Regressemos a Carl Schmitt para, com o conservadorismo que caracteriza o posicionamento do jurista alemão, encerrar o capítulo em que nos propusemos pensar a técnica como aquilo que desencadeou a o ser humano – quer na libertação originária do pensamento e que permitiu o salto individuativo para o homo sapiens sapiens, quer pelas individuações colectivas que o fazer da guerra sempre estimulara. Para Schmitt, assumidamente uma força de bloqueio à aceleração que a técnica comanda, nenhuma decisão pode derivar por imanência da técnica, justamente porque é comum a qualquer indivíduo e a qualquer povo, a qualquer religião. Em suma, qualquer guerra ou paz usa a técnica como arma porque a técnica é sempre uma forma de aparelhagem ou armamento.
Num importante texto de 1929, intitulado «A Era das Neutralizações e Despolitizações»325, Carl Schmitt percorre com ironia a crença numa neutralidade da técnica como um argumento por demais comum. Aparentemente, continua com sarcasmo, nada existe de mais neutro. A técnica serve qualquer um e passa qualquer mensagem que se queira enviar, tal qual como o serviço dos correios entrega toda a encomenda independentemente do seu conteúdo. Do pacote-bomba a um ramo de flores, do envelope com antraz326 à carta perfumada, as novas tecnologias assistem tanto a «boa nova» como a notícia da tragédia, mantendo-se o meio imune ao passar da palavra, digamos assim, metaforicamente. Posto isto, o que é dramático para Schmitt e para toda a sua filosofia política, equipamentos ou máquinas não poderão fornecer os critérios ou o quadro de entendimento que possam comandar a sua avaliação (Schmitt 1929, 90). E precisamente porque serve qualquer um, diz o jurista, que a técnica não poderá ser jamais neutra. É na duplicidade que encerra, porque tem tanto de utensílio como de dispositivo punitivo, que a técnica não é, nem será, imparcial:
325
No original «Das Zeitalter der Neutralisierungen und Entpolitisierungen».
326 Lembremos o caso dos envelopes contaminados com carbúnculo ou antraz, ocorrido em 2001 nos
«Technology is always only an instrument and weapon precisely because it serves all, it is not neutral. No single decision can be derived from the immanence of technology, least of all for neutrality. Every type of culture, every people and religion, every war and peace can use technology as a weapon.» (Schmitt 1929, 91)
Pensemos na possibilidade de fazer de uma panela de pressão uma bomba327– a partir de agora, na era do terrorismo, qualquer sujeito, e também qualquer objecto, começa a ser suspeito.
A paz, um momento de suspensão fundado tanto em tratados como em dissuasões, faz com que a guerra pareça um animal ciclotímico328. E a neutralidade da técnica, neste duplo andamento que caracteriza a guerra, justamente porque pode estar ao serviço de qualquer um, atemoriza o conservador Schmitt329. Isto é, que uma potente tecnologia «caia» nas mãos de um qualquer sujeito ou povo, compromete a ideia de sentido e destino da História conduzida por um «povo escolhido».
Não obstante, Carl Schmitt reconhece como as invenções do século XV e XVI foram libertadoras, tal como a invenção da prensa levou à liberdade de imprensa. Mas este argumento é arrolado com algum cepticismo moral. Hoje, sobretudo com as técnicas transductivas que ligam as comunidades em rede, as inovações levam a um plano de dominação em grande escala e não se estranha que Carl Schmitt não reconheça que a decisão entre a liberdade e a servidão possa residir na técnica, ao contrário de Simondon. A técnica, na sua retumbante neutralidade, poderá sempre servir fins revolucionários como reaccionários e, por isso mesmo para Schmitt, é de duvidar:
327 A 15 de Abril de 2013, num atentado durante a maratona de Boston, explodiram duas bombas
artesanais em que se usaram panelas de pressão.
328 E é conhecida a analogia estabelecida entre a instituição militar e os animais ciclotímico, i.e., o
conflito é latente e hiberna durante a paz, acordando para a guerra (Virilio 1975, 21).
329 Nas palavras de Schmitt: «... it is because technology is magically linked to morality on the
somewhat naive assumption that the splendid array of contemporary technology will be used only as intended, i.e., sociologically, and that they themselves will control these frightful weapons and wield this monstrous power. But technology itself remains culturally blind. Consequently, no conclusions which usually can be drawn from the central domains of spiritual life can be derived from pure technology as nothing but technology—neither a concept of cultural progress, nor a type of clerk or spiritual leader, nor a specific political system.» (Schmitt 1929, 92).
