução do eleitorado. Este in- dicador “não depende das diferenças dos resultados eleitorais obtidos” (Lisi, 2011: 77). Por este último, não só se torna possível a comparação entre partidos dentro de um mesmo país, como se viabiliza a comparação entre diferentes países, permitindo observar a sua evolução ao longo do tempo e con- frontando cada uma das unidades políticas estaduais que se tenha em vista. O indicador M/E foi o aqui escolhido, em detrimento de outros, uma vez que este indicador coloca em evidência a relação entre o número total de militantes e a dimensão dos eleitorados.
reais causas.
Com o final da II Guerra Mundial e o restabelecimento na Europa da normalidade no funcio- namento das suas instituições, assistir-se-ia a um incremento dos números da militância, mas a partir de meados da década de 80 tornou-se indisfarçável a existência de uma tendência geral de declínio em relação a vários países. Por exemplo, na Bélgica, em 1949, havia cerca de 300.000 militantes, que em 1987 atingiram 654.762. A partir daqui o declínio foi contínuo até se registarem em 2007 apenas 388.148. Também o ratio M/E passou em 1946 de 11,11% para 4,81% em 2010 (van Haute, 2015: 39). Evolução idêntica ocorreu na Alemanha, onde depois de um período de recuo entre 1949 e 1961, os números da militância foram em cres- cendo até atingirem o seu pico em 1990. Após este ano iniciou-se o declínio que levou a uma redução dos números entre 1991 e 2013 de 2,2 milhões para 1,3 milhões. O ratio M/E que era de 4,3% em 1987 reduziu-se até 2,3% em 2007 (Spier e Klein, 2015: 91-92). Noutra democra- cia consolidada, a Holanda, entre 1978 e 2008 houve uma queda de 1/3 no número de mem- bros dos partidos (van Schuur e Vöerman, 2009), embora entre 2006 e 2012 o número de membros tivesse sido superior a 2002, fenómeno explicado pela ascensão e assassinato de Pim Fortuyn (den Ridder et al., 2015: 141). De qualquer modo, o ratio M/E holandês registou uma queda de 13,9%, em 1948, para os referidos 2,5% em 2012. Este cenário repetiu-se em termos ainda mais acentuados no Reino Unido, onde o ratio M/E saltou de 10,6%, em 1952, para 0,9%, em 2012, e o número total de militantes que era superior a 3,5 milhões reduziu-se a cerca de 500.000 (Bennie, 2015: 174). Na Noruega a taxa de militância relativamente ao eleitorado (M/E) foi de 17% em 1955, reduziu-se para 13% em 1989, estando em 2012 situada em 5%, valor ainda assim alto para a média europeia (Heidar, 2015: 157).
A apresentação destes números tem levantado algumas dúvidas. Por vezes assinalam-se discrepâncias entre aqueles que são o resultado de dados objectivos e os resultantes de recolha subjectiva, além de que não só o tipo de dados é diferente como muitas vezes a re- colha ocorre em diferentes períodos temporais, o que torna difícil eventuais comparações, em especial quando em causa estão dados subjectivos e o entendimento de quem responde não é uniforme (Ponce e Scarrow, 2011; Scarrow, 2015). Desde logo porque há diferenças entre os países e as democracias sobre a definição de militante, depois porque os ciclos eleitorais podem nisso ter influência (van Haute e Gauja, 2015: 12), não sendo a apreensão do conceito igual para todos, mas também porque em muitos países continua a ter uma natureza informal e fluída (Ponce e Scarrow, 2011, Scarrow, 2015: 84). Em todo o caso, pese embora as diver- sas definições de militante, as quais são também susceptíveis de variar em razão do tipo de partido (Seyd and Whiteley, 1992; Whiteley et al. 1994: 19; Duverger, 1976: 117), a definição de militante adoptada (vd. Capítulo II), e a que aqui de novo se recorre, é a que vem de Heidar (2006: 301). Por conseguinte, excluem-se deste núcleo as filiações colectivas, aliás na linha do que vem sendo seguido pela maioria dos autores (Widfelt, 1995: 137).
Não sendo possível a comparação directa entre os dados obtidos pelos autores em re- lação a diferentes países com os que actualmente constam de bases de dados, aqui será
apresentado o resultado a que aqueles chegaram (Quadro 4.1), por um lado, para depois se olhar para os números de uma das mais importantes bases de dados europeia assente em inquéritos (ESS) para verificar a evolução do ratio M/E (Quadro 4.2). A última secção deste capítulo contém todos os dados da militância relativos a Portugal recolhidos com a presente investigação, mas antes disso abre-se de imediato uma secção para dar conta das razões subjacentes à escolha dos países contemplados.