No cenário contemporâneo observa-se o processar de inúmeras, constantes e profundas transformações. Estas estão relacionadas com a progressiva intensificação das interações transnacionais, desde a globalização dos sistemas de produção e das transações financeiras, à disseminação de informação numa escala mundial, através dos meios de comunicação social e das novas tecnologias, ao aumento da mobilidade das pessoas, quer como trabalhadores, migrantes, turistas ou refugiados.
Este processo, que abrange as esferas económica, política, jurídica, institucional, social, cultural, ambiental, geográfica, demográfica, militar e geopolítica, e que tem vindo a provocar, principalmente nas últimas décadas, profundas alterações na visão e na conceção do homem a respeito do mundo, é denominado, desde a década de 90 do século XX, por “globalização“.
A evolução da economia mundial, com a integração dos mercados e a queda das barreiras comerciais, veio obrigar as empresas a competirem numa escala planetária, ganhando novas noções de espaço e de tempo (Bedin, 1997; Vieira, 1998). Neste contexto, as empresas têm vindo a transformar-se numa poderosa força económica na sociedade atual. Anderson e Cavanagh (2000) alertam para o facto de que, no início do século XXI, 51 das 100 maiores entidades económicas do mundo serem empresas. Alertam, ainda, para a circunstância de que as 200 maiores empresas do mundo, embora empreguem menos de 1% da população mundial, controlarem 27,5% de toda atividade económica internacional.
Investigação em Educação Social – prática e reflexão
Face a este cenário, tem sido crescente a desconfiança da sociedade em geral no que con- cerne ao poder económico e político das empresas. Daí a necessidade de uma maior atenção e exigência em relação à sua postura e ao seu desempenho, o que as tem obrigado a introduzirem significativas mudanças nos seus sistemas tradicionais de gestão, sob o risco de lhes ser retirada a legitimidade para operar.
Visando encorajar as empresas a adotar políticas de responsabilidade social corporativa e de sustentabilidade, o Pacto Global2, lançado em 2000, assenta em dez princípios fundamentais, que
incidem nas áreas dos direitos humanos, práticas laborais, proteção ambiental e anticorrupção. Promove, ainda, o compromisso público e voluntário das empresas em cumpri-los, incorporando no quotidiano dos negócios princípios que se baseiam no paradigma do desenvolvimento humano sustentável e que ressaltam a importância das empresas na construção de uma sociedade mais justa e mais equitativa.
As empresas são impulsionadas a assumir, em interação com outros agentes sociais, novos papéis e a adotar novos padrões de conduta empresarial. Terão de tomar uma posição ética e ter uma visão ampliada do negócio, não considerando somente os seus objetivos económicos e comerciais, mas preocupando-se com o impacto social e ambiental da sua atividade e dos seus produtos e serviços, assumindo a sua responsabilidade e o seu papel na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Essa convergência entre metas económicas, sociais e ambientais, faz emergir modelos de organizações preocupadas com o elevar do padrão de qualidade de vida das comunidades.
Terão ainda que perceber a pertinência de investir num permanente aperfeiçoamento da relação complexa que estabelecem com os públicos dos quais dependem e com os quais se relacionam, tais como empregados, fornecedores, clientes, outras empresas, governo, as comu- nidades mais próximas e mais distantes, em suma, a sociedade no sentido mais amplo.
Nesta perspetiva, a gestão socialmente responsável agrega valor aos negócios não porque é mais um modelo de conduta que deve ser seguido, mas pela mudança de cultura e de atitudes concretas tomadas pelas empresas que a adotam, implicando uma mudança de mentalidade dos indivíduos e transformando a responsabilidade social empresarial numa ferramenta de atuação global, que envolve todas as relações e ações da empresa e dos grupos a ela ligados, caminhando para a sustentabilidade.
A gestão empresarial, assente em princípios responsáveis, não só cumpre as suas obriga- ções legais como vai muito além delas. Incorpora princípios e relações éticas e transparentes, estabelecendo assim um melhor relacionamento com os parceiros, os fornecedores, os clientes, os funcionários, a sociedade. Segundo Tenório (2006), desse investimento das empresas na responsabilidade social e no diálogo, tendo subjacente uma postura ética e cívica resulta a con- quista do mercado e também a admiração e o respeito da sociedade e, a longo prazo, o sucesso e a continuidade da própria empresa. Assim, a responsabilidade social constitui-se como uma
2 Em 1999, no Fórum Mundial (Fórum de Davos), sob a iniciativa de Kofi Annan, à data Secretário-Geral das Nações Unidas, foi anunciado o Pacto Global (The Global Compact). Esta iniciativa teve como objetivo sensibilizar, mobilizar e envolver a comunidade empresarial, os sindicatos, as organizações não-governamentais e demais parceiros, num processo de valorização da dimensão social da globalização, promovendo o desenvolvimento de um mercado global mais inclusivo e sustentável, questões tão relevantes na sociedade contemporânea, na medida em que se configuram como basilares na construção de um futuro mais sustentável.
153 ferramenta da estratégia empresarial, incorpora-se e revela-se no comportamento da organi- zação, exercendo impactos nos seus objetivos, nas suas estratégias e no próprio significado da empresa enquanto agente de desenvolvimento.
Sendo hoje em dia considerada um fator estratégico para as empresas, assim como garantia da respetiva sustentabilidade, a RSE é a resposta proativa, aberta e integrada das empresas às expetativas de uma sociedade que respeita as leis, os valores éticos, as pessoas, a comunidade e o meio envolvente.
Segundo a Fundação para o Prémio Nacional de Qualidade (FPNQ), o sucesso de uma or- ganização, numa perspetiva temporal alargada, depende de uma conduta ética nos negócios e do respeito e superação das exigências legais e normativas associadas aos produtos que utiliza e produz, aos processos que desenvolve, às caraterísticas e condições das instalações e equipa- mentos que utiliza, e às relações que estabelece com todas as partes interessadas na atividade que desenvolve. Tal implica proatividade e uma enorme capacidade de perceber a evolução das necessidades da sociedade, no sentido de ir, ao longo do tempo e de uma forma sustentada, desenvolvendo um modelo de gestão, bem como a produção de bens e serviços que vão ao encontro das expetativas dessa mesma sociedade.
É neste contexto que se encontra o fundamento para a crescente popularidade que o con- ceito de RSE tem vindo a assumir, com particular relevo desde o final do século XX. É notório o lugar que tem vindo a ocupar nas preocupações, no comportamento, nas políticas e na gestão da imagem das organizações, assim como a presença que tem marcado no discurso de políticos e gestores, despertando o crescente interesse por parte dos consumidores e da comunidade científica na procura de travar e inverter o caminho.