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Growing food, growing community?

5. Part I: From Experiential to Intellectual Ways of Knowing Nature

5.2.1 Growing food, growing community?

A análise dos incidentes que envolveram os embaixadores portugueses em missão na corte Isabelina permite-nos aprofundar uma outra matéria, relacionada com as circunstâncias e as condições de vida destes servidores governamentais.

A Torre do Tombo guarda nos seus arquivos uma carta de Francisco Giraldes datada de 22 de Agosto de 1579, quando já se encontrava ao serviço na corte francesa, expondo ao cardeal-rei D. Henrique as questões financeiras que o preocupavam.31 Vejamos, pois, a exposição de Giraldes:

Em virtude das cartas que Vossa Alteza escreveu a Domingos Leitão e a Estevão Nunes sobre o dinheiro que me haviam de pagar com as que recebi no… tempo de Vossa Alteza em Inglaterra, sobre este provimento me pagou em Londres Alonso de Basurdo por virtude do crédito que Domingos Leitão me mandou de quatro mil e cinquenta ducados… o ducado moeda de Flandres, novecentas e doze libras esterlinas treze soldos e seis dinheiros conforme… corria o câmbio… Em três mil e trezentos e dezoito cruzados e três terços de quatrocentos reis o cruzado, cobrado depois que cheguei a este Reino de França de Francisco Henriques por seu crédito… e que foram reduzidos por pessoas de bem, como por suas certidões aparece. De modo que somando… vem a fazer cinco mil e trezentos e noventa e três cruzados, pouco mais ou menos. Sem mos quererem mandar pagar as partes se lhes não dava uma minha obrigação para nos contos de Vossa Alteza lhes dar quitação de todo o dinheiro que por ordem de Vossa Alteza cobraram nestas partes, o que fiz, por [para] poder sair de Inglaterra e ter com que suprir a despesa que fiz de entrar

31 A citação da carta encontra-se em português contemporâneo, com adição de pontuação minha, a fim de

facilitar a leitura e a compreensão do conteúdo, bem como com todas as palavras escritas por extenso. Estas opções derivam do facto de a pontuação do manuscrito original ser praticamente inexistente, o português se mesclar com o espanhol e o italiano e ainda por Giraldes recorrer a muitas abreviaturas, designadamente “V.A.”, “dro”, “^q’”, as quais transcrevo por extenso (da minha autoria também) como “Vossa Alteza”,

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nesta corte… E convertidos em cruzados de quatrocentos reis montaram oito mil e duzentos e sessenta e cruzados, de que mandei então a conta aos oficiais da Fazenda de Vossa Alteza, como de novo lhe serão apresentadas com as demais por Mateus… da Costa, meu procurador, a fim de Vossa Alteza haver por bem que se me passe uma provisão para as [as contas] não ter em coberto [a descoberto; em dívida]. Porque juntando estas três partidas com os oito mil cruzados que Pero Vaz Pinto me trouxe este Janeiro… somariam vinte e um mil e seis contos e sessenta e um cruzados e tantos reis que tirados os doze mil deles que Vossa Alteza houve [teve; usufruiu] por seu serviço, que paguem deste dinheiro a conta de uma parte dos reditos que se me devem, do meu juro que tenho na Casa da India, ficariam somente nove mil e seiscentos e sessenta e um cruzados, dos quais desconto três mil de mercê que El Rei que Deus tem [D. Sebastião] me fez pela ajuda de custas… no mês de Junho do ano passado, como aparece pela portaria dela que no dito tempo passou. Disso o secretário Miguel de Moura, com mais mil cruzados para o caminho de Inglaterra [até] Paris, onde os gastei pela gente e casa… Entendendo-se mais na dita portaria haver sua Alteza por seu serviço que me provesse entrar a conta do meu ordenado seis meses adiantados… também Vossa Alteza de mercê ordenaria aos… seus embaixadores residentes dez mil cruzados… Pelo qual peço humildemente a Vossa Alteza de mercê mandar-me levar em conta o meu acustamento [ordenado] do ano sobredito, respeitando ser esta atenção [a intenção] d’El Rei que Deus tem, como merecimento dos meus serviços em que tenho continuado por tantos anos, com manifesta perda da minha fazenda e dívidas que para o sustentar tenho feito. E… que me possa valer dele, do ordenado que tenho vencido… visto ir-me sustentando de empréstimo e com penhores… para poder melhor cumprir com a minha obrigação e que perpetuamente terei com amor e felicidade as cousas de Vossa Alteza cuja vida Real Estado a acrescente Nosso Senhor por muitos anos (Corpo Cronológico1:111.71).

