No estágio atual da civilização, onde imperam as rivalidades, as desigualdades, que nos são apresentadas como inevitabilidades; surge-nos como alento pensamentos e propostas como as desenvolvidas por Milton Santos. Ao analisar as “perversidades da globalização”, como “competição, consumo, confusão dos espíritos”, chamando a atenção para a “violência estrutural”, como também para a “pobreza estrutural”, o “território do dinheiro”, a “esquizofrenia do território” e “o imaginário da velocidade” (SANTOS, 2006, passim), este geógrafo sabiamente discute também a relação entre economia, conhecimento e sociedade. Digo, faz entender que, “[q]uando aceitamos pensar a técnica em conjunto com a política e admitimos atribuir-lhe outro uso, ficamos convencidos de que é possível acreditar em uma outra globalização e em um outro mundo” (Ibid., p. 125).
Percebamos, portanto, que o Pensamento Único, se pensado dentro de sua própria casa, não nos parece algo superior, mas participante de um projeto de mundo – do qual já falamos anteriormente. Ou seja, facilmente entendemos que “[o] saber ligado à „razão instrumental‟ é um saber ligado ao poder” (MAFFESOLI, 2005, p. 14).
Assim como Santos (op. Cit.) nos fala das verticalidades, da emergência do popular autêntico, dos conhecimentos relacionados de forma parental ao território, como forma de reagir ao globalitarismo, Maffesoli (2005), na defesa de um Elogio da razão sensível, nos incita a “[...] compreender que o racionalismo, em sua pretensão científica, é particularmente inapto para perceber, ainda mais apreender, o aspecto denso, imagético, simbólico, da experiência vivida” (Ibid., 27), justamente porque “[...] A vida não se deixa enclausurar” (Ibid., p. 47).
Maffesoli proclama a valorização do ser humano para além das classificações habituais, constatando, por exemplo, que “[o] indivíduo tem uma função [apenas] racional, [enquanto] a pessoa desempenha papéis emocionais” (Ibid., p. 107).
Em forma de denuncia, Boaventura Santos critica o surgimento do conhecimento regulação, e defende um outro ligado à emancipação. Segundo o autor,
[...] a ciência moderna se converteu em conhecimento hegemônico e se institucionalizou como tal. [...] [o] domínio global da ciência moderna como conhecimento-regulação acarretou consigo a destruição de muitas formas de saber sobretudo daquelas que eram próprias dos povos que foram objeto do colonialismo ocidental (SANTOS, 2005, p. 29 - 30).
Para este autor, em face do monoculturalismo, o conhecimento emancipação traria como características suas, o multiculturalismo, o conhecimento edificante e a acção rebelde (parafraseando-o) (Ibid., p. 30 - 32, grifos do autor). Para o sociólogo português, nesse panorama, “[a] distinção perde os seus contornos dicotômicos e assume a forma de um continuum” (SANTOS, 2004a, p. 45), pois
[o] conhecimento do paradigma emergente tende assim a ser um conhecimento não dualista, um conhecimento que se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias que até há pouco considerávamos insubstituíveis, tais como natureza/cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria,observador/observado, subjetivo/objetivo, coletivo/individual, animal/pessoa (Ibid., p. 64).
Enfaticamente ele pergunta: “Se as verdades científicas de um dado momento histórico têm sido refutadas em momentos posteriores, há algo mais na verdade do que a história da verdade?” (Ib., 2004b, p. 19). Em tom de resposta, o autor declara que
[o]s pressupostos metafísicos, os sistemas de crença, os juízos de valor, não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante dessa mesma explicação. A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade. Nada há de científico na razão que hoje nos leva a privilegiar uma forma de conhecimento baseada na previsão e controlo dos fenômenos. No fundo, trata-se de um juízo de valor. A explicação científica dos fenômenos é a autojustificação da ciência enquanto fenômeno central de nossa contemporaneidade. A ciência é, assim, autobiográfica (SANTOS, 2005, Pp. 83 - 84).
É preciso nesse instante, no entanto, fazer um adendo. Percebemos que a crítica de Boaventura Santos à ciência está no fato de que ela não seria a única forma para uma possível intervenção, transformação social. Várias são as evidências de que o autor teoriza que vivemos uma “transição paradigmática” (SANTOS, 2005, passim), evidenciando que vivemos uma transformação semelhante àquelas vivenciadas em épocas passadas. Ou seja, embora ele veja as incongruências e as deficiências da ciência, parece acreditar que o processo que ora se inicia é uma sequência do empreendimento moderno. Deixemos a palavra com o autor:
A ciência moderna teve de lutar com um inimigo poderoso: os monopólios de interpretação, fossem eles a religião, o Estado, a família, ou o partido. Foi uma luta travada com enorme êxito e cujos resultados positivos vão ser indispensáveis para criar um conhecimento emancipação pós-moderno (Ib., 2005, p. 95).
Percebemos que o autor continua com a concepção de luta, de progresso, de transformação social através da razão, terminologias e práticas totalmente tributárias do pensamento racionalista moderno. Isso fica claro quando ele coloca que,
[...] a razão criticada é uma razão cuja indolência ocorre por duas vias aparentemente contraditórias: a razão inerme perante a necessidade que só ela pode imaginar como lhe sendo exterior; a razão displicente que não sente necessidade de se exercitar por se imaginar incondicionalmente livre e, portanto, livre da necessidade de provar sua liberdade (Ibid., p. 42).
Portanto, nós concordamos com algumas colocações deste autor, como expomos acima. Concebemos também que o conhecimento científico-natural é científico-social (Ib., 2004a, p. 61), mas não consideramos que devemos “[...] romper com a primeira ruptura epistemológica [aquela que separou inicialmente ciência de senso comum], a fim de transformar o conhecimento científico num novo senso comum” (Ib., 2005, p. 107). Ou melhor, não há como isso ser feito, pois esses conhecimentos são produto de relações sociais diferentes, de forma que o conhecimento científico somente se tornaria senso comum caso as relações de sociabilidade, e os interesses da ciência, fossem drasticamente alterados, de forma que aí não seria mais ciência, mas sim senso comum.
Temos, sim, o intuito, na nossa postura revisionista, de trazer à tona o fato de que “[n]inguém vê que a ciência é ela mesma afásica. [Nem que] Bastaria que ela pronunciasse sua ausência de fundamentos e nenhuma realidade subsistiria. [Ou que] Ela calcula para não falar, sob pena de cair no vazio” (KLOSSWSKI apud DUPAS, 2006, p. 110). Ou seja, procuramos expor que “[a] ciência não teria nunca condições de fornecer um significado último para a vida, pois „a crença no valor da verdade científica é produto de determinadas culturas e não um dado da natureza‟ (Weber, 1991, p. 125-6)” (DUPAS, op. Cit., p. 133). É essa a discussão que queremos colocar, que consideramos decisivo trazer à tona.
Partindo de uma concepção plural, defendemos os diversos conhecimentos e formas de vida, o que nos faz concordar com Wittgenstein quando fala “[...] que é absurdo dizer [, por
exemplo,] que „a ciência provou que não há milagres‟. A verdade é que o modo científico de ver um fato não é vê-lo como um milagre” (WITTGENSTEIN, 2005, p. 223).