• No results found

KAPITTEL 4 ØKONOMISK TEORI

4.1 M ONOPOL

Num debate entre L. Stone, E.Hobsbawm e P.Abrams, publicado pela revista Past and

Present (1979-80), Stone anunciava o fim de uma era historiográfica e o início de uma nova nova história. Os novos novos historiadores opõem à história como ciência uma história como arte,

abrindo caminho ao ressurgimento da narrativa, a ênfase nas fontes e sua problematização desloca- se para a construção do enredo, na qual teoria, modelos explicativos, hipóteses e mesmo imaginação e arte passam a ter cabimento. Colocando a tónica no estudo das mentalidades e das representações, a nova nova história, privilegia o modelo narrativo e uma análise qualitativa em detrimento do analítico e do quantitativo, dando visibilidade ao individuo e aos discursos produzidos pelos agentes históricos (Lloyd, 1995; Olábarri, 1995, Mendes, 1996).

Adivinham-se novas direcções para a História. Entre elas a micro-história emerge como alternativa à aspiração de uma história total; a história cultural alarga o seu âmbito à história das sensibilidades e à história cultural do político; a criação do Institut d’Histoire du Temps Présent, em 1978, trouxe a interpretação do mundo contemporâneo para o campo dos estudos históricos (Olábarri, 1995; Magalhães, 2002).

3.1.-Michel Foucault: descontinuidade e descentração

Michel Foucault (1926-1984), filósofo e historiador tem sido associado, por um lado, a uma perspectiva marxista da História (Martin, 1989) e muito próximo de pensadores franceses como Lyotard ou Derrida, representativos do chamado pós-modernismo e pós-estruturalismo, por outro (Magalhães, 2002).

Alheio a esta polémica, Foucault teve como principal preocupação identificar os princípios que norteavam as transformações em curso na História. Anunciando uma postura “pós-moderna”, enveredou por novos caminhos, procurando descobrir atrás dos actos as regras de um fazer e, sob

os enunciados, a gramática que os comanda (Martin, 1989).

Ao enveredar por novos caminhos, Foucault, apresentou uma nova visão do seu objecto de estudo (as prisões, os hospitais, a sexualidade, a loucura), baseado em novas fontes e numa nova perspectiva e obrigou os seus leitores a reflectirem sobre o objecto em si e na sua importância para o desenvolvimento ou para a transformação das sociedades. Ao privilegiar o saber como

arqueologia, Foucault propõs uma mudança na direcção do olhar do historiador, agora dirigido para

os alicerces imóveis e mudos, por vezes dissimulados pelos acontecimentos. Esta descentração do olhar obrigava, também, a uma nova concepção do documento considerado como o produto de uma certa orientação da História e não como qualquer coisa que nos foi dada “inocentemente” pelo

passado. Neste sentido, a História é concebida como uma construção resultante de uma

materialidade documental e não como memória da humanidade (Le Goff, 1980; Martin, 1989).

Ao contrário da história tradicional que de alguma forma precisava da diacronia, Foucault propunha a ideia de descontinuidade como objecto e instrumento de trabalho. Assumida a

descontinuidade como opção do historiador, deixa de interessar a actividade singular do sujeito mas

antes encontrar o sentido para certas singularidades, muitas vezes imersas no discurso histórico. Ou seja, importa estar atento aos discursos enquanto acontecimentos singulares que se ligam a outros discursos, que por vezes se cruzam ou se encontram, e outras se excluem. O corpo (cósmico, social, individual ou sexuado) objecto e produtor de discursos é inapreensível ou inexistente, é sempre um

efeito de discursos, uma aparência de corpos (Certeau, 1980, p. 37). É, portanto, ao mesmo tempo

um segredo postulado e um segredo produzido, ou seja, mais importante que o enunciado do discurso, é o contexto de produção do discurso (Martin, 1989; Magalhães, 2002).

Uma outra noção fundamental no pensamento de Foucault é a de poder, considerada fundamental para a compreensão dos modos de funcionamento das sociedades. Na perspectiva de Foucault o poder encontra-se disseminado por toda a sociedade, e não concentrado numa entidade concreta e está estreitamente ligado ao conhecimento. O poder não é apenas punitivo, mas também

libertador porque produz conhecimento, sendo o conhecimento uma fonte poderosa para a desconstrução arqueológica das ideias e das instituições que aprisionam a humanidade (Martin,

1989).

Foucault propõe uma análise do poder de tipo ascendente, ou seja, começando pelos seus mecanismos mais diminutos, a história de cada um, a sua trajectória, técnicas e tácticas, para passar à análise da sua progressiva utilização e desenvolvimento, investidos através de mecanismos cada vez mais gerais e formas de dominação global (Magalhães, 2002, p. 41), identificada nas sociedades contemporâneas com as práticas ideológicas (Griset, 1977).

