• No results found

MAKT OG FERDIGHETSFORVALTNING

Graças ao feminismo, o novo conceito de gênero permitiu o rompimento do determinismo biológico, em que a anatomia dos corpos seria responsável pela divisão hierárquica entre homens e mulheres, e atribuiu esta diferença ao sentido dado a eles por uma sociedade. No entanto, os moldes sob os quais foram construídos "homens" e "mulheres" foram determinados de acordo com uma visão androcêntrica do mundo, acarretando assim mecanismos de dominação e exclusão entre os sexos. Gênero passa a ser a manifestação de uma distribuição desigual de responsabilidades e comportamentos na produção social da existência. Essas "determinações" da sociedade que independem da vontade das pessoas vão se constituindo por meio das relações com os outros, com o mundo. Cada um possui um lugar, e, a partir deste lugar socialmente construído, é que cada ser humano terá acesso à sua própria sobrevivência enquanto sexo, raça, classe. (SAFFIOTI, 2004).

De acordo com a teoria de De Lauretis (1989, p.11), a construção do gênero é tanto sociocultural quanto um aparato semiótico, um sistema de representações que atribui significado (identidade, valor, prestígio, posição de parentesco, status dentro da hierarquia social, etc.) aos indivíduos dentro da sociedade. Assim, se as representações de gênero correspondem a posições sociais que carregam consigo significados diferentes, então, o fato de alguém ser representado ou se representar como masculino ou feminino subentende a totalidade daqueles atributos sociais. Esses efeitos produzidos nos corpos e relações sociais seriam o produto de tecnologias políticas chamadas de "tecnologias de gênero". As “tecnologias de gênero” seriam os dispositivos institucionais e sociais que “[...] teriam o poder de controlar o campo de significação social e assim produzir, promover e implantar as representações de gênero.” (DE LAURETIS, 1989, p 25). Essas "tecnologias" invadem nossas vidas por meio da televisão, rádio, internet, cinema, jornais, epistemologias e práticas institucionalizadas, bem como práticas da vida cotidiana. (PEREIRA, 2009).

Essas "identidades" marcadas pela definição de papéis masculinos e femininos acabam por se naturalizar na repetição de nossos discursos e se legitimam na construção do conhecimento pautado por esse viés. (SWAIN, 2002). Assim, as teorias que nos são

apresentadas, representam nada mais do que a arquitetura de uma realidade feita de representações e auto-representações, em que de um lado se encontra o masculino, sujeito universal, detentor de uma genitália que lhe permite espaço para o poder e a autoridade, enquanto que, do lado oposto, está "o outro", assujeitado, um corpo com um destino certo: a reprodução. A partir dessa diferença, ser menino ou menina é uma referência inicial do mundo que se concretiza na relação com os outros, com o mundo. As relações sociais vão sendo apropriadas e a supremacia masculina se torna um consenso generalizado. (CARLOTO, 2002).

A divisão sexual do trabalho é uma das formas de manifestação dessa relação hierárquica entre homens e mulheres, e o ambiente organizacional está permeado pelas ideologias e representações sociais de gênero. Assim, o/as trabalhadore/as que atuam em diferentes instituições de diferentes áreas/segmentos refletem ideias/comportamentos baseados nas concepções de gênero até então internalizadas. O fato das mulheres estarem cada vez mais presentes no mundo do trabalho não é um indicador de que houve realmente uma mudança na sua condição social. As mulheres continuam subrepresentadas nas posições onde a tomada de decisões é fundamental, e mesmo quando atingem cargos de liderança, na maioria das vezes, em virtude dos estereótipos, as mulheres são tidas como indispensáveis pela sua complementariedade aos homens, assim, esperam-se atitudes diferenciadas em função do sexo. (NOGUEIRA, 2006).

