2.2.1.1 Praça Marechal Deodoro
De acordo com Del Rio (1955, p.92), o estudo da percepção ambiental interessa-nos enquanto compreensão da unidade selecionada para compor a experiência visual. Para o desenho urbano, os objetivos principais destes estudos se tornam claros: a identificação de imagens públicas e da memória coletiva. Conforme Januzzi (2000), a partir da visão, o indivíduo estabelece contato com as imagens existentes no espaço urbano, os quais produzem reações emocionais no ser humano. Porém, na composição dos ambientes urbanos, os elementos existentes podem não corresponder ao desempenho desejado, causando conflitos visuais e prejudicando a qualidade dos espaços. De acordo com a teoria de Lynch - a respeito da legibilidade, que ele considera uma das mais importantes qualidades visuais - uma boa imagem ambiental dá ao seu possuidor um importante senso de segurança emocional. Para estruturar essa teoria, consideraram- se, principalmente, dois dos aspectos observados por Cullen (2009): óptica e local.
Óptica é o aspecto relacionado com o que se entende por visão serial propriamente dita. Esta visão, que segundo Cullen(2009,p.11) descreve da seguinte forma:” Imagine-se o percurso de um transeunte a atravessar uma cidade a passo uniforme , e, que apesar do passo uniforme, a paisagem urbana surge na maioria das vezes como uma sucessão de surpresas e ou revelações súbitas”. Assim sendo, foi feito um percurso no eixo central da praça a passo uniforme, de um extremo ao outro, onde revela uma sucessão de pontos de vistas conforme se procura exemplificar nas imagens abaixo. Cada seta representa um ponto de vista e a partir dessas imagens pode-se perceber o local analisado e instrumentar a definir o que, como e com que intensidade, o usuário pode perceber e se apropriar do espaço.
Planta Praça Mal. Deodoro com indicação dos pontos de vistas. Gráfico elaborado pela autora. Fonte: PMT- em 10/02/2010. A B C D E F G H I J K L M N O
A B C
G H I
K L M
N O
A progressão uniforme dos passos do observador vai sendo pontuada sempre por contrastes de perspectivas que tornam o percurso mais dinâmico. Segundo Cullen (2009, p.19): “os mínimos desvios ao alinhamento, as pequenas variações nas saliências e reentrâncias, em planta, têm um efeito dramático não proporcional na terceira dimensão.” A sequência de fotos acima causa a sensação de descoberta ao atravessar a praça. As imagens demonstram a sensação de se estar a desvendar um caminho para um novo cenário, poder vir a descobrir sempre uma nova paisagem se continua a andar. A igreja com o monumento da cruz é um elemento marcante de separação da paisagem antiga com a paisagem que se está a explorar. Transita-se para uma nova ambiência onde surge um novo eixo de perspectiva convergindo a outro elemento marcante e de separação de paisagens, o monumento de fundação da cidade, dando origem a mais uma perspectiva que converge para o outro elemento, o rio. Porém, antes de chegar ao rio depara-se com uma contraposição de volumes, o shopping da cidade e o metrô, construídos recentemente, que rompem a conexão praça e rio.
O segundo aspecto que diz respeito ao Local, relaciona-se às reações perante a posição do transeunte no espaço. De acordo com Cullen (2009, p.23): “ a ocupação de determinados espaços ou linhas privilegiadas no exterior, os recintos, pontos focais, paisagens interiores, etc., são outras tantas formas de apropriação do espaço.”Com isso, através dos itens a seguir, apresentam-se alguns meios de apropriação observados na Praça Marechal Deodoro.
De acordo com Cullen (2009) “abrigo, sombra, conveniência e um ambiente aprazível” são as causas que levam à apropriação de determinados espaços. Para ele, marcar esses locais com elementos de caráter permanente pode colaborar para demonstrar os tipos de ocupação que existem nestes espaços e criar um ambiente que não seja “fluído e
monótono”, mas sim “estático e equipado”. Por exemplo, como mobiliário para esta apropriação, o autor cita os desenhos no pavimento, postes de iluminação, abrigos, enclaves, pontos focais e recintos.
“ainda que o grau de ocupação do território seja relativamente fraco, o fato de haver no mobiliário sinal permanente dessa ocupação confere à cidade um caráter mais humano e diverso, da mesma maneira que as persianas nas janelas enriquecem os edifícios a nível de textura e proporção mesmo quando não recebem luz do sol.”