As obras de Foucault, no seu imenso trabalho de erosão, pulverizaram, reduziram a uma

poeira de práticas, fizeram desaparecer as unidades lentamente adquiridas e tidas como evidentes nas nossas sociedades: a razão, o poder, o corpo, deixando, apenas, a escrita, ela própria discursiva, disseminada, analítica, decomponente (Certeau,1980, p.39).

Efectivamente, o pensamento de Foucault tornou-se incontornável pela introdução de novos objectos de estudo, pela identificação da necessidade de renovar o olhar do historiador sobre os documentos, apelando à utilização de novos métodos, mais adequados a esse novo olhar sobre os documentos, o seu papel e significado. Chamou ainda a atenção sobre a descontinuidade, como uma ideia fundamental, contestando a possibilidade de uma história total. Considerando a História como uma arqueologia, enfatizou a necessidade de explorar os sentidos das práticas mais profundas,

fundamentais para clarificar o funcionamento da sociedade e, pela análise que fez do discurso, lançou, também, a dúvida sobre a objectividade, de tipo positivista, do conhecimento histórico (Martin, 1989; Magalhães, 2002).

3.2.-A dúvida em História

Paul Veyne, um membro da escola dos Annales, inaugurou a renovação epistemológica dos anos de 1970, em França, partindo das bases já fornecidas nos anos 50. O livro Comment on écrit

l’histoire. Essai d’epistémologie, representa uma viragem epistemológica na reflexão sobre a

História, e uma reacção contra o pensamento braudeliano, transformando-se no “credo teórico” para o exercício da actividade do historiador (Martin, 1989; Magalhães, 2002).

Céptico em relação às pretensões de um determinado tipo de história-ciência, Veyne atribui à história o estatuto de actividade muito elaborada e que não se improvisa, exigindo um esforço de conceptualização por parte do historiador (Veyne, 1977, p. 86). Realçando a liberdade do sujeito historiador, opõe a uma verdade cientifica, uma intriga (Martin, 1989; Magalhães, 2002). A História é, então para Paul Veyne, um relato verídico dos acontecimentos que têm o homem por

actor, sujeito às exigências do género narrativo: tal como o romance, a História selecciona, simplifica, organiza, resume um século numa página. No entanto, ao contrário do romance, a

História narra acontecimentos verídicos e que não podem ser olhados com os mesmos olhos com que se olha a vida quotidiana. Ao contrário das ciências naturais, a narrativa histórica centra-se no individual, isto é, nas pessoas e nos acontecimentos que ocorrem num dado momento. É, portanto, um conhecimento ideográfico (trata do particular) por oposição ao conhecimento nomográfico, próprio das ciências, que estabelece leis gerais (Martin, 1989, p.346).

A compreensão dos factos não é imediata, as sociedades humanas não são transparentes. Para além do imediatamente visível há o não factual que não se apreende, apenas, na descoberta do facto, das causas e factores de uma dada situação, mas na explicação e na conceptualização. Para compreender as particularidades de uma dada situação do passado, o historiador precisa de

encontrar palavras, inventar esquemas e categorias gerais que toma como referência (Veyne, 1977,

p. 86).

Apesar dos conceitos serem fluídos por causa da instabilidade do seu objecto e por isso criarem a ilusão de compreender, quando apenas estão a produzir contrasensos na abordagem de uma realidade mais complexa (por exemplo, a utilização do conceito de capitalismo desde o século XII e de revolução industrial no período feudal), Veyne (1977) considera fundamental que o historiador, para cada época, se aproprie de um conjunto de conceitos adequados aos factos a

interpretar, sob pena de chegar a um relato verídico, mas apenas impressionista. Esta convicção levou Veyne (1977, p. 87 e 105) a afirmar:

Um livro de História de levar em conta, nos nossos dias, é um livro que encontra palavras que permitem «tomar consciência» das realidades que se sentia vagamente sem se saber sistematizá-las e que a conceptualização faz o interesse da História.

A causalidade em História não obedece a determinismos rigorosos, é uma arte de dizer

remontando ao passado, segundo um percurso que consiste em fazer remontar o efeito conhecido à causa hipotética tornando possível a construção da “trama” do texto histórico. Esta operação,

corrente no trabalho do historiador, conduz a uma conclusão mais ou menos verosímil e fundada num raciocínio analógico. O relato histórico obedece, largamente, a esta lógica do verosímil (Martin, 1989, p. 350). Em consequência, a experiência e o contexto cultural do historiador tornam- se fundamentais no exercício da sua liberdade relativamente à escolha da metodologia, no caminho a seguir e, consequentemente, na selecção deste ou daquele aspecto que permitam construir uma coerência que será a do texto e não a do real que evoca e em que se fundamenta, através da

evidência. Qualquer interpretação será sempre parcial, por ser incompleta e encerra em si algo de

subjectivo que decorre do ponto de vista do autor (Martin, 1989).

Em suma, Veyne afasta-se da ideia de uma história ciência de tipo positivista, a que opõe a ideia de História como uma actividade muito elaborada. À História imediata contrapõe uma História conceptualizante, ao vivido, o pensado, contribuindo para lançar a dúvida sobre a objectividade do conhecimento histórico.