Um exemplo considerado recente da influência das tecnologias de gênero impressa nas organizações diz respeito à valorização das emoções. A entrada das mulheres no mundo do trabalho representa uma tecnologia de gênero/poder à medida que reforça positivamente a constiuição da subjetividade das mulheres como "dóceis, emocionais e afetuosas". Com o início do ciclo de acumulação flexível do capital, após a década de 1970, a educação das mulheres ganhou novas exigências, sem deixar de contemplar as velhas. Mulheres agora atuam em jornadas duplas e até triplas, acumulando as tarefas de produção e reprodução. A partir daí, surgem diversas teorias, campanhas publicitárias, best sellers, etc, que apontam para a valorização da dimensão emocional. Não se trata simplesmente de uma despreterida mudança cultural, mas de um sistema capaz de inovar suas próprias estruturas e produzir mudanças simbólicas e novas formas de dominação. A força de trabalho das mulheres, em especial suas emoções, é transformada em mercadoria, sua afetividade é utilizada como um atributo da qualificação para o exercício de certas funções, enquanto que, as relações no trabalho continuam se dando de forma subordinada. A opressão de gênero toma uma nova

roupagem e, por meio da instrumentalização das emoções, o capital consegue utilizar essa força de trabalho como parte do processo de extração da mais-valia. (SOUZA, 2007).

É importante compreender que, frequentemente, as mulheres que alcançam posições de comando nas organizações são vistas de duas maneiras diferentes. A primeira, como super- mulheres ou então, mulheres-homens. Em ambos os casos, pela carência ou pelo excesso, o feminino é sobrevalorizado. No primeiro caso, as mulheres seriam dotadas de uma obstinação pouco comum ao conseguirem a proeza de conciliar perfeitamente os afazeres domésticos e a família, com os papéis ditos masculinos, nesse caso o trabalho e o poder. Ou ainda, enquanto mulheres-homens são apresentadas como mulheres que abandonam seu papel tradicional e assumem somente o papel masculino. Segundo Nogueira (2006, p. 63) "[...] esse tipo de discurso representa os efeitos de uma ideologia dominante sobre a construção da subjetividade feminina". Portanto, para compreender a vivência dessas mulheres no ambiente de trabalho e conhecer suas estratégias de sobrevivência a este meio, é fundamental saber como, a ideologia dominante e o senso comum, refletem nessas formas de resistência. Para esta análise, abordarei um pouco dos estudos da psicodinâmica do trabalho.

A psicodinâmica do trabalho surgiu com os estudos de Christophe Dejours em 1980, na França, onde o foco era a psicopatologia do trabalho, a preocupação com doenças mentais relacionadas ao trabalho. Segundo Dejours (1992), por organização do trabalho se entende não somente a divisão das tarefas e responsabilidades inerentes ao cargo, mas também, as relações estabelecidas, o sistema hierárquico e as relações de poder imbricadas. Ainda na década de 80, houve a ampliação de seu campo de estudos ao perceber que a maioria dos/as trabalhadores/as não adoecia, o trabalho foi identificado também como gerador de prazer e afirmação do indivíduo na sociedade. Assim, passou-se a estudar as relações de prazer e sofrimento no trabalho. Atualmente, a psicodinâmica do trabalho reconhece a importância central do trabalho na realização pessoal e na inserção social dos indivíduos e os estudos têm evoluído para a análise das estratégias de defesa utilizadas pelos trabalhadores para enfrentar as situações de sofrimento nesse contexto. (MENDES, 2007). Assim, as relações de gênero que determinam a divisão de tarefas e responsabilidades de acordo com o sexo e propagam as ideologias de um sistema hierarquico assimétrico também são fontes geradoras de sofrimento no trabalho.

A noção de sofrimento, segundo Dejours, corresponde ao estado de luta do sujeito contra as forças que o movem em direção à doença mental. Segundo o autor, essas forças são encontradas na organização do trabalho, e o sofrimento patogênico emerge quando elas entram em conflito com o funcionamento psíquico dos indivíduos, quando não são possíveis

adaptações entre a organização do trabalho e o sujeito. A manifestação do sofrimento aparece mediante vivências de ansiedade, medo e desconfiança dos colegas, vivências de não reconhecimento, injustiças e outras. Assim, sob essa perspectiva, os/as trabalhadores/as para conviverem com estas situações, lançam mão da utilização de estratégias defensivas, cuja função é de encobrir o sofrimento e ajudá-los/as a suportar ou minimizar o sofrimento. Essas estratégias compreendem o conjunto de regras de conduta e fazem parte de um acordo subentendido entre os/as trabalhadores/as, manifestando-se de acordo com cada indivíduo. Mendes (2007) explica que as defesas podem ser protetoras, quando o adoecimento é evitado se utilizando de alienação das causas do sofrimento, ou ainda, adaptativas ou de exploração, que refletem na negação do sofrimento e na submissão ao desejo de produção. As estratégias de negação costumam ser operadas pelo coletivo e utilizadas para naturalizar vivências de sofrimento que aparecem nas atitudes de isolamento e desconfiança. (DEJOURS, 1992, 2000, 2004; MENDES, 2007).

