5. Part I: From Experiential to Intellectual Ways of Knowing Nature
5.1.2 Living in living landscapes
No capítulo anterior fez-se breve referência à importância do silêncio no discurso diplomático. Com efeito, o silêncio comunica, repleto de peso e de significado, tal como a palavra proferida. No âmbito da Diplomacia, os silêncios são geridos de diversas formas. Numa primeira análise, pode compreender-se o silêncio de um soberano ao negar, ou protelar, uma audiência a determinado embaixador; mas também se deve ter em linha de conta o silêncio que o Embaixador opta por manter em determinada ocasião. Ampliando o elemento do silêncio a uma segunda linha de análise, este poderá ser voluntário ou involuntário. Veja-se, por exemplo, o caso dos embaixadores que aguardam com expectativa uma oportunidade para apresentar o seu caso a um soberano, o qual lhes nega essa possibilidade, mantendo-os, pois, num silêncio forçado, mas amplo de significado. Ou, tal como referido por Cimmieri, “language hides its message behind silence” (106).
À luz do exposto, veja-se a epígrafe que acompanha o presente capítulo: “Is it therefore / Th’ambassador is silenced?” (1.1.97,98). A situação que Shakespeare apresenta decorre do silêncio imposto ao embaixador francês em Inglaterra. A cena retrata a conversa entre o duque de Buckingham, o duque de Norfolk e Lord Abergavenny, genro
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de Buckingham. Todos discorrem sobre o encontro dos reis Henrique VIII de Inglaterra e Francisco I de França, organizado pelo cardeal Wolsey.27 Os interlocutores lamentam o poder de Wolsey e reconhecem que o entendimento com França não será duradouro, numa atitude de manifesta subversão do êxito diplomático que tal encontro representava para a carreira de Wolsey. É neste contexto que Lord Abergavenny se pronuncia sobre o silêncio do embaixador.
Considerando uma das possíveis fontes de Shakespeare para a composição da obra em apreço, Hall’s Chronicle, como se tornou mais amplamente conhecida,28 o autor relata: “The French Ambassador was commanded to keep his house in silence, and not to come in presence, till he was sent for” (Hall 3Q4r; fol. lxxxxiii). Nas notas que acompanham os dois versos em análise, Charles Symmons e John Payne Collier informam o leitor quanto ao seguinte: “The French ambassador, being refused an audience, may be said to be silenced” (139). O silêncio a que Abergavenny se refere nos versos em questão trata-se, pois, de um silêncio imposto ao embaixador, o qual se mantinha na expectativa de uma audiência com o rei.
Não pretendendo reformular a interpretação contextualizada dos versos em análise, gostaria de propor uma outra leitura, sugerida pelo contexto mais amplo oferecido pela relação entre o silêncio do discurso e do ofício diplomáticos e o estudo das características dos embaixadores portugueses na corte isabelina. A escrita nas entrelinhas, segundo Leo Strauss, consiste também em evitar críticas claras que conduzem à perseguição do autor (22-38). No contexto diplomático, a intercepção de cartas era sempre uma hipótese a considerar, especialmente tendo em conta a rede de inteligentia ao serviço de Walsingham.
Como se foi demonstrando ao longo da presente investigação e especialmente no decurso deste capítulo, os enviados portugueses à corte isabelina distinguiam-se dos seus homólogos espanhóis.29 Os últimos eram prolíferos autores tanto de cartas, como de cartografias. No domínio epistolar, escreviam com assaz regularidade ao soberano, de modo disciplinado: as cartas iniciavam-se, por norma, referindo a data e o teor da missiva
27 Tendo em linha de conta o contexto histórico, deverá tratar-se do encontro ocorrido em 1532, através do
qual Henrique VIII objectivava o apoio do rei francês junto do Papa Clemente VII, na causa do reconhecimento da nulidade do seu casamento com Catarina de Aragão.
28 A obra entitula-se The Union of the Two Noble and Illustre Families of Lancastre and Yorke, embora se
tenha tornado amplamente conhecida por Hall’s Chronicle, seguindo o nome do autor, Edward Hall.
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a que estavam a dar resposta, só depois passando aos assuntos que os ocupavam. No domínio da cartografia, as missivas eram ricas em detalhes e em descrições, prática idêntica, aliás de outros embaixadores na corte isabelina. A este propósito, Lauren Mackay nota:
… one of our most important sources of this period, Eustace Chapuys, who served Charles V as imperial ambassador, left the English court for Brussels and did not return for a year and a half. Tudor historians might have felt his absence more keenly were it not for the arrival of the new French ambassador Charles de Marillac.
Marillac, to the delight of the historian, had a penchant for detailed and witty descriptions… and we are particularly indebted to him for his detailed reports (History Extra “Through Foreign Eyes”, 30th November 2016).
Na abundância descritiva e detalhada da correspondência diplomática, os investigadores contemporâneos encontram vislumbres significativos sobre o passado, não só como contributos para reconstituir panoramas de ordem político-económica, religiosa, sociológica ou cultural, mas também quanto aos mais multifacetados elementos de ordem psicológica e emocional.
Não deixa de ser interessante notar como a ficção e a factualidade histórica se entrecruzam na obra de Shakespeare citada no presente capítulo:30 o embaixador Eustace Chapuys a quem Mason alude, encontra-se representado na personagem de Lord Caputius, o último visitante de Catarina de Aragão. Esta, por sua vez, a poucos dias de morrer, incumbe o embaixador de entregar uma carta ao seu tio, o Imperador Carlos V, ou seja, o embaixador emerge representado no cumprimento da sua missão de mensageiro. Ao contrário dos versos analisados que remetem o embaixador ao silêncio, neste passo Shakespeare eleva-o, pois apresenta-o como o portador da mensagem final de Catarina de Aragão (McMullan 206).
30 O título da primeira representação teria sido All is True, confirmando o interesse do autor pela
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