Numa arrebatadora «inveja» do movimento natural do mundo, o Homem montou um «exército» de objectos por si talhados, perigosos mas suficientemente domesticados, prontos para consigo manobrar e tornear as curvas da Terra219 – disse
217 Um dos pontos chave da acidentologia viriliana assenta justamente na crítica ao positivismo da
ciência, definido como «euforia» que caracteriza os séculos XIX e XX que oculta a reversão filosófica e política daquilo a que o urbanista anuncia como acidente absoluto: «The positivist euphoria of the nineteenth and twentieth centuries, this “great movement of progress”, would surely have to be one of the most insidious features of the bourgeois illusion aimed at covering up the fearful progression, as much industrial as military, in the mode of scientific destruction. And more precisely still, aimed at concealing the philosophical and political reversal of this absolute accident now making all substance, whether natural or manufactured, contingent». (Virilio 2005c, 72)
218
Em Heidegger a técnica é um sistema e, por isso, não pode ser entendido como um meio. Portanto a noção de Heidegger – «the machine is completely unautonomous» (Stiegler 1994, 24) – é antitética à de Hegel, diz Stiegler, uma vez que Hegel percebe a máquina como um instrumento autónomo, uma definição semelhante à de Simondon. Tal como a máquina, o humano da era industrial é dependente do sistema técnico em que vive. Mais uma vez se percebem as diferenças entre Heidegger e Simondon.
219 Vejamos o excerto em maior detalhe: «Man envied the rhythm of torrents, like that of a horse's
gallop. Man mastered horse, elephant, and camel to display his divine authority through an increase in speed. He made friends with the most docile animals, captured the rebellious animals, and fed himself with the eatable animals. From space man stole electricity and then the liquid fuels, to make new allies for himself in the motors. Man shaped the metals he had conquered and made flexible with fire, to ally himself with his fuels and electricity. He thereby assembled an army of slaves, dangerous and hostile but sufficiently domesticated to carry him swiftly over the curves of the earth.» (Marinetti 1916, 57)
Marinetti, esperando com extremo entusiasmo ver o dia em que o Danúbio corra em linha recta a 300 quilómetros por hora (Marinetti 1916, 58). É sintomático que o futurista entenda técnica enquanto controlo do mundo natural. Um «exército de escravos», assim dos objectos disse Marinetti, indicando a arregimentação e controlo militar e a brutalidade da escravatura, uma postura que, quanto a nós, apenas perpetuará a guerra de todos contra todos.
Ora inversamente, em Simondon, o reconhecimento do modo de existência dos objectos técnicos passa pelo estabelecimento de uma filosofia que visa libertá-los do regime de escravatura a que estão vinculados, para assim descobrirmos como estes entes são os efectivos mediadores da nossa relação com o mundo natural:
«Recognition of the modes of existence of technical objects must be the result of philosophic consideration; what philosophy has to achieve in this respect is analogous to what the abolition of slavery achieved in affirming the worth of the individual human being.» (Simondon 1958, 11, ênfase nossa)
Simondon repara na ausência da máquina, ferramentas e outros dispositivos técnicos, do domínio do inteligível. Foi na herança da segregação entre tekhné e épistémé que se excluíram estas estruturas da história, quando em rigor a integram e informam, assim como construíram activamente as representações que temos da história. Para o mecanólogo francês, a cultura tem estado vinculada a duas erradas e contraditórias visões sobre o modo de existência dos objectos técnicos. Se por um lado surgem narrativamente como pura e simples composição de matéria, internamente sem sentido e apenas suprindo necessidades, por outro, estendem-se sob formas fantásticas, como robots que ameaçam o criador com insurreições de toda a ordem. Para Simondon, não existe tal coisa como um robot – seria o mesmo que dizer que uma «estátua vive» (1958, 12). Diz ainda Simondon, na sua célebre entrevista a Jean Le Moyne, que é preciso desmistificar o robot e tudo aquilo que lhe respeita – «C'est de la très mauvaise littérature qui fait tort à la technique» (Simondon 1968, 124). Possivelmente, para conter quaisquer insurreições robóticas, por mais fantásticas que sejam, o homem agrava a colocação da máquina ao seu serviço, enquanto escravo,
disse Simondon. Aliás, a dialéctica hegeliana «do senhor e do escravo»220 é mantida em toda a sua extensão, extravasando o humano e contagiando o novo trabalhador: a máquina. Assim, e tal como no enredo de um qualquer filme de ficção científica, parece existir uma guerra entre homens e objectos, que mais não é do que uma forte incompreensão da natureza dos seus processos maquínicos e das relações que estabelece:
