Chapter 2. State of the Art: Islam and individualization in the modern West/Europe
3.3 Lived religion
De acordo com a OMS, a LVSC se mostrou bastante eficiente, de baixo custo e não intrusiva. Estima-se que aproximadamente 15 a 25 bilhões de dólares poderiam ser economizados se a LVSC da OMS fosse implementada nas salas operatórias dos serviços de saúde dos EUA(204).
Embora a aplicação da LVSC possa parecer extremamente simples, seu desenvolvimento e uso consistem em uma questão bastante complexa na prática dos serviços de saúde(212), sendo necessários esforços intensivos para a incorporação do instrumento como um procedimento padrão em serviços de saúde. O motivo se deve a várias razões, envolvendo fatores sociais, culturais e operacionais. Alguns médicos, por exemplo, percebem a padronização como uma limitação para seus julgamentos clínicos(38, 198, 247).
Por outro lado, pesquisas recentes sugerem que os enfermeiros têm muitas vezes mais atitudes positivas em relação à LVSC quando comparados com os médicos, anestesiologistas e cirurgiões(211, 248, 249).
A LVSC para uso em sala operatória vem sendo bem difundida em serviços de saúde, mas, recentemente, surgiram questionamentos a respeito de sua facilidade de introdução em padrões de fluxo de trabalho e seu verdadeiro impacto na segurança(39, 211, 212). Muitos profissionais de saúde consideram a LVSC como redundante e alegam desperdício de tempo em sua aplicação, desconsiderando seu papel crítico na otimização da segurança dos pacientes cirúrgicos(250).
Apesar da existência de estudos mostrando que 90% dos médicos gostariam que a LVSC da OMS fosse aplicada se tivessem que se submeterem a um procedimento cirúrgico, estes profissionais ainda abrigam algumas reservas a respeito da LVSC(251, 252). Uma objeção comum é que alguns dos itens previstos na LVSC já são verificados na rotina do serviço, mesmo quando este instrumento não é
usado. Entretanto, muitas informações não são comunicadas de forma sistemática e a verificação repetida faz aumentar a segurança do procedimento cirúrgico(252).
O tempo previsto de checagem das três etapas da LVSC (Sign in, Time out e Sign out) na sala operatória leva apenas 2-3 minutos, entretanto, o tempo necessário para a checagem dos itens de segurança constitui um dos motivos para a falta de adesão à LVSC(39, 247).
Outras barreiras que podem impedir a adoção da LVSC na sala operatória ou causar preenchimento incompleto do instrumento envolvem: desconhecimento, embaraço, hierarquia, logística, duplicações de processos existentes, falta de comunicação e modificação da LVSC(39, 247).
Apesar dos esforços dos profissionais de saúde voltados para as conformidades com a segurança e metas de melhoria para a redução de EA, diversos estudos mostraram que a adesão da equipe cirúrgica aos itens presentes na LVSC ainda não é satisfatória.
Garnerin et al.(253) mostraram que a auditoria proveniente de 1.000 interações entre o paciente e o anestesiologista ou o enfermeiro levou a acentuada melhoria na conformidade dos critérios de qualidade, incluindo a taxa de adesão à identificação correta do paciente (9,7% to 38,1%). Entretanto, a adesão ao cumprimento de checagem do sítio cirúrgico foi considerada baixa (32,2% para 52,0%). De acordo com os autores, o impacto da intervenção foi limitado por problemas de comunicação entre pacientes e profissionais, acrescido da falta de colaboração com os serviços cirúrgicos.
Kasatpibal et al.(254) conduziram um estudo descritivo envolvendo 4.340 pacientes submetidos a procedimento cirúrgico em 9 unidades da Tailândia, no período de março a agosto de 2009. A adesão a alguns itens da LVSC foi considerada extremamente baixa, como na demarcação do sítio cirúrgico (19.4%) e checagem de imagens essenciais (64,4%). Os autores reportaram que os resultados obtidos podem refletir os diferentes padrões de trabalho e normas culturais entre as unidades.
Um estudo transversal analítico realizado de janeiro de 2009 a março de 2011, objetivando avaliar o grau de cumprimento das equipes cirúrgicas à LVSC e seu efeito sobre os resultados dos pacientes em 2 hospitais de ensino no Teerã, Irã, envolveu 100 pacientes submetidos a cirurgias eletivas, subdivididos em dois grupos (A - com adesão e B - sem adesão). As taxas de complicação foram 14 e 18 por 100
pacientes nos grupos A e B, respectivamente. Os resultados mostraram que antes da indução anestésica, a demarcação do sítio cirúrgico não foi realizada na maioria dos pacientes (76%). Na etapa de identificação, houve 100% de adesão à confirmação da esterilidade dos artigos e a menor adesão foi relatada com a checagem de problema a ser resolvido com equipamento, durante a etapa de registro pela equipe de enfermagem(255).
No estudo de van Klei et al.(256), a LVSC foi totalmente concluída pelos membros da equipe cirúrgica apenas em 39% dos casos (4.353 de 11.151 pacientes). O trabalho evidenciou que a média de itens concluídos foi 16 (73% de 22 itens).
De acordo com a pesquisa qualitativa de Rebelo(141), realizada em 2013, com o objetivo de identificar as práticas de segurança do paciente no Centro Cirúrgico, os cuidados que as equipes cirúrgicas não prestam de forma sistemática envolvem a verificação do consentimento informado, a checagem dos indicadores de esterilização e a contagem de instrumentais, compressas e agulhas. No estudo de Maziero(257), na totalidade das cirurgias observadas em que a lista de verificação foi aplicada, porém, os itens mais negligenciados foram a apresentação dos membros da equipe, a realização da pausa cirúrgica ao início da cirurgia e a contagem de compressas, gazes e agulhas.
A aplicação inapropriada da LVSC pode promover uma perigosa e falsa sensação de segurança e, assim, converter o efeito positivo da lista de verificação em seu oposto. O benefício mensurável da LVSC depende da melhoria em paralelo da cultura de segurança e da comunicação, mas isto não pode acontecer se os itens da lista são simplesmente checados(252).
Logo, a lista também ajuda a romper as barreiras hierárquicas que afetam a comunicação, permitindo a transferência de informações de forma mais frequente(252). A realização de instrução (briefing) com o auxílio de listas de verificação ajuda a manter uma cultura local de trabalho aberto, em que a formação é melhorada por meio da troca de informações, diálogo, e oportunidade de expressar a sua própria opinião(252)
Os itens da lista devem ser lidos em voz alta em sua totalidade e a lista não deve ser aplicada confiando-se apenas na memória. Um grave problema em particular surge quando o briefing não é levado a sério pelos funcionários em
posições de liderança, que, em seguida, deixam de servir de modelo para ajudar os outros a melhorar suas práticas de comunicação(252).
Com a crescente evidência de sua eficácia, a LVSC vem recebendo, gradativamente, uma maior aceitação pela equipe cirúrgica e muitos hospitais em todo o mundo já adotaram as LVSC na prática diária da sala operatória(250).
Cabe ressaltar que sem uma cultura de segurança organizacional e boa comunicação entre a equipe cirúrgica, a aplicação da LVSC nos serviços de saúde pode acontecer por mera formalidade, de maneira superficial, produzindo apenas uma ilusão de segurança(215).