Giraldes vivia em circunstâncias económicas precárias, apesar do seu elevado estatuto enquanto diplomata. Recorde-se que o Plenipotenciário consistia no mais elevado cargo na hierarquia diplomática, uma vez que apenas estes representantes tinham a legitimidade de substituir o Rei, negociando e assinando Acordos e Tratados em seu nome. A carta de Giraldes parece indiciar um homem sério, que apresentava as contas

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com minúcia, detalhando as fases distintas dos pagamentos efectuados e os câmbios da moeda usada para tais pagamentos; parece indiciar ainda uma pessoa cautelosa, devido às inúmeras referências a terceiros – que atestariam a sua versão das transacções realizadas – e à própria legislação (“portarias”), fundamentando as contas que apresentava ao rei; deduz-se também que se trataria de um homem que sabia equilibrar a importância da função que desempenhava com a humildade que deve acompanhar quem serve.

No plano da contextualização teórica, importa considerar a missiva de Giraldes, com base nas práticas comuns da diplomacia do período pré-moderno. Uma vez mais, o estudo aprofundado de Mattingly em torno da diplomacia da época revela-se incontornável. O autor comenta:

It was the common practice of Christendom to pay ambassadors a stipend – usually quite modest – on a per diem basis. It was also accepted in law and in practice that an ambassador was entitled to the ordinary expenses of his journey and to indemnity for losses incurred in it. Once he had presented his credentials, his ordinary living and that of his suite would be, it was assumed, at the expense of the receiving government so that his per diem, plus expenses, made up a reasonable remuneration. But commonly the per diem, or most of it, was not payable until the ambassador’s return, and there was no clear rule about initial expenses (33).

Face ao exposto, antecipa-se, desde logo, que apesar de as questões financeiras de qualquer missão diplomática se encontrarem acauteladas, pela lei e pela prática comum das gentes, existia uma diferença significativa entre o plano teórico e o plano prático. Mattingly também nos elucida que qualquer embaixador encarava a possibilidade de embaraço financeiro no cumprimento da sua missão (222), tendo muitas vezes de adiantar dinheiro próprio (223) ou recorrer a empréstimos, os quais incluiriam o pagamento de juros, situação que só contribuía para agravar a precariedade económica destes agentes governamentais. Seria precisamente essa a situação do embaixador português quando enviou a carta ao cardeal-rei em 1579.

Através da missiva de Giraldes somos informados sobre importantes pormenores da vida de um diplomata português no período pré-moderno: o montante que Portugal pagava aos embaixadores residentes (dez mil cruzados); as despesas a pagar (casa,

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secretário, restante séquito diplomático, viagens); a forma como o pagamento era realizado (com atraso). Giraldes via-se, pois, forçado a adiantar o seu próprio dinheiro, ou a recorrer a empréstimos, os quais acabavam por se esgotar, mais cedo ou mais tarde. Como Mattingly observa, muitos embaixadores terminavam as suas missões mais pobres do que quando as haviam iniciado, e poucos lucravam com o serviço prestado ao monarca em solo estrangeiro, nomeadamente através da recompensa em forma de uma tença, uma comenda, ou até um título de nobreza:

A few… diplomats, like Walsingham, made a resident embassy a stepping stone to a lucrative career at court, but I know of no one except Chapuys [Charles V’s diplomat] who got rich at diplomacy itself (225).

Contudo, e não obstante o desastre financeiro que pairava sobre a vida da grande maioria dos embaixadores do período em apreço, Mattingly garante que a carreira diplomática continuava a atrair um conjunto de homens hábeis e brilhantes (225), embora raramente encontrassem nos seus soberanos qualidades correspondentes:

It is a tribute to the kind of loyalty which the new monarchies were able to command that this most crying imperfection of the princes, their inability to pay their most important servants abroad as regularly and faithfully as they paid their grooms and ushers, did not occasion more frequent derelictions of duty… Ambassadors often possessed secrets worth a fortune. Yet very few ambassadors proved corruptible. The imperfect princes were better served than their treatment of their servants seemed to merit (221).

Tendo em conta o que já conhecemos acerca da missão diplomática de Giraldes em Inglaterra e do homem que inferimos ter sido, o teor da sua carta não deixa de remeter o leitor do século XXI para um sentimento de consternação e até de alguma decepção. À luz da missiva, tanto o cardeal-rei D. Henrique, como o seu antecessor, D. Sebastião, terão provavelmente preenchido os requisitos de “príncipes imperfeitos”, referidos por Mattingly. Giraldes viu-se forçado a pedir, de forma humilde, que o soberano lhe pagasse

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o “merecimento dos [s]eus serviços”, ou seja, as remunerações em atraso – “do ordenado que tenho vencido” – e adiantasse as subsequentes, para assim poder cumprir a missão para a qual tinha sido enviado – “para poder melhor cumprir com a minha obrigação”. Tal facto denota que a corte portuguesa ainda tinha um longo caminho a percorrer até abarcar a importância, profunda e ampla, de manter os seus representantes diplomáticos em condições de vida honesta e condigna.