Um estudo realizado por Nogueira (2006) sobre os discursos de mulheres em posições de poder mostra que um dos pontos frequentemente expresso pelas mulheres, nesta posição, é o da negação. É comum elas se colocarem em posições isoladas, como se jamais tivessem sido atingidas pela discriminação que as rodeia. Elas, muitas vezes, sabem que precisam batalhar muito mais do que o homem para conquistar este espaço, mas preferem adotar uma postura de indiferença face à discriminação. Associado à questão da negação, também apareceu o discurso individualista das competências, em que as líderes assumiram características de personalidade que lhes possibilitaram superar possíveis obstáculos. Estas características, frequentemente, estão relacionadas aos estereótipos femininos, em que a ternura e a emocionalidade foram fundamentais para ultrapassar quaisquer barreiras. Vale ressaltar que, embora estas mulheres busquem nessas defesas uma forma de sobreviver à realidade de opressão, suas estratégias consistem em desviar de algumas barreiras, porém, elas permanecem presas aos discursos normativos e pedagógicos que encerram e determinam corpos sexuados.

Essas estratégias, embora possuam papel fundamental para a saúde dos/as trabalhadores/as, podem levar à alienação, que consiste na transformação das defesas em ideologias defensivas. A ideologia defensiva é elaborada coletivamente com o intuito de camuflar o sofrimento, ansiedades mais intensas próprias de cada grupo profissional. Ela trabalha de maneira paradoxal, pois ao mesmo tempo em que funciona como meio de proteção, também atua como um obstáculo que gera incapacidade no/a trabalhador/a para reagir e produzir mudanças na organização do trabalho, o sofrimento é ignorado, encoberto

pelas vitrines do progresso. As ideologias acabam por produzir a alienação dos indivíduos e, portanto, estão a serviço da ideologia dominante, que mantém indivíduos em franca produção e, ao mesmo tempo, alheios às causas do seu sofrimento. Ideologias de excelência e desempenho fazem com que os indivíduos busquem suprir uma necessidade incessante de reconhecimento, necessidade esta em função da constante sensação de desamparo experimentada pelos/as trabalhadores/as. (DEJOURS, 2004; MENDES, 2007; FERREIRA, 2007).

De acordo com Dejours, como consequência dessa alienação, é estabelecida uma passividade coletiva ligada à falta de alternativas, uma espécie de resignação silenciosa e servidão consentida. (DEJOURS, 2000). Segundo Ferreira (2007), o conceito de servidão voluntária de La Boëtie, na sua versão pós-moderna, está relacionado às necessidades de emprego e conforto e está em consonância com a organização do trabalho, baseada em interesses de crescimento na empresa, de desempenho, e não de solidariedade, confiança e coletivo de trabalho. As pessoas, para não serem dissonantes do conjunto, escondem seu sofrimento e convivem com o conformismo. As relações de solidariedade desaparecem, o trabalho perde o sentido e o sofrimento torna-se mais intenso. (FERREIRA, 2007).

No que tange às questões de gênero, a falta de alternativas, passividade e servidão consentida, expressas no ambiente de trabalho, ganham forças; ao passo em que, as mulheres não assumem uma identificação política, na qual a participação política seja um valor em si mesmo. Adotar o caminho essencialista, ganhar novas posições de poder, não garantem uma transformação social, não garantem que sejam desestabilizados e descontruídos todos os códigos impressos até aqui. Assim, as mulheres escondem o sofrimento da diferença em cima da ideologia de alcançar mais postos de trabalho, mais cargos de gestão e esquecem a que custo isto tem acontecido. (NOGUEIRA, 2006; SWAIN, 2007; TIMM, 2008).