I. Main Report
I.4 Phase I – Survival in lifeboat and life raft
I.4.5 Main findings from Phase I
Para essa dimensão, a quarta proposição do estudo é de que a relação da ANVISA com a subsidiária deveria ser mais difícil e conflitante que aquela com o laboratório nacional, tendo em vista o Brasil ter sido classificado como um país corporativista, conforme modelo de Murtha e Lenway (1994) e moderadamente aberto, conforme Stopford e Strange (1991).
Todos os respondentes afirmaram que as empresas que eles representam possuem boas relações com a ANVISA. Particularmente no caso da subsidiária, o bom relacionamento resultou de um esforço realizado no sentido de se adaptar ao novo ambiente regulatório, o que envolveu a mudança de profissionais tanto na área técnica quanto na área de assuntos regulatórios. Como exemplo, cita-se a contratação de uma pessoa, ex-funcionária da ANVISA, que foi definida como único ponto de contato com o órgão regulador27.
Os representantes expatriados da subsidiária possuem uma impressão de que os laboratórios nacionais teriam um acesso mais fácil à ANVISA e que o Brasil seria um país protecionista. Há um entendimento entre esses respondentes de que existe uma preferência pelos fabricantes nacionais que teriam maior facilidade na obtenção de registros28.
No entanto, o respondente da ANVISA foi categórico ao afirmar que não existe nenhum tipo de
26 Fontes: entrevistas com Flávio, diretor financeiro da subsidiária, em 14/02/07 e Christiano, gerente de Novos
Negócios do laboratório nacional, em 09/02/07.
27 Fonte: Entrevista com Roberto, diretor de Marketing e Vendas da subsidiária, em 14/02/07.
28 Fonte: Entrevista com João, diretor de genéricos, em 06/02/07 e Flávio, diretor financeiro, em 14/02/07, ambos
preferência. A maior eficiência dos laboratórios nacionais na obtenção de respostas aos pleitos junto à ANVISA dever-se-ia ao fato de os mesmos possuírem um volume maior de processos junto ao órgão regulador29.
A tabela a seguir mostra que realmente os laboratórios nacionais são os maiores “clientes” do órgão:
Tabela 6: Tabela de processos e petições deferidas pela ANVISA em 2006
Fonte: Compilação de dados da autora, com base em seminário realizado pela ANVISA em dezembro de 2006 em Brasília
O quadro acima mostra que, de um total de 6183 processos e petições, cerca de 80% foram protocolizados por laboratórios nacionais.
Esse maior contato com a ANVISA ajudaria no estabelecimento de um canal de comunicação mais ágil e, principalmente, na elaboração correta de dossiês30 para o registro de medicamentos. Cabe destacar a importância do correto preenchimento do dossiê, uma vez que a inclusão de uma informação no lugar errado pode causar um atraso no processo de até um mês, pois pode gerar exigências desnecessárias por parte da ANVISA junto ao laboratório31.
29 Fonte: Entrevista com Silas, gerente geral de medicamentos da ANVISA, em 07/02/07 e Christiano em 09/02/07. 30 Ver glossário.
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A importância desse relacionamento com a ANVISA e a capacidade de obter respostas rápidas desse órgão advêm do fato de que um portfólio amplo de medicamentos, englobando diversas classes terapêuticas, é fundamental para o sucesso no mercado nacional de medicamentos genéricos. Esse portfólio é um importante instrumento de negociação com os distribuidores, conforme afirma o representante do laboratório nacional, Christiano, gerente de Novos Negócios, ao ser questionado a respeito da diferença entre o mercado de medicamentos éticos e de genéricos:
Obviamente, nesse mercado, há a necessidade de se ter a maior cesta de produtos possível para distribuidor e para a farmácia.
Aqui, o entrevistado está referindo-se ao portfólio de medicamentos que, quanto mais amplo, maior a possibilidade de sucesso nesse mercado. Neste caso, pode-se relacionar o fator à relação governo-empresa, uma vez que a obtenção de um portfólio amplo depende não somente da agilidade e da eficiência regulatória do laboratório, mas, principalmente, do relacionamento que esse laboratório possui com a ANVISA.
Além disso, deve-se levar em consideração o fato de o laboratório nacional ter dado credibilidade ao governo quando foi publicada a Lei 9787/99, enxergando aquele novo mercado como uma oportunidade de crescimento32. Dessa forma, foram utilizadas todas as facilidades oferecidas pelo governo aos primeiros entrantes, que permitiram o estabelecimento de um portfólio variado. Além disso, esse portfólio vem sendo mantido e ampliado através de ações estratégicas do laboratório nacional33.
Por outro lado, a subsidiária não soube aproveitar a grande vantagem competitiva que possuía por fazer parte de um grupo do qual participava um dos maiores laboratórios de genéricos do mundo. A principal razão foi a lentidão no processo de tomada de decisão a respeito do negócio. Assim, a subsidiária perdeu a oportunidade de efetivar o primeiro passo na direção da liderança desse
32 Fonte: Entrevistas com Silas em 07/02/07 e Katherine em 16/02/07. 33
mercado, que seria a obtenção de um portfólio amplo de medicamentos, utilizando facilidades como o fast track.
Essa constatação está expressa na seguinte frase:
O erro foi no começo, não começamos com a velocidade e agressividade necessárias que os nacionais tiveram naquele momento por razões de temor por um novo negócio (...) . Quando o negócio começou, conseguimos registrar somente um produto no fast track. Era para termos aproveitado esse momento e registrar muitos produtos (Fonte: entrevista com João, diretor de genéricos da subsidiária, em 06/02/07).
Com efeito, em maio de 2007, a subsidiária possuía quarenta e cinco registros de medicamentos genéricos, enquanto que o laboratório nacional, cento e cinqüenta, ou seja, cerca de três vezes mais registros.
Na opinião da pesquisadora, não existem evidências que comprovem nenhum tipo de favorecimento aos laboratórios nacionais em detrimento dos estrangeiros. A única indicação nesse sentido partiu de duas entrevistas onde os respondentes são expatriados, o que pode indicar certo preconceito com relação ao laboratório nacional ou desconhecimento da forma como as empresas brasileiras relacionam-se com os órgãos governamentais.
A não confirmação do referencial teórico adotado frente aos dados empíricos obtidos nesse estudo suscita questionamentos quanto a um possível viés existente no modelo de Murtha e Lenway (1994), autores norte-americanos com uma visão pluralista e de economia de mercado, adequada aos modelos existentes nos Estados Unidos.
Outro aspecto a ser ressaltado é o fato de se tratar de uma ETN de origem alemã, país corporativista de acordo com os mesmos autores, ou seja, com as mesmas premissas de relacionamento entre empresas e governo que o Brasil. Por esse motivo, seria esperado que os dirigentes da subsidiária brasileira não tivessem dificuldades em lidar com o contexto brasileiro, o que não parece ser o caso dos expatriados da subsidiária em análise nesse estudo.
Por outro lado, as evidências obtidas nas entrevistas34, bem como nas diferenças entre os números de registros junto à ANVISA, conforme informado acima, indicam que os laboratórios nacionais foram capazes de desenvolver competências e conhecimento que permitiram o estabelecimento de canais de comunicação junto à ANVISA e são capazes de produzir dossiês de alta qualidade.
Dessa forma, no aspecto do relacionamento com o governo, a quarta proposição não foi confirmada, uma vez que não existem evidências que apontam para um tratamento diferenciado para os laboratórios nacionais. Também não se pode afirmar que o relacionamento com a ANVISA depende diretamente do número de processos protocolizados no órgão regulador.