«The inventions of the fifteenth and sixteenth centuries produced liberating, individualistic, and rebellious developments. The invention of the printing press led to freedom of the press. Today technical inventions are the means of the domination of the masses on a large scale. Radio belongs to a broadcasting monopoly; film, to the censor. The decision concerning freedom and slavery lies not in technology as such, which can be revolutionary or reactionary, can serve freedom or oppression, centralization or decentralization. Neither a political question nor a political answer can be derived from purely technical principles and perspectives.» (Schmitt 1929, 92)
Assim, o «irresistível poder da tecnologia», o seu grau de instrumentalização330, surge em Schmitt como «mecanismo engenhoso sem alma». A neutralidade a técnica, desencadeará a neutralidade intelectual e que, sub-repticiamente, porque se vai desvinculando da religião e teologia331, e sabemos como Carl Schmitt era extremo defensor do catolicismo, induz uma anulação contínua a qualquer acção do sujeito – e daí por diante até à final morte cultural.
Importa reter que o debate em torno da neutralidade da técnica terá de passar pela eliminação ideológica dos esquemas de poder e resistência que dela se alimentam:
«Estar à altura deste fenómeno passa pela suspensão da tendência que, historicamente, potenciou a técnica, ou seja, a vontade de poder, de domínio
330
Apenas enunciamos esta problematização em Heidegger, a partir da leitura de Bragança de Miranda: «A crítica da “instrumentalidade” como essência da técnica desenvolvida por Heidegger leva à
conclusão de que esta esteve sempre “misturada” com a figuração, as figuras humanas, é isso que faz da técnica algo de histórico, de localizado. Mas a própria noção de instrumento é uma dessas figuras e não um simples espelhismo metafísico. Não atentar nestes aspectos leva Heidegger a considerar que o processo se desenvolveu numa nudez tal, como a brutalidade, que destruiu todas as figuras históricas, de que dependiam o direito e a política e, mesmo, a estética, etc. A tese heideggeriana é tão excessiva que já só lhe resta apelar ao verso de Hölderlin que diz que “onde está o perigo está o que salva” com que Heidegger também termina o ensaio de 1953 sobre a técnica.» (Miranda 2002, 44)
331 «Along with technology, intellectual neutrality had become intellectually meaningless. Once
everything had been abstracted from religion and theology, then from metaphysics and the state, everything appeared to have been abstracted above all from culture, ending in the neutrality of cultural death.» (Schmitt 1929, 93, ênfase nossa)
da natureza e da experiência». (Miranda 2002, 45).
O diagnóstico simondoniano recobriu a distância epistemológica essencial a que as máquinas vão sendo mantidas, uma distância que se propõe encurtar. Não é o sujeito que se deve libertar da máquina, mas deverá libertar a máquina e apenas mediante um pensamento que garanta a sua integração poderá dar conta das guerras vividas no passado e de todas aquelas que estarão por vir. Se a guerra começou com a tomada da terra e do corpo do outro, entender as máquinas na lógica da escravatura apenas perpetuará tais relações de dominação.
Mesmo que não concordemos com Schmitt, certo é que o político fará uso dessa rede para fazer passar a sua mensagem. Mas ainda assim não esqueçamos que para o jurista, essa mensagem chega por meio de uma técnica que neutraliza e manipula essa comunidade ligada – uma comunidade que é um mero terminal. Daí que para Schmitt o século XX seja apenas provisoriamente o século da tecnologia, porquanto o seu verdadeiro efeito não fora ainda totalmente percebido332. Até ser definitivamente interpretado ou conhecido o fenómeno, massas de gente industrializada irá apegar-se à entorpecida «religião da tecnicidade» e, em nome de uma paz duradoura, continuarão a ser cometidos grandes crimes – a mais terrível opressão em nome da liberdade e a mais horrenda inumanidade em nome da humanidade (95), e pelo menos este argumento teremos reconhecer como válido, as guerras do século XX o demonstraram. Aliás, como dissera Walter Benjamin em Teorias do Fascismo Alemão (1930), os horrores da Primeira Guerra Mundial revelam o quão moralmente impreparada estava a humanidade para manobrar a técnica que a excedia em absoluto333:
332 Restitua-se a passagem completa, a qual retomaremos mais à frente: «The process of continuous
neutralization of various domains of cultural life has reached its end because technology is at hand. Technology is no longer neutral ground in the sense of the process of neutralization; every strong politics will make use of it. For this reason, the present century can only be understood provisionally as the century of technology. How ultimately it should be understood will be revealed only when it is known which type of politics is strong enough to master the new technology and which type of genuine friend-enemy groupings can develop on this new ground» (Schmitt 1929, 94-95). E porque só uma forte
política poderá manobrar uma nova técnica, percebe-se a potente relação entre a guerra e o cinema
que o século XX revelou, e que iremos abordar no próximo capítulo.
