Para o biólogo Humberto Maturana, viver é conhecer; o simples fato de um ser estar vivo já lhe condiciona a conhecer, pois seus órgãos dos sentidos estão abertos a captar impressões que ao serem processadas se tornaram o aparato de entendimento daquele ser sobre determinada coisa. Dentro do seu entendimento também não há uma separação entre sujeito e objeto, como entendia Descartes e outros que o antecederam e sucederam – isto é, não há o objeto fora do sujeito que conhece, formando duas entidades muito bem determinadas. Nesse sentido,
[...] falamos de progresso na ciência e tecnologia em termos de controle e dominação e não em termos de compreensão e coexistência responsável. As noções de controle e dominação implicam na negação do que é controlado e dominado, bem como em colocá-lo como algo diferente e independente de nós mesmos (MATURANA, 2001, p. 156).
Isto conecta-se com aquilo que Maffesoli (2005) argumenta, em outros termos, quando declara que o conceito quase sempre destrói o que conceitua, pois acaba alterando, separando o conceito do conceituado.
Segundo MATURANA (2001), há uma infinidade de domínios ontológicos – tomando a Ontologia como a busca do Ser – do que vai ser conhecido. Se existem domínios
ontológicos os mais diversos – todos igualmente válidos e legítimos, segundo esse biólogo –, então há capacidades diferenciadas de conhecer, pois, para esse autor, todas as explicações são reformulações da experiência. Assim, para Maturana, a ciência somente tem razão de ser dentro do domínio das explicações científicas – que é um domínio ontológico específico, mas em nada superior nem especial em comparação com outros domínios possíveis. Ou seja, para esse pensador, as explicações científicas foram feitas dentro de um encadeamento que não poderia não resultar em algo que já não esteja inscrito nas premissas. Portanto, a ciência não vale em um domínio que não esteja escrito nesses termos; ela só tem sentido dentro do seu domínio de funcionalidade.
O trecho a seguir, transcrito do livro Cognição, Ciência e Vida Cotidiana (MATURANA, 2001), mostra, em particular, uma relação com aquilo que falou Feyerabend (2007), sobre a inexistência do método geral da ciência:
[...] não há um único aspecto ou operação do critério de validação das explicações científicas que seja científico por si mesmo, e, portanto, não há operações tais como observações, deduções, confirmações ou predições científicas. Existem apenas explicações científicas enquanto proposições de mecanismos gerativos que são aceitas como válidas exclusivamente na medida em que são parte da satisfação do critério de validação das explicações científicas, e afirmações científicas enquanto afirmações que são aceitas como válidas porque surgem direta ou indiretamente como resultado da aplicação das explicações científicas (Ibid., p. 136).
Ao discutir a questão da realidade observada, criticando a noção de sujeito e objeto, Maturana (op. Cit.) faz uma distinção entre objetividade com parênteses e objetividade sem parênteses. Se considerarmos esta última, estamos admitindo que a realidade existe independentemente do observador, ela será apenas captada por ele. Mas, se optarmos pela objetividade entre parênteses, é porque entendemos que observador e realidade não são indissociáveis, a realidade é criada pelo observador na sua interação com o meio. Ou seja, “a distinção entre ilusão e percepção é feita pelo observador, não pelo sistema” (Ibid., p. 74). Quem distingue é o observador, criando suas escolhas, de forma que “[o] explicar é sempre uma reformulação da experiência que se explica” (Ibid., p. 29).
Em outras palavras, a objetividade sem parêntese, considera que existe um único domínio ontológico e este é de certa forma transcendente, ou seja, que “a existência precede a distinção” (Ibid., p. 31). Já na objetividade entre parênteses, há diversos domínios
ontológicos, pois “a existência se constitui na distinção” (Ibid., p. 31) feita pelo observador. Portanto,
[n]o caminho da objetividade sem parênteses, uma afirmativa cognitiva é válida porque faz referência a uma realidade independente do observador. No caminho da objetividade entre parênteses, minha afirmação cognitiva é válida pelas coerências operacionais que a constituem. Aqui, dou-me conta de que uma explicação é uma reformulação da experiência, e se repito as configurações operacionais que constituem minha explicação, obtenho o fenômeno que quero explicar (Ibid., p. 36).
Segundo o autor, “[q]uando os cientistas falam de buscar a verdade, certamente estão na objetividade sem parênteses” (Ibid., p. 52), sem atentarem para o fato de que “[...] não posso distinguir entre ilusão e percepção [...] [e que] a experiência não é o universo. [...] [Mas] o que acontece em cada um de nós” (Ibid., p. 54, grifos do autor). Essa constituição da experiência interna, do fenômeno como algo presente no sujeito e não no mundo externo, segundo Maturana, se processa através da linguagem, que “consiste num operar recorrente, em coordenações de coordenações consensuais de conduta” (MATURANA, 1998, p. 90), de ações.
Esclareça-se que o fato de que não podemos separar ilusão de percepção, não deve levar ao entendimento de que não podemos conhecer, devido a certa indefinição. Se atentarmos para o pensamento de Maturana, entenderemos que a ideia de indistinguibilidade entre ilusão e percepção surge a partir da aceitação da concepção de objetividade entre parênteses. Ou seja, quando considero que o conhecimento se constitui no âmbito do sujeito, na interação deste com meio, não há como falar em ilusão ou percepção, porque o sujeito não tem como fazer tal distinção, já que o conhecimento institui-se de forma instantânea pela experienciação. Tal distinção somente tem espaço quando considero o modelo realista ontológico, em que a existência precede a distinção.