«Mais ce qui va mal, ça n'est pas que l'objet technique soit mauvais et fasse
aller tout le reste de travers, c'est simplement que, entre l'homme et la chose, il y a un hiatus, une incompréhension, une espèce de guerre.» (Simondon 1968, 109)
No Frankenstein (1931) de James Whale221, ao Exterminador implacável (Terminator, 1984) de James Cameron, mas sobretudo nos replicantes do Blade Runner de Ridley Scott222, a insurreição dos objectos tem por fim a libertação da escravatura em que vivem agrilhoados. Ainda assim, para existir revolta é necessário o mestre. E não estamos em condições de afirmar que esse mestre possa ser o homem, por mais inventiva que a sua acção possa ser223. A técnica parece ser mais um meio de
220 Na Fenomenologia do Espírito (1807), Friedrich Hegel elabora a «dialéctica do Senhor e do Escravo»
como metáfora ao Homem e ao reconhecimento da sua consciência de si. Como esclarece Alexandre Kojève: «In other words, in his nascent state, men is never simply man. He is always, necessarily, and essentially, either Master or Slave. If the human reality can come into being only as a social reality, society is human – at least in its origin – only on the basis of its implying an element of Mastery and an element of Slavery, of, “autonomous” existences and “dependent” existences. And that is why to speak of the origin of Self-Consciousness is necessarily to speak of “the autonomy and dependence of Self- Consciousness, of Mastery and Slavery”». (Kojève 1947, 8-9)
221 Baseado no romance Frankenstein: or the Modern Prometheus (1818) de Mary Shelley. 222 Baseado em Do androids dream of electric Sheep? (1968) de Philip K. Dick.
223 Identifica-o Bragança de Miranda ao invocar a parábola recolhida pelos irmãos Grimm do aprendiz e
do feiticeiro. Isto porque cabia ao mestre a palavra mágica, de restituir tudo à ordem e de travar o poder aparentemente aleatório dos equipamentos que o aprendiz havia desencadeado. Estão lançadas «… duas questões essenciais: a do mestre e a da palavra propriamente dita. É possível haver um mestre para dominar a técnica? Eis um conjunto de questões essenciais. Existe ainda um mestre que a domine? Será a humanidade, o terceiro mundo, a racionalidade? Quem é o mestre? Quem está ao controlo? Segunda questão, sobre a palavra. Quando o mestre diz a palavra – ele é fundamentalmente o mestre da palavra – fá-lo para dominar a técnica. Qual a relação entre a palavra e domínio? Qual a relação entre palavra e técnica? E o que sucede quando a palavra fica submergida pela “imagem” e se torna simples registo entre outros registos?» (Miranda 2002, 38, 39). O professor verifica justamente
individuação do ser humano do que um produto da sua maestria. Mas já lá iremos. Com o seu repto, Simondon procura abolir a lógica da escravatura que nos impede de perceber a nossa real ligação aos equipamentos. Mas quem poderá atingir tal entendimento da realidade técnica e introduzi-la na cultura? Dificilmente um operador de máquinas, uma vez que o hábito ou rotina não promove o seu conhecimento, apenas estimula atitudes abstractas em relação aos aparelhos. O conhecimento científico, que vê o objecto técnico enquanto aplicação de uma lei geral, também não será o caminho que Simondon propõe. Apenas um sociólogo, diz Simondon, um psicólogo ou um antropólogo da máquina, daria conta de todos os vínculos que sustém e promove, atingindo por fim um real conhecimento que encete a percursora inclusão dos objectos técnicos na cultura (Simondon 1958, 14). Encontramo-nos, portanto, ao nível de uma profunda reforma cultural224 que restaura entendimento da natureza das máquinas nas suas múltiplas ligações225. Admiravelmente, Simondon propõe-se elevar culturalmente os seus contemporâneos226 de forma a refundar a acepção de ferramenta ou máquina ao meu dispor, requalificando o seu lugar enquanto parceiro de acção. É assim que repara
que a técnica começa a escapar às determinações antropológicas e que já não é uma simples construção
humana.
224 Parece-nos uma boa proposta e que entronca numa real linha de fractura da Teoria da Cultura. Na
medida em que visa uma experiência técnica, e a sua prioridade sobre outras ligações, acreditamos caber na proposta de José Bragança de Miranda:«A Teoria da Cultura tem, assim, uma dupla ambição: propor uma analítica geral da cultura e, simultaneamente, exercitar o olhar para a peculiaridade de certos fenómenos. Não se trata de adicionar ambas as vias, pois o caminho deve ir aos pormenores para a composição e vice-versa. Só um bom problema pode servir de linha condutora para a crítica da cultura. Seria inútil falar dela em geral, como se fosse um fenómeno antropológico. Como se o homem produzisse tão naturalmente a cultura como a abelha o mel. Os problemas não são aglomerados teóricos, mas verdadeiras linhas de fractura que atravessam a cultura, e cuja sismografia tem de ser feita.» (Miranda 2002, 25).