«Indeed, according to its economic nature, bourgeois society cannot help but insulate everything technological as much as possible from the so-called spiritual, and cannot help but resolutely exclude technology’s right of co- determination in the social order.» (Benjamin 1930, 120)
São muito conservadoras as de Carl Schmitt advertências. Carl Schmitt recusa a existência «espiritual» da técnica334.
O reconhecimento de que existe uma perturbação e de que essa perturbação é recuperável através do desenvolvimento de uma cultura técnica é justamente o que pretende Simondon. Perdeu-se uma espécie de vínculo a uma cultura técnica no momento em que surgiram as máquinas. Alcançar a realidade técnica é perceber que o objecto técnico não é um mero utensílio. O homem «aprendeu tão bem a ser um ente técnico», diz Simondon, e, por isso, receia que a máquina desempenhe o papel de homem.
Para voltar a ser o indivíduo técnico, ter-se-á de entender a máquina enquanto parceiro de acção335. Só quando o homem se tornar o centro de um complexo indivíduo técnico formado por humanos e máquinas integrados numa única rede planetária, só assim, ao trabalhar em total e harmoniosa articulação com os equipamentos, se poderá realmente agir sobre o mundo natural – melhor ainda, só assim se poderá agir com a natureza. É justamente um tal entendimento de técnica, enquanto possibilidade de transducção planetária, que Walter Benjamin procura em
controle da natureza e do corpo do outro: «Mas como a avidez de lucro da classe dominante pensava nela a sua vontade, a técnica traiu a humanidade e transformou o leito de núpcias num mar de sangue. O sentido de toda a técnica é, segundo o ensinamento dos imperialistas, o domínio da natureza. Mas quem confiaria num mestre que declarasse que o sentido de educação é o domínio de crianças pelos adultos? A educação não será, antes do mais, a indispensável ordenação das relações entre gerações e, portanto, se quisermos falar de dominação, a dominação das relações entre gerações e não a das crianças? Assim também, a técnica não é dominação da natureza: é a dominação da relação entre natureza e humanidade.» (Benjamin 1928, 107-108; ênfase nossa)
334 «For life struggles not with death, spirit not with spiritlessness; spirit struggles with spirit, life with
life, and out of the power of an integral understanding of this arises the order of human things.» (Schmitt 1929, 96)
335
Para que tal aconteça, os dispositivos técnicos não poderão, por isso, ser vistos como escravos nem como ameaça. Também Benjamin o parece assim entender: «Any future war will also be a slave revolt of technology». (Benjamin 1930, 20)
«para o Planetário». Dito de outro modo, Benjamin procura uma planetarização no conjunto de todos os humanos ligados entre si pela técnica:
«… só em comunidade o homem pode comungar em êxtase com o cosmos. É ameaçadora desorientação dos modernos considerar esta experiência como irrelevante e desprezável e relegá-la para a paixão de cada um em belas noites estreladas.» (Benjamin 1928, 107. Ênfase nossa)
Só na ligação transductiva que a técnica permite, poderão os seres humanos estar ligados na sua totalidade e, só nessa potente ligação comungar, por fim, extasicamente, e eroticamente336, com a natureza. A ambição humana e a lógica do senhor e do escravo que cada guerra reitera, só eleva o pior da humanidade. A forma como se usa a técnica na guerra devasta a possibilidade de edificar uma outra coisa, mais pura e essencial, que a mesma técnica permite. É precisamente a fórmula comunitária subjacente à «experiência cósmica» que a técnica potencia é que serviria para atingir uma paz «erótica». Se o ser vivo «só supera a vertigem do aniquilamento no êxtase da procriação»337, dever-se-ia perceber que se poderá renovar enquanto colectivamente como indivíduo técnico, quando encetar a possibilidade de criar uma physis capaz de encurtar todas distâncias intersubjectivas e intercósmicas, e encontrar, por fim, algo que conduza o mundo de volta ao natural reconciliando-o com a técnica que dele brotou. Essa seria a derradeira mobilização: uma total fusão planetária. Note- se que Sigmund Freud também apelou ao Eros como caminho para a paz mundial: «Se a propensão para a guerra é um produto da pulsão destruidora, há portanto lugar para se apelar ao adversário desta tendência, ao Eros» (Freud 1932, 57).
Há também um carácter planetário da experiência da técnica em Simondon. Desde logo porque percebe a técnica enquanto mediação ao mundo natural. Segundo
336 Pistas também reveladas em «Sob o signo de Saturno» de Susan Sontag: « Rua de Mão Única destila
as experiências do escritor e do amante (é dedicado a Asja Lacis, a qual “foi sua inspiradora”), experiências que podem ser percebidas nas palavras de introdução sobre a situação do escritor, que repetem o tema do moralismo revolucionário, e no final “Ao planetário”, um hino ao flerte tecnológico da natureza e ao êxtase sexual.» (Sontag 1978, 89)