Segundo esse pensador, na obra de nome Contra o Método (2007), os projetos científicos têm que ser considerados individualmente. Para ele, os eventos, os procedimentos, os resultados que constituem as ciências, os projetos científicos, são desiguais, idiossincráticos, não havendo um único método que esteja em todos eles. Para este físico e filósofo, “os eventos, os procedimentos e os resultados que constituem as ciências não têm uma estrutura comum; não há elementos que ocorram em toda investigação científica e estejam ausentes em outros lugares” (FEYERABEND, 2007, p. 19; grifos do autor). Ou seja, este autor coloca a ciência e, principalmente o método científico, em discussão.
Nesse livro, ele analisa casos da história da ciência relacionados com a revolução copernicana e a física galileana – o experimento da torre, seus novos instrumentos que acrescenta e novas interpretações, substituições aos anteriormente existentes –, mostrando que a ciência e suas teorias nem sempre, ou quase nunca, são construídas de forma linear, utilizando muitos outros atributos, além da racionalidade. Ele defende, portanto, “que pode haver muitas espécies diferentes de ciência” (Ibid., p. 21, grifos do autor) e “que o êxito da „ciência‟ não pode ser usado como argumento para tratar de maneira padronizada problemas ainda não resolvidos” (Ibid., p. 20).
Para ele, “[a] ciência é um empreendimento essencialmente anárquico” (Ibid., p. 25), ou pelo menos deveria ser. Defende para tanto a desvinculação da ciência de forças propagandísticas e ideológicas e, principalmente, a liberdade para se estabelecer outros sistemas epistemológicos igualmente válidos:
Mais uma vez, gostaria de defender dois pontos de vista: primeiro, que a ciência pode ficar em pé sobre suas próprias pernas e não precisa de nenhuma ajuda de racionalistas, humanistas seculares, marxistas e movimentos religiosos semelhantes; segundo, que cultura, procedimentos e pressupostos não-científicos também podem ficar em pé sobre suas próprias pernas e deveria ser-lhes permitido fazê-lo, se tal é o desejo de seus representantes. [...] Em uma sociedade democrática, instituições, programas de pesquisa e sugestões têm, portanto, de estar sujeitos ao controle público; é preciso que haja separação entre Estado e ciência da mesma forma que há uma separação entre Estado e instituições religiosas, e a ciência deveria ser ensinada como uma concepção entre muitas e não como o único caminho para a verdade e a realidade (Ibid., p. 8 – 9, grifos nossos).
Por tudo isso, é de fundamental importância que se perceba que o pensamento de Paul Feyerabend direciona-se a diversos contextos, ou seja, são críticas acerca da ciência enquanto forma de conhecimento e seu método, mas também sobre a componente social e humana das teorias, como também termina por valorizar outras práticas que não estejam pautadas neste ideário.
Para o autor, “[a] criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um e o mesmo processo indivisível e não podem ser separadas sem interromper esse processo” (Ibid., p. 12 grifos do autor). Ou seja, ele acaba por considerar que os encaminhamentos, em se tratando de ciência, não são feitos ao acaso, mas seguindo uma forma pré-determinada. E acrescenta:
[p]ode-se também perceber, por uma análise da relação entre idéia e ação, que interesses, forças, propaganda e técnicas de lavagem cerebral desempenham, no desenvolvimento de nosso conhecimento e no desenvolvimento da ciência, um papel muito maior do que geralmente se acredita (Ibid., p. 40, grifos do autor).
Percebe-se, como o próprio título da obra deixa transparecer, que a questão central para Feyerabend é mostrar que não há um método único na ciência, e que, portanto, “[u]ma descrição universal da ciência, de qualquer modo, pode no máximo fornecer uma lista de eventos” (Ibid., p. 15). Este fato determina “[...] que procedimentos „não-científicos‟ não podem ser postos de lado por argumentos” (Ibid., p. 20, grifos do autor), haja vista que a fluidez metodológica com que se dá a prática científica impossibilita uma demarcação segura. Isso precisa ser difundido, principalmente para os educadores, pois a crença de que a ciência possui um método único serve à sua estruturação enquanto forma hegemônica, contribuindo também para subjugar as demais formas de conhecimento.
