No bairro Horta da Areia o realojamento adiado mantém os seus moradores em condições precárias. Acreditamos que a exclusão social do bairro, principalmente devido ao preconceito, cria entraves nas relações com o exterior, aquilo que Rubin e Rubin (2000) definem como pontes sociais. Estratégias de intervenção como o T.O., pelo contacto que estimulam com a população exterior, levam para fora do bairro mostras do potencial criativo e artístico dos seus habitantes, o que ajuda a desconstruir preconceitos.
109 Como defendia Augusto Boal, o T.O. oferece oportunidade para transformar a realidade so- cial. Cria condições ideais para a conscientização e práxis. No bairro permitiu que jovens partici- pantes pudessem falar, refletir e agir sobre os seus problemas. Podendo estender-se à restante população do bairro, esta intervenção poderá trazer resultados mais visíveis para a comunidade. O T.O. pode ajudar a construir o sentido de comunidade que falta no bairro, pois alia reflexão e prática. A práxis é, segundo Freire (1974) fator fundamental da existência humana e ajuda a uma ação fundamentada.
A comunidade está intimamente ligada à ideia de participação e ação coletiva e pode estar dotada de uma forte dimensão política. O T.O. pode contribuir para criar no bairro Horta da Areia este sentido de participação e sentido de comunidade. No T.O. o espetador não delega poderes ao outro, “ele mesmo assume um papel protagónico, transforma a ação inicialmente proposta, debate projetos modificadores: em resumo, o espectador ensaia, preparando-se para a ação real” (Boal, 1977, p.126).
Vimos que o bairro, como território, tem um significado para quem aí vive, que está cheio de símbolos e significados (Curry, 2000; Cohen, 2004). Neste bairro específico foram identificados vários elementos presentes numa comunidade: problemas comuns, espaços compartilhados e símbolos, sentimento de pertença e até mesmo conflitos.
Nas suas obras, Boal (1976, 1997, 1998, 2004a, 2004b) dá-nos exemplos de como a fer- ramenta pode ser usada para satisfazer as necessidades coletivas das populações locais, usado como uma arma para lutar pelos direitos civis. É um exemplo da representação das ideias de Paulo Freire sobre a importância do diálogo, da conscientização e prática para alcançar a trans- formação social. No bairro Horta da Areia, a atividade pode contribuir para a construção de relacionamentos baseados numa relação de confiança comum e compartilhada. Isso verificou-se no grupo de jovens e poderá ter reflexos nas relações de vizinhança no futuro.
No que se refere à etnicidade, a necessidade de preservação étnica por parte das famílias do bairro gera pressão familiar sobre os jovens ciganos entrevistados. É visível no bairro a importân- cia do casamento entre ciganos, também referido em estudos sobre ciganos atrás referenciados. No caso das raparigas do grupo, verificou-se a importância de manter uma boa imagem social e o assumir de responsabilidades para com a família. Os jovens ciganos do grupo sentem-se divididos entre as suas raízes ciganas e outros aspetos que os atraem na restante sociedade.
O T.O., enquanto forma de educação não formal, é uma proposta de intervenção válida junto das famílias ciganas. A estrutura escolar em si não está preparada para receber alunos com diferenças étnicas tão marcantes (Cortesão et al., 2005), portanto talvez olhar para formas de educação não formal permita contornar as barreiras culturais existentes.
Investigação em Educação Social – prática e reflexão
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