7.2 The Periodic Artificial Bee Colony Algorithm
7.2.4 Local Search Mechanisms
Vimos que a agência epistêmica consiste em desempenhos epistêmicos, que ela tem duas ordens, correspondentes aos funcionamentos e às diligências. Ela tem três papéis na vida cognitiva: monitoramento de sinais de risco, decisão de aceitação do risco e controle negativo sobre influências práticas.
Vimos também que as diligências podem ser livremente determinadas, mas nem sempre o são. Nos casos em que o são, temos a agência epistêmica livre manifestada, segundo Sosa (2012, p. 32s). Ela é a mais forte, mas ainda não envolve nenhuma ação ou controle direto:
Além do mais, competência epistêmica [no sentido de agência] não é acional. Não é instituída através de raciocínio direto, positivo, prático-silogístico. [...] Ao invés disso, competência epistêmica resulta em crenças, mas não através de decisões práticas ou silogismos. Então, em um sentido, somos passivos, não diretamente ativos, na nossa formação de crenças. Apesar disso, nossas crenças estão sob nosso controle (SOSA, 2011, p. 32).89
Os dois primeiros papéis da agência reflexiva são constituídos por metacompetência, e derivam seu sucesso dela: monitorar o ambiente e decidir sobre a confiabilidade das competências de primeira ordem, que pesam as evidências e formam as crenças. Porém, vimos que Sosa define um terceiro papel para a agência reflexiva: a separação das razões. Como dá-se esse controle sobre as razões? De onde vem a capacidade de evitar razões práticas e resguardar as razões epistêmicas, a fim de que nossa agência de primeira ordem manifeste nossa competência? Como podemos controlar as crenças sendo passivos na sua formação?
Sosa parece apelar para uma concepção de agência supressiva. Vejamos a definição de Hacker:
89 No original: “Moreover, epistemic competence is not actional. It is not instituted through positive, direct practical-syllogistic reasoning. […] Instead, epistemic competence results in beliefs, but not through practical decisions or syllogisms. So, in one sense we are passive, not directly active, in our belief formation. Nevertheless, our beliefs are under our control”.
[...] um agente pode também fazer algo que impede ou cessa a mudança que de outro modo ocorreria. Em tais casos de atuação impeditiva ou supressiva, o paciente [objeto da agência] é impedido de mudar ou mudar ainda mais. Isso pode ser feito pela ação no paciente, interferindo ou agindo em alguma outra coisa que, de outro modo, teria agido sobre o paciente (HACKER, 2010, p. 135).
E vejamos também:
Observe-se que o resultado da agência impeditiva ou supressiva é a não ocorrência de um evento que, de outro modo, teria ocorrido, o não início ou o término de um processo que, de outro modo, teria começado ou continuado, e a falha na obtenção de um estado que teria sido o caso de outro modo (HACKER, 2010, p. 151).
Assim, a agência reflexiva tem seu último papel como impeditiva de razões práticas na agência epistêmica funcional. Ela atua somente impedindo interferência nos casos em que há esse risco. O domínio epistêmico é resguardado dos interesses práticos e o conhecimento é adquirido ao evitar-se vieses e outros problemas de origem prática. Mas como a reflexão pode caracterizar esse tipo de agência? Qual a base para a manutenção de nossa agência epistêmica funcional?
Já vimos que, quando temos bons funcionamentos, somos bons agentes, consideramos as razões epistêmicas e formamos crenças adequadamente; não necessitamos da manifestação da agência reflexiva, ela permanece em um estado de monitoramento, sem necessitar de decisão alguma, pois temos bons desempenhos até que haja sinais para pensarmos o contrário.
