7. CONCLUSION
7.3 C LOSING REMARKS
Neste capítulo, será abordado o debate articulado em torno das propostas de revitalização ou requalificação48, do centro tradicional49da cidade de São Paulo levando em consideração a consolidação de novas centralidades50 constituídas a partir das intervenções públicas e das ações dos capitalistas sintonizados com as mudanças dos paradigmas econômicos e suas respectivas transformações que ocorreram na cidade, desdobrando-se em novos centros que proporcionaram o intenso acúmulo de capital. Este ficou caracterizado pela especulação imobiliária, e pelo aproveitamento da infraestrutura dinamizada pelo poder público que, em inúmeras situações atuou de forma subserviente ao interesses corporativos do segmento da construção civil e do setor de comércio e serviços, em detrimento de uma visão mais geral dos problemas candentes da cidade que deveriam ser resolvidos de forma mais participativa, levando-se em consideração princípios de democracia e de cidadania.
Em primeiro lugar, o inquestionável deslocamento da centralidade dominante (pelo menos em seus setores mais visíveis) para o vetor sudoeste da cidade não determinou o esvaziamento do centro histórico, mas sim uma mudança no perfil de seus usos e usuários, configurando novos focos de dinamismo e novas vocações para a área. Nesse sentido, enquanto determinadas funções e espaços se esvaziaram, outros apresentaram uma vitalidade continua ou mesmo crescente. Além disso, tais fenômenos se manifestaram de forma uniforme pela região central – a qual, em vez de construir um território homogêneo, compõem-se de uma complexa constelação de subespaços abrigando diferentes atividades, ocupantes e dinâmicas sócio – econômicas – territoriais. (NAKANO; CAMPOS; ROLNIK, 2004 p. 154).
Portanto, os nossos esforços estarão concentrados nos anos 90, mais precisamente sobre o centro antigo da cidade, pois o mesmo, apesar de concentrar intensa vitalidade e dinamismo do ponto de vista cultural, econômico e social, possui excelente estrutura de
48 De acordo com artigo da professora (Glória Alves, 2005, p. 142), no caso do processo de “revitalização” do
centro paulistano, este tem sido elaborado, principalmente, por meio de uma parceria do poder público municipal e a iniciativa privada. É justamente pelas ações empreendidas nessa tentativa de transformação espacial que parece mais adequado chamar o processo de “revalorização”. O que se tem procurado fazer do Centro novamente lugar de atração de novos capitais. Principalmente de empreendedores privados que visam a recuperar as aplicações feitas na área e não deixar que avance a “degradação” do lugar, pois isso implicaria a desvalorização de seus imóveis, negócios, enfim do seu patrimônio.
49 Por centro tradicional, compreende-se a região identificada, como os distritos: Sé e República. 50 Ver Heitor Frúgoli Jr.
transportes, de rede de água, de energia, de telefonia, dentre outros atributos, que foram viabilizados pelo gasto público ao longo da história da cidade e se tornou o alvo preferido de contundentes ações políticas amparadas na visão empreendedora de recuperação e requalificação daquela região, direcionados pelos empresários preocupados em recuperar o centro, diante do florescimento de novas centralidades, que passavam a ocupar mais espaços em detrimento do esvaziamento das funções exercidas pelo centro tradicional.
Ademais, a Associação Viva o Centro, composta por empresários de “peso” que tinham diversos investimentos no centro de São Paulo, argumentava de forma recorrente sobre as necessidades imperiosas de cessar o processo de degradação e espoliação da região, além de adaptar a cidade, através do centro monumento para um novo tempo, relacionada na inevitável inserção de São Paulo como protagonista e líder das transformações capitalistas no Brasil, no bojo da Terceira Revolução Industrial e da Globalização51 Financeira. Sendo assim, a cidade mundial estaria conectada com as principais cidades do mundo identificadas na atual conjuntura como legitimas representantes dos circuitos de concentração do poder político e econômico contemporâneo, materializadas nos fluxos de circulação financeiras, mercadoria, pessoas, na produção científica, bolsa de valores, rede bancária, agências de propaganda, escritórios das empresas transnacionais, etc.
Por tudo isso, considerou-se o fato de a modernização conservadora da metrópole terciária não conseguir suprir as demandas da população trabalhadora informal do centro da cidade, a bem da verdade, não significa nenhuma novidade, pois no processo de requalificação não existe espaço para as classes perigosas e rebeldes por excelência, que podem colocar o desenvolvimento e o progresso em xeque, gerando obstáculos para o constante acúmulo de capital, que tem na região central um cenário privilegiado.
