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5   Metodología

5.2   El  método

As palavras do poema evocam ambientes em tons de azul. Os azuis densos, escuros, evocam afetos, lugares, formas. As sonoridades da canção, na música, no som das palavras, oferecem apoio sensorial, ampliam as possibilidades de significação, criam um denso panorama ao fazerem referência a outros sentidos.

A canção A saudade tem a densidade de um azul-escuro. O que isto pode nos querer dizer? Quando pensamos em metáforas, a significação de um objeto é deslocada para outro objeto. Numa metáfora, podemos assumir que o conteúdo formal de uma palavra apresenta analogia com o conteúdo de outra palavra (Cf. Ramos, 1974, 109). De que tipo de conteúdo podemos falar ao tratar de música? A cor azul enriquece a percepção da música. Se pensarmos a metáfora como transferência, a ideia torna-se mais clara. As qualidades que percebemos na cor azul se transportam, em nossos processos de simbolização, para a ideia que fazemos da música.

O azul denso da noite escura, quase negro, colore de forma sombria o quadro da morte, o quadro da dor, o quadro da saudade. A harmonia suspensa na canção reage

com esse azul de forma metafórica. A harmonia suspende a resolução, cria expectativa, pode ser percebida como tensa, estranha, paralisante. “A metáfora é a constante psicológica da percepção de uma unidade dos objetos através do véu de suas diferenças” (Vianu, apud Ramos, 1974, p. 109). A metáfora coloca em relação conteúdos materiais diferentes e conteúdos formais de alguma forma semelhantes. Harmonia e cor: esferas diferentes de sentido têm algo em comum no “conteúdo formal”. O azul e a harmonia são percebidos como densos, estranhos, tensos. A harmonia torna-se sombria. Num processo de deslocamento, a harmonia torna-se cor.

A sinestesia é uma das mais interessantes modalidades de metáfora, pois constitui-se na transposição de reações sensoriais de natureza heterogênea. A música pode ser azul? Existiria uma música azul-escura? A imagem de um azul pode evocar o espaço, um gesto, uma forma, um estado de espírito, um sentimento. Estes, ao serem traduzidos em música, demandam a utilização de determinados acervos teóricos, toques, atitudes técnicas, determinadas estruturas musicais que darão origem a certas sonoridades. Um som evoca uma cor ou vice-versa porque sensações semelhantes criadas por sons ou cores podem ter sido experimentadas anteriormente e constituem uma memória que pode ser evocada num processo simbólico. Esta é provavelmente a essência simbólica da apreensão sinestésica, que consiste em estabelecer espontaneamente uma relação entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente. Mas o processo de semiose é complexo e praticamente infindável. O azul remete ao espaço, o espaço aos planetas, os planetas ao astronauta, e aí não há mais limites. Mas, se pensarmos que a harmonia evoca estados tensos, que a tensão evoca as cores da noite escura, que a noite evoca a angústia, que a angústia evoca a morte, que a morte evoca a saudade, a teia se estabelece num processo de relações possíveis dentro da dinâmica da canção. De qualquer forma, o processo de evocação resultará numa interpretação, seja ela musical ou verbalizada, que será, em última instância, única para cada pessoa e que dependerá também de seus acervos culturais e sociais.

O som colore, com cores, luz e sombra, o espaço multidimensional da canção. Que dizer do acorde perfeito de Fá # maior na palavra “luar”, concluindo a seção de harmonia suspensa, exatamente na última sílaba do poema, numa sequência melódica ascendente? Inesperada resolução que confere uma claridade súbita à canção. Esta consonância, na cultura musical ocidental dos últimos três séculos, nos faz experimentar uma sensação de conforto. Depois das sequencias ininterruptas de dissonânciasque podem

nos remeter à angústia, à agitação, a resolução pode significar relaxamento ou reconciliação. Reconciliação que não acontece inteira, pois o mesmo acorde que estabiliza e alivia é o início da cadência que ora principia, o quinto grau da tonalidade de Si menor, grau que corresponde, na harmonia tonal, à tensão que pede a resolução. O que este acorde evoca (provoca)? Resolução, soltura, abertura, liberdade. Assim como a luz: luz no fim do túnel significa a visualização de uma saída; à ideia que nos ocorre dizemos que tivemos uma luz. A luz também abre, libera, solta. O acorde evoca aquilo que a luz nos dá. Claro, iluminado, ambíguo acorde, como a luz da lua. Clareia, mas ainda é noite.

O acorde remete à visualização da luz, é relativo à visão. O signo é icônico, metáfora.37 O acorde é um signo de luz.