A imagem a seguir mostra a ocupação da praça Marechal Deodoro pela população, através do recurso do desenho do pavimento (ponto A), e por uma espécie de abrigo que se forma pela sombra da copa
das árvores com o banco da praça (ponto B).
Figura 113: Esquema de apropriação da Praça Mal. Deodoro. Imagem modificada
RECINTOS E PONTO FOCAL
Segundo Cullen (2009), “recinto é síntese
da polaridade entre a circulação de pessoas e de veículos. É a unidade base duma certa morfologia urbana. O recinto é o objetivo da circulação, o lugar para onde o tráfego nos conduz; no interior,
o sossego e a tranqüilidade de sentir que o largo, a praceta, ou o pátio têm escala humana.”
Associado ao recinto e, com este, determinando a ocupação de um determinado espaço, para Cullen (2009, p.28) o ponto focal é:
“o símbolo vertical da convergência. Nos largos de mercado de vilas e cidades, o ponto focal (seja coluna ou cruz) define a situação, surge como uma confirmação: é este o local que procuravam. Pare!” Hoje, na maioria das cidades, estes pontos focais ainda possuem uma nitidez suntuosa, em outras, são retirados ou isolados, devido às exigências dos fluxos de pedestres e veículos.
Figura 114: Recinto - Praça Mal. Deodoro. Imagem tirada pela autora em 18/07/2010.
Na Praça Marechal Deodoro os pontos focais são marcados pela cruz (1) - em frente da primeira Catedral e que demarca a construção da cidade - e pelo primeiro monumento (2) da cidade de Teresina. Este foi inaugurado em 1958 como demonstrações da cidade ao seu fundador. Portanto, pode-se afirmar que, a partir desses dois pontos, estruturou-se originalmente o projeto da praça.
Figura 116: Vista pontos focais da Praça Mal. Deodoro. Projeto
original da praça simulado pela autora através do levantamento da praça nos dias atuais. Fonte: Prefeitura Municipal de Teresina – Acesso: 18/05/2010.
Figura 115: Vista pontos focais da Praça Mal. Deodoro. Imagem modificada pela autora
LIGAÇÃO: PAVIMENTAÇÃO, CAMINHOS E BARREIRAS
Segundo Lynch (1981: 53) a circulação viária é um dos elementos mais poderosos para estruturação da imagem urbana, portanto não pode ser tratado apenas como um sistema de movimento:
“Um dos fatores básicos na democratização da cidade uma vez definidora da acessibilidade, a circulação viária, o transporte público e o estacionamento devem ser entendidos como vitais para a animação e a sobrevivência social e econômica de uma área, em soluções conciliadoras”
De acordo com Cullen (2009), o ambiente construído encontra-se cada vez mais fragmentado em zonas desconexas: casas de um lado, árvores para o outro. A partir desta constatação, o autor estuda diversos exemplos de ligação e conexão do meio urbano, dando ênfase aos seus aspectos mais simples: “pavimentação, caminhos para peões e
barreiras.”
Para esse autor é a rede de caminhos para pedestre que transforma a cidade numa estrutura transitável, ligando os vários locais por meio de degraus, pontes, pavimentos de diferentes padrões, ou por outros elementos de conexão que permitam manter a continuidade e acessibilidade. “Enquanto as vias motorizadas são fluidas e impessoais, os caminhos
para peões, insinuantes e ágeis, conferem à cidade a sua dimensão humana.” (CULLEN, 2009, p.56).
Observando a conexão na Praça Marechal Deodoro, observa-se: a área pavimentada de lajes e cimento contínuo são vias de rápida circulação para pedestres (A). Estas se diferenciam do outro tipo de pavimento - pedras portuguesas -, no tipo de material, desenho e uso. Este último demarca o ponto focal da praça, criando um espaço de contemplação, pois nele convergem os eixos principais da praça que ligam a mesma com a cidade(B).
Figura 117: ligação e conexão da praça através da pavimentação. Fonte: arquivo pessoal.
.
Figura118: sentido que ocorre o principal Fluxo da praça. Fonte
Esta conexão foi parcialmente alterada pelas modificações que a praça sofreu para se adequar ao sistema viário: parte dela foi tomada para abrigar estacionamentos e mais recentemente, foi construído o shopping da cidade, o qual tomou parte do perímetro da praça.