Deve-se realçar que a população que escolheu as vias públicas para sobreviver, seja como trabalhador do comércio informal de rua, ou mesmo diante da mais absoluta pobreza material, encontra na rua sua moradia, sociabilidade e identidade. Nunca encontraram respaldo nas ações dos empresários e do poder público que se articulam no sentido de “limpar o quarteirão”, ou seja, encaram os trabalhadores e os excluídos como um estorvo que deve ser removido para não atrapalharem o progresso, portanto as classes perigosas não podem permanecer no centro, na visão dos empreendedores.
51 O termo, considerado, por muitos, sinônimo de mundialização, foi difundido a partir dos Estados Unidos para
designar a etapa atual da internacionalização da economia. Tal processo, iniciado no tempo das grandes navegações, consolidou-se e tornou-se mais complexo depois da Segunda Guerra Mundial e se caracterizou por: uniformização crescente do consumo, ampliação sem precedentes da urbanização, economia e comunicação baseada nos avanços da informática, divisão do trabalho baseada nas subcontratações e multifuncionalidade dos trabalhadores. (SPOSITO, 2008, p. 151).
Marreteiros, ambulantes, menores de rua, engraxates, ciganos, vendedores de ervas, de bilhetes da loteria, de churrasquinho, pregadores da Bíblia, prostitutas, homens de rua, mendigos, artistas de rua (“comedores” de fogo, saltadores de “roda de faca”, engolidores de metais e facas, equilibristas, malabaristas, sanfoneiros, mágicos, videntes, ventríloquos, etc.), “rolistas” (que compram e vendem mercadorias, em geral roubadas), batedores de carteira, trapaceiros, desempregados, “plaqueiros” idosos, bêbados, jogadores de tampinhas, etc. (FRÚGOLI JR., 1995, p. 55).
Vale ressaltar, que o sujeito de análise são os trabalhadores que compõem o mais dinâmico e organizado segmento que atua de forma marginal no centro da cidade. No caso, os camelôs que são profundamente estereotipados na visão dos empreendedores, e de um modo geral, do próprio poder público. Os grandes veículos de comunicação de massa contribuem para deturpar a imagem dos camelôs, e de outros grupos que dependem das ruas centrais para sobreviver e sempre são associados com a baderna, a desordem, a violência, a corrupção, o contrabando, a pirataria, a sonegação, o descaminho, o tráfico de drogas, etc.
Entretanto, conforme a citação do professor Frúgoli, a lista de excluídos que sobrevivem na mais absoluta precariedade no centro é numerosa, além de estar vinculada com a história da própria cidade, desde o seu princípio enquanto vila bandeirante, em todos os ciclos, seja de crescimento da economia ou estagnação. A exclusão teimava em grassar no seu território, obviamente ganhando visibilidade no centro da cidade, por meio das mais precárias e rudimentares inserções no mundo do trabalho. Em suma a cidade não consegue esconder o expressivo contingente que estava alijado do setor organizado da produção, portanto o moderno e o arcaico convivem no mesmo espaço.
Diante da falta de oportunidade, os trabalhadores não aproveitados pelo setor organizado da economia estavam dispostos a fazer qualquer atividade que garantisse a sua sobrevivência no imenso exército de reserva que, dependendo da conjuntura macroeconômica aumenta ou diminui, porém sempre se manteve em patamares elevados com excesso de braços disponíveis nem sempre utilizados pelo capital.
Figura 8 - Desempregado mostrando carteira profissional Fonte: Geografia – A Globalização Econômica, p. 65.
Como uma característica do nosso mercado de trabalho nacional, os trabalhadores que não são aproveitados no setor organizado são estrategicamente posicionados para limitar os avanços dos trabalhadores formais, principalmente no que diz respeito às reivindicações econômicas e sociais. Perante o número excedente de mão de obra, sempre ocorre intensa rotatividade e a própria conformação do mercado nacional de trabalho, no qual os empregadores sempre contavam com milhares de braços disponíveis e a quantidade sempre era maior que a oferta de postos de trabalho abertos. Enquanto os trabalhadores encontravam dificuldades para ingressar no segmento organizado da economia, os logradouros viabilizavam-se como alternativa cristalizada no trabalho informal para milhares de trabalhadores preteridos das vagas no segmento formal.