A canção se mancha de imagens de luz e sombra. Tomemos a palavra escura e o som que nela reside. O fonema na palavra é não semântico, sua carga explícita de significação é provavelmente mínima. Palavras com o fonema /u/ em posição tônica, entretanto, parecem se relacionar com toda uma gama de significados negativos como a escuridão, a angústia ou mesmo a morte, em palavras como oculto, profundo, soluço,

imundo ou tumba. A vogal ‘u’ é, por sua vez, fechada, velar e formada na região posterior de nosso trato vocal, podendo evocar, assim, objetos igualmente fechados e escuros. A palavra escura é capaz de provocar, no ser que a vocaliza, uma sensação, um sentimento. A imagem da escuridão geralmente produz, no ser humano, sensações de fechamento ou até de angústia. Ao mesmo tempo, o próprio ser que a pronuncia, experimenta, ao articular a vogal fechada e posterior, uma sensação interna. A palavra é portadora de sensações internas experimentadas pelo corpo humano, sua sonoridade é moldada dentro do organismo, movida pela intenção de significar. Nos sensíveis dizeres de Alfredo Bosi, “o que se dá é uma operação expressiva organizada em resposta à experiência vivida e, o quanto possível, análoga a um ou mais perfis dessa experiência” (2004, p.62).

No outro extremo da abertura, a vogal ‘a’ em chorar. A garganta, aberta e desimpedida, funde, na imagem do choro, o som amplo e claro do signo, num todo expressivo. No entanto, o contexto numeral do som das vogais varia: ‘a’ também está em

saudade; ‘u’ se liberta de suas conotações sombrias e cintila na palavra pura, ‘o’ em morte é surpresa tímbrica. A significação se coloca para além de uma possibilidade pré-semântica de sentido no signo. No poema, na canção, o processo de significação parte de um esforço

37 Fazemos aqui referência ao subnível “metáfora”, dos níveis icônicos estudados por Pierce, já mencionados

conjunto de integração de seus múltiplos elementos significativos. As vogais se alternam, ‘a’ e ‘u’, criando um efeito sonoro de claro/escuro, de distensão e contração. O som é timbre, é cor.

A linha melódica se curva na palavra escura e se alça em chorar e luar. Regiões graves ecoam a escuridão e as agudas conferem luminosidade às regiões da canção. Sinestesia em seu sentido mais amplo, operando por paralelismo, promovendo a associação de qualidades tomadas como positivas ou negativas. Associações como grave/escuro/triste/lento ou agudo/claro/alegre/rápido nos parecem muito naturais, mas são, como já tivemos oportunidade de verificar, resultados de nossas vivências culturais ou nossos sistemas codificados aos quais nos acostumamos. Nossos processos de percepção são responsáveis pela constituição de cadeias de significação que relacionam geralmente sons graves e agudos respectivamente a peso e leveza, ou à escuridão e à luz. O jogo simbólico na canção demonstra, entretanto, que a significação dos elementos deve ser colocada sempre numa perspectiva comparativa, numa perspectiva da relação. Uma nota aguda não é, per se, um signo referente à luminosidade. Requer maior energia do sopro, implica em maior abertura do trato vocal, daí remeter à luz. Na palavra chorar chega-se ao ponto mais agudo na tessitura do canto, por meio de um trítono, numa nota longamente sustentada. A abertura da vogal, a dissonância do intervalo, a região aguda da voz e a dinâmica forte concorrem para criar a imagem pungente de um grito claro e dolorido.

Assim, na canção, elementos criam imagens vinculadas mais prioritariamente ao olhar. A poiesis nos é indicativa das nuanças afetivas que criam tonalidades escuras. As indicações de caráter escritas pelo compositor marcam “calmo e triste”, com a observação “ligado e com expressão de profunda tristeza” em dinâmica piano e, ao final “com expressão sombria”, “sombrio”, “com doçura triste e calma” e “morrendo”. No plano geral da canção, predominam imagens sombrias, sugeridas pelos sentimentos evocados, pelas imagens noturnas, pela harmonia suspensa, pela tonalidade menor, pela dinâmica predominante em piano e pelas indicações de caráter.

Evocativa de imagens também escuras é a linha melódica do canto, ao apresentar características que podem ser encontradas nas serestas brasileiras, tais como terminações em cromatismo, inícios de frase em anacruse, frases sinuosas de grande âmbito intervalar e escalas menores. A referência melódica às serestas nos remete a imagens noturnas, além de evocar uma memória cultural de saudade, solidão e nostalgia.

A canção A saudade nos apresenta uma cor predominantemente escura. Aos tons densos de azul contrasta-se o branco, em referência ao luar. A mudança da harmonia suspensa para uma harmonia tonal sugere uma importante mudança cromática na obra, em uma analogia à transformação das imagens visuais do poema. Surgem, entretanto, lampejos de outras cores mais vivas: o acento no acorde da parte do piano na palavra “morte”, com dinâmica forte, o salto de trítono na sonoridade aberta da palavra “chorar” em registro agudo da linha do canto e o acorde perfeito maior na palavra “luar”. A resolução em um acorde perfeito menor no último compasso também nos remete a uma nova luz, mais difusa.

A paisagem sonora colore a paisagem visual. Nas imagens sombrias, rasgos contrastantes de luz e cores em variações expressivas de intensidade.