225
Diz Simondon que esta integração, inviável ao nível dos elementos e dos indivíduos, é agora possível ao nível dos conjuntos técnicos. Já iremos compreender esta categorização em elementos, indivíduos e
conjuntos.
226 Veja-se o excerto: «Je voudrais aller surtout vers quelque chose de culturel.
… je voudrais surtout éveiller culturellement mes contemporains en ce qui concerne la civilisation technique ou, plutôt, les différents feuillets historiques et les différentes étapes d'une civilisation technique, car j'entends des grossièretés qui me découragent. Particulièrement, l'objet technique est rendu responsable de tout, d'une civilisation sur-technicienne, où il n'y a « pas assez d'âme » ; ou bien la civilisation de
consommation est rendue responsable des désastres de nos jours et du désagrément de vivre. Elle n'est pas tellement technicienne, notre civilisation, mais quand elle l'est, elle l'est quelquefois très mal. (Simondon 1968, 108)
como a cultura vive numa espécie de atraso em relação à realidade técnica227.
No fundo, uma espécie de «histeria colectiva» liga todos os consumidores num encadeamento único, e mais não é do que um atraso cultural que funciona enquanto efectiva pressão sobre os criadores de máquinas, forçando-os a constantes alterações estéticas ou acessórias, retirando tempo de maturação ao invento na sua progressão em futuras individuações (Simondon 1968, 109). Longe de ser um supervisor de escravos, o ser humano deve entender-se enquanto permanente organizador de uma comunidade que é também composta por objectos técnicos. Assim como um maestro dirige músicos, o homem deverá procurar o seu lugar «enquanto contínuo inventor e coordenador de máquinas à sua volta» (Simondon 1958, 13). Portanto, organiza as máquinas nas suas múltiplas ligações e, tal como numa orquestra, conduz o tempo da performance. É premente compreender o objecto técnico e, por isso, Simondon defende uma epistemologia da técnica (Simondon 1968, 110), a qual estuda directamente os objectos e as ligações que possibilitam. É isso que procuramos. Procurar nos objectos técnicos a questão da guerra.
Para a mecanologia de Gilbert Simondon, a técnica moderna caracteriza-se pelo surgimento de indivíduos técnicos sob a forma de máquinas, cedo seguidas pelas redes que as integram. Até então o homem era portador de ferramentas, o que bastava para ser um indivíduo técnico. Hoje, porém, as máquinas portam ferramentas e o humano ora é um assistente da máquina, fornecendo-lhe as peças ou a manutenção que necessita, ora é o seu inventor228, um papel mais difícil de alcançar. Eis o âmago do dilema da cultura técnica: o homem não é o «portador de ferramentas». E essa crise
227 Veja-se a passagem: «Il faudrait faire une histoire du développement des objets techniques, qui
serait une histoire par étapes, et voir qu'il y a une espèce de retard de la culture sur la réalité.» (Simondon 1968, 108-109)
228 Na tradução consultada, Simondon diz que o homem compõe conjuntos de máquinas mas não
«porta ferramentas. Veja-se em maior detalhe: «He arranges the grouping of machines, but he does not bear tools. The machine does the main work, the work of both blacksmith and helper. Man separated from his role as technical individual, from what is the essential work of the artisan, can become either the organiser of the ensemble of technical individuals or a helper for technical individuals. He greases, cleans, picks up burrs and debris and, so, in many respects, plays the part of helper. He supplies the machine with elements, changing the driving belt, sharpening the drill or lathe. Thus he has one role beneath technical individuality and another above it. Servant and master, he guides the machine as technical individual by attending to the relationship of the machine to its elements and to the ensemble. He is the organiser of relationships between technical stages instead of being, as artisan, one of those technical stages himself. For this reason a technician is less part of his own professional speciality than an artisan.» (Simondon 1958, 67-68)
irrompera da modernidade:
«A técnica é sinal de uma crise que culmina na “modernidade”. Não se trata nem de “pequenas crises”, como o pretendem os racionalistas, nem de um “descalabro”; é a própria figura da crise, fundamentalmente da crise da relação entre palavra e técnica.» (Miranda 2002, 39)
Será portanto necessária uma reconciliação ontológica por que é aqui que o problema da alienação atinge a mecanologia: não enquanto dilema da não detenção dos meios de produção marxista, mas pelo facto do operário não participar na activa construção, invenção e reconfiguração das máquinas, sendo apenas um controlador. Numa cultura verdadeiramente técnica, a invenção e a operação têm de ser combinadas, acções que as formas contemporâneas da técnica entretanto tendem a aproximar. O problema é que desde o século XX, e as operações militares enfatizam-no (Guha 2011): os humanos ainda não dominam a totalidade da potência e possibilidade das novas tecnologias.