Michel de Certeau, historiador com uma formação pluridisciplinar que incluía para além da História, a Filosofia, a Psicanálise e a Semiótica insurgiu-se, a partir dos anos de 1970, contra a história universitária francesa na dupla perspectiva das estruturas disciplinares e das suas produções intelectuais. Como historiador, Certeau (1977, p. 18) questiona a natureza da disciplina e como adepto da análise estrutural dos textos, encara a História como uma operação complexa que se refere à combinação de um lugar social e de práticas «científicas».

A História é, pois, uma operação complexa e não a ressurreição ilusória de um vivido. Certeau (1977), insurge-se contra a pretensão de alguns historiadores de enunciarem o real, contra o culto das fontes e da quantificação, contra a obsessão pela periodização e contrapõe a ideia de uma aparente objectividade do discurso histórico na convicção de que o real encerra, em si, máscaras não podendo distinguir-se, totalmente, da ilusão. Este caminho de “desconstrução” do discurso e de

denúncia dos falsos semblantes, remete todo o discurso para o seu plano mais oculto, para as zonas

silêncio: para o inconsciente mas, também, para contexto social e cultural do historiador (Martin,

1989, p. 352).

A crítica ao discurso histórico é um terreno privilegiado de Certeau. O autor procura descobrir a ideologia escondida no texto histórico, sob a forma dos pressupostos que determinam as escolhas iniciais do investigador (o período histórico, o assunto). No entanto, Certeau discute, fundamentalmente, os mecanismos secretos do discurso histórico que revelam a sua inconsistência e o lado mistificador e persuasivo. O lado persuasivo do discurso histórico manifesta-se no efeito de

real muito forte, de um relato aparente do passado quando de facto se toma como ponto de partida o

presente e se tem como objectivo influenciar as práticas presentes e futuras. Como inventário do

real, o discurso histórico decorre da seriedade do historiador e da sua experiência no tratamento das

fontes. Este discurso “verosímil” funciona com base nas correlações e encadeamentos cronológicos e não na base de uma racionalização rigorosa. Para persuadir, o historiador recorre a referências bibliográficas, a fontes e elabora uma teoria no seu pensamento, procurando articulá-la com o objecto de investigação.

O discurso histórico liga o já pensado àquilo em que ainda é preciso acreditar. A história combina uma cientificidade e uma retórica “performativa”( (Martin, 1989, p. 356).

Certeau (Ibidem) distingue, também, discurso histórico de realidade passada. O discurso histórico dá uma imagem inversa da prática de investigação, na medida em que apresenta como ponto de partida (uma referência cronológica) o que é o ponto de chegada, pois a investigação parte do presente. O discurso apresenta-se, geralmente como algo “acabado” enquanto a realidade é

instável, sujeita a constantes revisões fruto de novas descobertas. O discurso histórico, um género ambíguo, um jogo de máscaras, é um misto entre ciência e narração, entre ciência e retórica

(Martin, 1989, p.357).

Em Fazer História (1971), o autor distingue dois tipos de História: a História tradicional, que pretendia fazer reviver o passado e uma História que elabora modelos para constituir e compreender as fontes documentais, transformando os vestígios do passado em qualquer coisa de

pensável e expõe as condições da sua própria produção. Assim, o conhecimento do passado

transporta a marca dos procedimentos que o elaboram, assumindo estes tanta importância quanto a tentativa de reconstituição do passado(Martin, p. 358).

A operação histórica constitui, então, para este autor, uma série de manipulações, um trabalho sobre uma materialidade para a transformar em história. Inventariar as fontes é já apagar os traços escritos, transformar os objectos em documentos, é fazê-los mudar de estatuto. Fazê-los falar é, também, transformar a sua linguagem original num discurso diferente. Na perspectiva de

Certeau é a prática histórica com todas as suas relações técnicas, sociais e outras que é uma

realidade e não a sua relação com uma realidade exterior. A maquinaria da História será mais verdadeira que os produtos que ela elabora (Martin, 1989, p.359).

Na perspectiva de Certeau a História está ao serviço da sociedade presente e permite explicitar a identidade social situando a sociedade presente em relação às do passado, conferindo às sociedades actuais a espessura de um passado legitimante. A História permite compreender as contradições e as diferenças no interior das sociedades e, por isso, contribui para desenvolver a capacidade de com elas “cohabitar”. A uma historiografia de tipo conformista, que dá uma ilusão

realista contrapõe uma de tipo crítica, que procura descobrir as lacunas e omissões do discurso

histórico e o seu sentido. (Martin, 1989, p. 362-363).

A argumentação de Certeau em torno da dicotomia discurso histórico/realidade passada tem em consideração a relatividade do conhecimento histórico o papel do historiador e o contexto de produção do discurso histórico (também ele produtor de discursos). Pode, no entanto questionar-se se a atitude de busca incessante de “desocultação” da ideologia subjacente ao discurso histórico não comportará em si própria um discurso ideologicamente orientado.