Mas, quando esses sinais são percebidos, os desempenhos funcionais já estarão comprometidos com as razões epistêmicas que os motivam em busca da verdade, contrapostas a quaisquer razões práticas que os possam desviar. Então, seria inviável usar essas mesmas razões epistêmicas e contrapô-las às razões práticas, para permanecer na busca da verdade. É preciso que haja um segundo nível de motivação para a busca da verdade, que possibilite ao agente fundamentar sua agência epistêmica reflexiva:
Sendo assim, dois tipos de fundamentação motivacional podem subjazer a uma atitude que mantemos. A primeira é uma fundamentação constituída por razões baseadas nas quais o sujeito sustenta a atitude. A segunda é uma fundamentação constituída por razões baseadas nas quais nós nos abstemos de impedir (ou de mudar ou afetar de outro modo) a atitude, onde a atitude é então sustentada por padrão. O desejo puro, desinteressado, pela verdade pode motivar racionalmente a crença de alguém da segunda maneira. Pode ser uma razão baseada na qual alguém se abstém de afetar sua crença na
busca de objetivos pragmáticos, como o conforto. É claro, tudo isso é compatível com a noção de racionalidade epistêmica pura e com a possibilidade de que uma crença seja epistemicamente irracional, embora racional todas as coisas consideradas, onde essa última deve ser entendida como racional todas as considerações práticas feitas, inclusive o desejo pela verdade na questão em voga (SOSA, 2011, p. 33-34).90
É o desejo de busca da verdade, livremente escolhido, em segunda ordem, que orienta o agente para resguardar sua agência primária. Porém, vimos (subseção 2.1.3) que a liberdade na definição dos fins de uma diligência poderia levar à arbitrariedade. E, no domínio epistêmico, arbitrariedade não pode ser aceita, nossas atitudes e processos têm de ser motivados racionalmente: “Diligências fundacionais estariam desprovidas de bases motivadoras racionais para explicar o seu estatuto como racionais. Tais diligências pareceriam, assim, arbitrárias, e, portanto, irracionais” (grifo original, SOSA, 2012, p. 26). Como é possível, então, para uma diligência epistêmica livre não ser acusada de irracionalidade?
Sosa responde que “Diligências epistêmicas livremente racionais podem basear-se em desempenhos funcionalmente racionais” (grifo original, ibidem). Ou seja, a racionalidade pode basear-se no funcionamento, que é motivado pelas razões epistêmicas próprias daquela ocasião: “Funcionamentos fundacionais não partilham do mesmo estatuto problemático. Não envolvendo escolhas de todo, não envolvem escolha arbitrária” (grifo original, ibidem).
Além disso, formamos compromissos através das nossas disposições baseadas na vontade. Esses compromissos orientam nossas escolhas, manifestados nas ocasiões adequadas, em que devemos implementar atitudes específicas, a partir das disposições voluntárias. Igualmente, temos disposições voluntárias livres para implementar tais e tais desempenhos em ocasiões adequadas:
Aqui não adquirimos uma crença animal por meio do funcionamento apropriado “automático”, não livre, dos nossos mecanismos cognitivos. O compromisso, ao invés disso, é escolhido livremente, tal que o “mecanismo” é ele mesmo voluntário. O que esse compromisso governa, contudo, não é
90 No original: “All that being so, two sorts of motivational rationale can underlie an attitude that we hold. One is a rationale constituted by reasons based on which one holds the attitude. The second is a rationale constituted by reasons based on which we forbear from precluding (or from changing or otherwise affecting) the attitude, where the attitude is then held by default. The pure, disinterested desire for truth can rationally motivate one's beliefs in the second way. It can be a reason based on which one forbears from affecting one's beliefs in the pursuit of pragmatic goals such as comfort. Of course, that is all compatible with a notion of purely epistemic rationality, and with the possibility that a belief be epistemically irrational though rational all things considered, where this last is to be understood as rational all practical considerations considered, including the desire for the truth on the question at hand”.
crença animal armazenada automaticamente por meio do funcionamento apropriado das nossas faculdades animais. Antes, os nossos compromissos livremente escolhidos governam os nossos juízos livres quando sopesamos conscientemente uma questão à luz de todas as razões sincronicamente em vista (SOSA, 2012, p. 34).
Uma vez que tenhamos o compromisso de buscar a verdade sobre a questão, orientamos nossa agência reflexiva para atuar supressivamente e resguardar a agência epistêmica padrão (primeira ordem). Através dessa derivação, é que escolhemos buscar a verdade, deliberamos nosso ambiente e competências de primeira ordem e, assim, controlamos nossas crenças animais: “Agora [após a deliberação reflexiva], podemos sopesar novamente a crença no nosso resultado. E aqui podemos de novo exercer liberdade, à medida que está em nossas mãos acreditar no resultado. Dessa maneira, nós podemos controlar as nossas crenças animais” (idem, p. 33).
A agência reflexiva nesse último papel é livre, racional e garante nossos funcionamentos epistêmicos (agência de primeira ordem), através do impedimento de razões práticas.