Uma das declarações mais polêmicas e que é mais discutida, citada e criticada por estudiosos do pensamento desse anarquista epistemológico é aquela que diz que tudo vale. Analisemos então esta citação onde o autor expõe este seu entendimento:
[e]stá claro, então, que a idéia de um método fixo ou de uma teoria fixa da racionalidade baseia-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de suas circunstâncias sociais. Para os que examinam o rico material fornecido pela história e não têm a intenção de empobrecê-lo a fim de agradar a seus baixos instintos, a seu anseio por segurança intelectual na forma de clareza, precisão, „objetividade‟ e „verdade‟, ficará claro que há
apenas um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio de que tudo vale (Ibid., p. 43, grifos do autor).
Ora, com esta expressão este pensador está expondo que a única forma de – analisando de forma séria e procedente os conhecimentos construídos pela humanidade – entender que foram concebidos através de apenas um método de investigação, é considerar que tudo é válido, tendo em vista a profusão de formas de estruturação das investigações. Ou seja, tentando uma analogia na matemática, diria que, segundo o autor, não há como encontrar uma categoria metodológica que congregue em si todos os diversos métodos que se observa ao estudar a história do conhecimento racional ocidental humano, não há como observar um múltiplo comum entre todos estes métodos, sendo a única saída determinar, então, que tudo vale, que nada mais é do que a consideração de uma categoria virtual para dar conta da diversidade metodológica. Ou ainda, em outra analogia matemática, é como se na ânsia de caracterizar uma unicidade metodológica que seja universal e perene, cada pesquisa fosse colocada em um conjunto segundo o critério de semelhança de peculiaridades dos procederes metodológicos nela utilizados; neste caso, apenas o conjunto união de todos os conjuntos assim constituídos satisfaria aquela unicidade com as propriedades ansiadas – uma unicidade, enfim, caracterizada por todas as possibilidades metodológicas de que já se lançou mão em empreendimentos reconhecidos como científicos pela comunidade de cientistas, assim como de outras possibilidades que se criará (e, se necessário, se encaixará em novos conjuntos criados para abrigá-las; embora todos sendo, por definição, subconjuntos do conjunto união) sempre que necessário para dar conta da descrição científica específica almejada em uma dada (nova) pesquisa.
O que impede a percepção dos diversos métodos, concepções, e entendimentos, segundo Feyerabend, é o fato de que
[n]enhuma idéia é examinada em todas as suas ramificações e a nenhuma concepção são jamais dadas todas as oportunidades que merece. Teorias são abandonadas e substituídas por explicações que estão mais de acordo com a moda muito antes de terem oportunidade de mostrar suas virtudes. Além disso, doutrinas antigas e mitos „primitivos‟ só parecem estranhos e sem sentido porque a informação que encerram ou não é conhecida ou é distorcida [...] [O Vudu] é um exemplo característico. Ninguém o conhece, todos o citam como paradigma de atraso e confusão. [...] [Porque] a ciência é importada, ensinada e afasta todos os elementos tradicionais (Ibid., p. 66 – 67).
Portanto, a análise do pensamento de Feyerabend nos faz entender que seus entendimentos são, inclusive, contrários ao estabelecimento de um relativismo extremo que negue visões de mundo, mas contrariamente a isso, ele defende os conhecimentos diversos, cada um no seu universo. Ou seja, acredita que o “[...] relativismo oferece uma excelente explicação da relação entre visões de mundo dogmáticas, mas é apenas um primeiro passo em direção ao entendimento de tradições vivas [...]” (Ibid., p. 359, grifos nossos).