Nesse processo, o fato de criar determinadas ligações do ponto de vista visual, poderia criar, também, o livre acesso físico. Não é o caso na Praça Marechal Deodoro que foi gradeada. Conforme Cullen (2009), as grades são consideradas barreiras físicas, elas permitem o acesso visual, mas pode ser considerada uma restrição física.
2.2.1.2. Praça Saraiva
Planta Praça Saraiva com indicação dos pontos de vistas. Gráfico elaborado pela autora. Fonte: PMT- em 10/02/2010.
A B C D E F G H I
A B C
F G H
Por esta sequência de imagens acima da Praça Saraiva, diferente da Marechal Deodoro, nota-se um caminho sem muitas mudanças de perspectivas, como se fosse uma única fotografia reproduzida várias vezes, sendo, de cada vez, ampliada a parte central para se obter um plano cada vez mais próximo do edifício terminal (A igreja). O monumento ao Conselheiro Saraiva antes o ponto focal de convergência para a perspectiva do eixo central da praça, hoje é, também, o elemento de separação dos ambientes, antes, um só ambiente – praça. Logo depois parte da praça foi tomada por um corredor de ônibus que junto com ambulantes transformaram-na em um outro espaço independente.
Assim como na Praça Marechal Deodoro, a ocupação da Praça Saraiva pela população se dá através do recurso do desenho do pavimento (ponto A), e por uma espécie de abrigo que se forma pela sombra da copa das árvores com o banco da praça (ponto B) (ver imagem 122).
RECINTOS E PONTO FOCAL
A Praça Saraiva é, também, considerada um recinto pontuado por árvores e bancos que permitem descanso e contato humano.
Figura 122: Esquema de apropriação da Praça Saraiva. Imagem modificada pela
Na Praça Saraiva o ponto focal é a igreja Nossa Senhora das Dores, cuja construção deu origem à praça. O segundo ponto construído foi a estátua do Conselheiro Saraiva (o responsável pela mudança da capital do Piauí para Teresina). O eixo principal da praça é ligado por esses dois pontos e dele se estruturam os caminhos secundários.
Figura123: Recinto - Praça Saraiva. Imagem tirada pela autora em
18/07/2010.
Figura 124: Vista pontos focais da Saraiva. Projeto original da praça simulado pela
autora através do levantamento da praça nos dias atuais. Fonte: Prefeitura Municipal de Teresina – Acesso: 18/05/2010
LIGAÇÃO: PAVIMENTAÇÃO, CAMINHOS E BARREIRAS.
Na ligação da Praça Saraiva observa-se: a área pavimentada de bloquetes e cimento contínuo são as vias secundárias(B); já a via principal – eixo central que liga a os caminhos secundários para a igreja e monumento - é constituída por pedras portuguesas (A).
Esta conexão foi parcialmente alterada pelas modificações que a praça sofreu para se adequar ao sistema viário, pois, assim como aconteceu com a Praça Marechal Deodoro a Praça Saraiva é um exemplo de como o espaço público pode sofrer grandes modificações para se adequar ao sistema viário. Boa parte da sua estrutura sofreu modificações, primeiro com uma via que corta a praça e é passagem obrigatória dos ônibus, o que torna a praça um centro de irradiação física, e é nessa via que ocorre o principal fluxo da mesma. Outra mudança foi à criação de estacionamentos, que tomam as laterais da praça.
Figura 126: sentido que ocorre o principal Fluxo da praça. Fonte imagem:
Quanto às barreiras físicas, nota-se que a Praça Saraiva também foi gradeada. Estas, que são consideradas barreiras físicas, permitem o acesso visual, mas dificultam o acesso ao lugar.
Contudo, primeiramente se analisou a Praça Marechal Deodoro, em seguida, a Praça Saraiva. Com isso, levantou-se como se encontram atualmente as praças quanto seu aspecto morfológico em relação a elas mesmas, e em relação à cidade; e como as análises da paisagem urbana das praças mostram o modo de apropriação e acessibilidade das mesmas pela população. Assim a partir da análise pretende-se agora identificar os pontos fortes e os pontos fracos de ambas para diagnosticar as ameaças e oportunidades que possam contribuir para possíveis