A escolha do fornecedor e o procedimento utilizado para determinação do valor alvo das amostras de controlo, são fatores muitos importantes para a qualidade do programa de AEQ. Cada entidade de AEQ deve escolher o seu fornecedor de amostras de controlo, tendo em conta dois fatores considerados cada vez mais importantes para a qualidade do serviço de AEQ: a incerteza de medição e a rastreabilidade do valor alvo.
A incerteza de medição é um parâmetro não negativo que caracteriza a dispersão dos valores de grandeza que são atribuídos (ISO/IEC Guide 99, 2007). A incerteza de medição inclui componentes provenientes de efeitos sistemáticos, tais como componentes associados a correções e valores atribuídos a padrões. Por vezes, os efeitos sistemáticos conhecidos não são corrigidos mas incorporados como componentes de incerteza.
A rastreabilidade metrológica é propriedade de um resultado de medição através da qual, o resultado pode ser relacionado a um procedimento de medição por intermédio de uma cadeia ininterrupta e documentada de calibrações, cada uma contribuindo para a incerteza de medição. A rastreabilidade metrológica exige o estabelecimento de uma hierarquia de calibração e não assegura por si só que a incerteza de medição seja adequada para um determinado fim, nem a ausência de erros humanos ( ISO 17511, 2003).
Cada nível da hierarquia de calibração deve ser um procedimento de medição tal como indicado na Figura 2.7. Cada procedimento de medição determinado e com um valor alvo definido serve para calibrar o procedimento de medição do nível inferior (aumento da cadeia de
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rastreabilidade e da incerteza de medição). O valor alvo atribuído a um procedimento de medição de qualquer nível da cadeia de rastreabilidade tem associado uma incerteza de medição herdada a partir dos procedimentos de medição de todos os níveis superiores na hierarquia de calibração ( ISO 17511, 2003).
Figura 2.7- Hierarquia da calibração e rastreabilidade metrológica (adaptado de ISO 17511 , 2003)
Características das amostras de controlo
As amostras de controlo de um programa de AEQ devem cumprir com determinados critérios, nomeadamente:
o Matriz: sempre que possível, a matriz da amostra de controlo deve apresentar semelhanças à analisada na rotina do laboratório.
o Concentrações: as amostras de controlo devem apresentar variadas concentrações, com níveis de concentração conforme a relevância e realidade da rotina laboratorial. É importante manter a imprevisibilidade dos resultados para garantir o cumprimento do propósito da AEQ. Para isso, deve-se ter o cuidado de variar as concentrações e características exploradas a cada distribuição do programa e entre ensaios (Sá, Albuquerque, & Bottino, 2011).
o Homogeneidade e estabilidade: as amostras de controlo devem apresentar características de homogeneidade e estabilidade durante o procedimento de medição dos parâmetros (ISO 13528, 2005). Materiais com estabilidades muito reduzidas podem exigir logística de distribuição especial e prazos de execução menores (Sá, et al., 2011).
Determinação do valor alvo
Para a avaliação do desempenho de cada laboratório participante, o programa de AEQ deve estabelecer o valor alvo de cada amostra de controlo. Existem vários procedimentos disponíveis para estabelecer o valor alvo da amostra de controlo. Apesar das divergências
Calibrador primário Procedimento de medição de referência secundário Procedimento de medição de referência primário Procedimento de medição dos fabricantes Calibrador de padrão trabalho Calibrador de padrão industrial Procedimento de medição no laboratório Material de controlo Resultado R as tr ea bi lid ad e In ce rte za d a m ed iç ão Institutos metrológicos Laboratórios Definição da unidade de SI Material Procedimento Fabricantes
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entre autores sobre qual o modelo ideal para a sua determinação, é da responsabilidade do programa de AEQ a escolha do melhor método.
Alguns procedimentos envolvem:
o Adição de uma quantidade ou concentração conhecida dos parâmetros a uma matriz que não o contenha
Quando se trata da adição exclusiva do próprio parâmetro, com quantidades determinadas pela formulação específica dos parâmetros em análise, este método pode ser satisfatório (ISO/IEC 17043, 2010).
Este método tem associado um diminuto grau de incerteza devido ao elevado controlo sobre a quantidade introduzida dos parâmetros em análise. No entanto, este tipo de amostra de controlo não simula a dificuldade dos procedimentos normais para preparação de amostras, onde podem surgir dificuldades na recuperação dos parâmetros.
o Utilização de valores de referência certificados
A medição de valores de referência certificada é considerada a ferramenta de ordem superior, baseada no estabelecimento de um sistema de rastreabilidade e que normalmente estabelece a concentração “mais” real dos parâmetros em análise, através da utilização do melhor equipamento e método existente. Na maioria dos casos, os procedimentos atuais de medição de referência são baseados em espectrometria de massa (Myers, 2008).
Esta é considerada a melhor forma de determinação do valor alvo, no entanto apresenta elevados esforços e custos para ser utilizada em laboratórios de rotina. Este método é mais aplicável a ensaios internacionais com participantes de muitos países (Sá, et al., 2011).
o Utilização de valores de referência
Um instrumento é rastreável se for possível determinar toda a sua cadeia de rastreabilidade. A cadeia de rastreabilidade assegura que o resultado de uma medição se relaciona com as referências de nível mais elevado (ISO/IEC Guide 99, 2007).
Neste caso, o valor de referência é determinado através da comparação por outro instrumento de medição rastreável, através de padrões nacionais ou internacionais. Os institutos de padrões internacionais e nacionais encontram-se no topo da hierarquia metrológica. Assim sendo, a utilização de valores de referência origina um grau de incerteza maior que o existente nos valores obtidos por padrões nacionais ou internacionais.
Esta é considerada a melhor forma de determinação do valor alvo, no entanto apresenta elevados esforços e custos, para além da dificuldade em identificar um grupo de laboratórios de referência, cuja experiência esteja acima de qualquer suspeita. Este método é mais aplicável a ensaios internacionais com participantes de muitos países.
o Utilização de um valor de consenso, produzido por laboratórios peritos
Os laboratórios peritos, que em algumas situações podem ser laboratórios de referência, efetuam a determinação do valor alvo da amostra de controlo através da utilização de equipamentos ou métodos específicos, reconhecidos por serem altamente precisos e comparáveis aos métodos usualmente utilizados em laboratório clínico (ISO/IEC 17043, 2010). O grupo de laboratórios efetua a medição dos parâmetros em análise e o valor alvo é definido de acordo com uma medida de localização e dispersão (por exemplo média ou mediana e desvio padrão). Esta é a estimativa mais usual nos programas de AEQ devido à sua facilidade de obtenção e viabilidade económica (Sá, et al., 2011).
Uldall (1996) refere que a consistência dos valores alvo através deste método pode ser considerada válida, devido a estudos em que foram comparados valores alvo, obtidos em diferentes países, com as mesmas amostras de controlo, utilizando resultados de laboratórios
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com boa reputação e posteriormente foram comparados com valores alvo obtidos por métodos de referência.
No entanto Myers (2008), critica o nível de incerteza associado e a inexistência de rastreabilidade nos valores obtidos através deste método. Uldal, (1996) refere ainda que podem existir dificuldades em encontrar um valor consenso entre os laboratórios participantes ou o consenso pode ser tendencioso, preservando maus procedimentos de medição nos laboratórios.