Maturana (1998), em Emoções e linguagem na educação e na política, como em outras obras, expõe acerca da relação entre razão e emoção, colocando que devido ao fato de “[...] nos declararmos seres racionais vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção [...] não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional” (Id., 1998, p. 15). Ele defende, inclusive, que “[...] se queremos compreender qualquer atividade humana, devemos atentar para a emoção que define o domínio de ações no qual aquela atividade acontece [...]” (Id., 2001, p.
130). Ou seja, este pensador declara de forma enfática que “[...] não é a razão que nos leva à ação, mas a emoção” (Id., 1998, p. 23).
Como se vê, seu pensamento não se restringe apenas ao plano da epistemologia, da discussão acerca do entendimento humano, da relação entre experiência, sujeito e conhecimento, mas contém também proposições no que diz respeito aos sentimentos e às pulsões, sendo, nesse sentido, uma contribuição para se entender a vida como algo para além do racional. Ele critica com particular ênfase a competição e as relações hierárquicas autoconscientes, justamente por acreditar que são posturas que não consideram, nas suas práticas, o outro. A propósito, a respeito da analogia entre sociedade e natureza, como justificativa para o comportamento competitivo, ele sabiamente declara que os comportamentos dos animais não podem servir para isso, pois,
[s]e dois animais se encontram diante de um alimento e apenas um deles o come, isso não é competição. Não é, porque não é essencial, para o que acontece com o que come, que o outro não coma. No âmbito humano, ao contrário, a competição se constitui, culturalmente, quando o outro não obter o que um obtém é fundamental como modo de relação. A vitória é um fenômeno cultural que se constitui na derrota do outro (MATURANA, 1998, p. 21, grifos nossos).
Analisemos a partir de agora o artigo Distinguindo o observador: uma tentativa de interpretar Maturana (s/d, tradução nossa), escrito por Ernest Von Glasersfeld. Este pensador, conhecido construtivista, vê relações muito próximas entre suas posições e as propostas do biólogo chileno. Para ele,
[d]e acordo com Maturana, a cognição do organismo é fechada informacionalmente. Dado que ele pode, contudo, produzir descrições; i. e., conceitos, estruturas conceituais, teorias, e eventualmente uma imagem do mundo, está claro que somente pode fazer isso usando blocos de construção recolhidos através de alguns processos de abstração a partir do domínio de nossa experiência (GLASERSFELD, p. 1, grifos do autor, tradução nossa).
Segundo Glasersfeld, as coisas melhoraram em relação a questões de dogmatismos materialistas ou metafísicos, “[...] mas a aversão contra modelos de cognição que expõe o conhecimento como dependente do organismo e igualmente como produto de um circuito fechado de operações internas, não tem de nenhum meio desaparecido” (Ibid., p. 2, tradução nossa). Dentro daquilo que vimos observando e frisando, ele coloca que para Maturana,
as únicas realidades possíveis são realidades externadas por uma operação de distinção do observador. [...] na sua teoria, cognição não é um meio para adquirir conhecimento de uma realidade objetiva, mas está a serviço do organismo ativo em sua adaptação no mundo experiencial (Ibid., p. 3, grifos do autor, tradução nossa).
Nesse sentido, Glasersfeld diferencia este entendimento daquele exposto pelo modelo pragmatista, pois segundo este autor, o pragmatismo ainda “[...] alimenta a tentação do acesso a um mundo „objetivo‟” (Ibid., p. 2, tradução nossa), enquanto que no modelo epistemológico de Maturana, o conhecimento é produzido em associações internas do sujeito ao interagir com o ambiente. Ou seja, “[...] o que é observado não são coisas, propriedades, ou relações de um mundo que existe „como tal‟, mas, ao contrário, o resultado de distinções feitas pelo próprio observador seja ele ou ela” (Ibid., p. 2 – 3, tradução nossa).
Ainda sobre este ponto, recorrendo a suas origens construtivistas, Glasersfeld esclarece “[j]ustamente como Vico, o primeiro pensador construtivista, falou, [que] o sujeito cognitivo pode conhecer apenas fatos, e fatos são itens que o próprio sujeito tem fabricado (Latim: facere)” (Ibid., p. 3, grifos do autor, tradução nossa). Ele aclara ainda que isto é totalmente contrário ao “[...] princípio ontológico: penso logo existo” (Ibid., p. 3, grifos do autor, tradução nossa) de Descartes, pois pensar e existir são a mesma coisa para Maturana. Ou melhor, não há possibilidade de desconexão entre viver e conhecer, não há como o ser- vivo, de forma completa, se afastar da vida para raciocinar acerca dela. Como chama a atenção este construtivista, para Maturana, pensa-se ao viver – ou vive-se ao pensar, como se queira –, contrariando a ideia de que se pode pensar a vida, como se uma coisa pudesse ser separada da outra.
Para finalizar esta parte da discussão, diríamos que a originalidade do pensamento de Maturana, como ele mesmo declara (MATURANA, 2001, p. 113), está justamente no fato de ele inserir o aporte biológico na discussão sobre a concepção de realidade e a estruturação do conhecimento. Através das experiências sensoriais que realizou com animais (Ibid., p. 19 - 26), ele evidencia que a organização cognitiva dos seres vivos seria efetuada devido a associações internas, sendo o meio externo responsável apenas por impulsos. Isso lhe possibilitou abandonar a noção objetiva (que chama de objetividade sem parênteses) de conhecimento e realidade e conceber uma proposta que prime pela interação como forma de se chegar ao conhecimento.