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Empiri

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Estes pensadores são participantes do que se convencionou chamar Escola de Bath, que tem como participante também David Travis (MATTEDI, 2006). Seus estudos em sociologia da ciência são compostos de análises de controvérsias na ciência. É preciso deixar claro que

[as] controvérsias científicas dizem respeito aos momentos do processo de produção do conhecimento nos quais os resultados estão ainda em debate pois as evidências empíricas permitem várias interpretações. Ainda não existe uma separação nítida entre o que é considerado como científico e o que não é, e o caráter inovador de uma teoria está sendo negociado por meio de compromissos e acordos produzidos ao longo de disputas nas quais alguns cientistas conseguem impor sua interpretação (MATTEDI, op. Cit., p. 174).

Como se vê, temos mais uma clara evidência da “[...] importância desempenhada pelas circunstâncias sociais na produção do conhecimento científico” (Ibid., p. 185), complementando as colocações feitas anteriormente por outros estudiosos do assunto em outros contextos.

Na obra intitulada O Golem: o que você deveria saber sobre ciência, Harry Collins e Trevor Pinch (2003) tratam de alguns casos relevantes da história da ciência que supostamente não possuem controvérsias e são totalmente aceitos e tidos como provados para aqueles que professam as ideias científicas de forma automática. Esses autores explicam que “[...] na tradição medieval, essa criatura de barro [o Golem] passava a ter vida quando a palavra hebraica emeth, que significa „verdade‟ era inscrita em sua testa” (Ibid., p. 20, grifos dos autores), e que escolheram esta analogia por acreditarem que a ciência acabou por ser considerada como tal, uma verdade absoluta, que ganhou autonomia e tornou-se

inquestionável, um empreendimento criado pelo homem e que supostamente é movido pela verdade, mas que de fato não sabe o que faz.

Os episódios históricos abordados nesse livro são os seguintes: Conhecimento comestível: a transferência química da memória; Dois experimentos que “provaram” a teoria da relatividade; O sol dentro de um tubo de ensaio: a história da fusão fria; Os germes da discórdia: Louis Pasteur e as origens da vida; Uma nova janela para o universo: a não detecção da radiação gravitacional; A vida sexual do lagarto rabo-de-chicote; e Acerte os controles em direção ao coração do Sol: a estranha história dos neutrinos solares perdidos (COLLINS e PINCH, op. Cit. passim).

Após analisarem cada questão, concluem, respectivamente sobre cada episódio citado acima, que: “A transferência de memória nunca foi de fato refutada, simplesmente deixou de ocupar a imaginação científica” (Ibid., p. 49); “[A relatividade] [f]oi uma verdade provocada por um acordo em concordar sobre coisas novas. Não foi uma verdade imposta pela lógica de uma série de experimentos cruciais” (Ibid., p. 84); “Na fusão a frio encontramos uma ciência normal [ávida por publicações e resultados, que nem sempre dão certo, como ocorreu no caso Pons e Fleischmann, e que não deve ser censurada como um caso particular]” (Ibid., 114); “Chegou-se então à conclusão sobre o debate [da origem da vida] como se os experimentos dos Pirineus [feitos por Pouchet sobre os experimentos de Pasteur] nunca houvessem existido” (Ibid., p. 128); “Depois da resolução [digo, decisão], tudo ficou esclarecido; os grandes fluxos de ondas gravitacionais não existem e diz-se que apenas cientistas incompetentes acreditam poder observá-los” (Ibid., p. 151); “Ambos os lados apresentaram suas versões da endocrinologia de Cnemidophorus em artigos separados no Scientific American e continuaram trabalhando [...] [como se nunca tivesse havido qualquer controvérsia científica entre eles]” (Ibid., p. 165, grifos do autores); “[...] a teoria da evolução estelar não foi derrubada; o resultado dos neutrinos solares foi tratado como anômalo, algo para ser deixado de lado por enquanto (Ibid., p. 187, grifos nossos).

Aparecem nessas análises indícios claros de que a ciência procede na construção das teorias de formas diversas: desconsiderando proposições que não foram, necessariamente, refutadas (nem no sentido idealizado por Karl Popper, nem em nenhum outro); evidências empíricas são envolvidas pelo peso da ideia geradora dos experimentos; formas gerais de procedimento sendo consideradas como episódio particular para manter um certo ideal de ciência; negação de experimentos que contrariam posições hegemônicas; constatação de uma “incompetência” constitutiva intrínseca dos experimentos (nas áreas científicas controversas), porque embora se argumente que estes provariam algo (segundo aquele ideal de “método

científico clássico” ainda tão propalado) se conduzidos de forma competente, na ciência controversa os envolvidos não concordam com o critério de competência, pois não confiam na qualidade do trabalho experimental dos opositores; embates sem soluções, como também a reorganização de teorias novas em detrimento de antigas (sem qualquer fundamento factual irrefutável, conforme o discurso pró-método promulga que as mudanças teóricas ocorrem).

Logo, para além das conceituações dos estudiosos, diríamos que a comunidade científica é capaz de mudar de opinião, método e ação de acordo com as forças psicológicas e sociológicas conservadoras envolvidas em uma determinada querela, sendo totalmente imprevisível a postura de tal comunidade.

Desta feita, a segunda parte do trabalho ora citado dos autores de Bath, diz respeito a encaminhamentos e discussão acerca da natureza da ciência. Segundo Collins e Pinch (2003), a ciência é um produto que, no geral, o cidadão tem acatado, tendo uma imagem caricata geral dominante sobre essa prática, que não corresponde ao que se conclui após uma certa aproximação.

Outro ponto interessante abordado por esses autores é o fato de acreditar-se que se o cidadão comum souber mais ciência, souber mais conteúdo de ciências, em vez de saber mais sobre ciência, terá condições de tomar decisões mais sensatas sobre assuntos científicos. Eles argumentam que constantemente presenciamos especialistas debatendo sobre questões científicas controversas e que – apesar da especialização dos debatedores – com frequência essas contendas não são solucionáveis. Para esses autores, abordagens sociológicas sobre a natureza da ciência ajudam a explicar porque as coisas acontecem dessa forma. Em particular, eles destacam que:

[...] todos os lados [...] [dessas] contendas têm um grau de conhecimento especializado muito superior ao que se poderia esperar que algum cidadão comum tivesse e todos os lados sabem como defender seus argumentos principais com clareza e sem falácias óbvias. [...] [O que se constata é que se] os cientistas na vanguarda da pesquisa não conseguem resolver suas diferenças profundas por meio de experimentos melhores, conhecimentos mais amplos, teorias mais avançadas ou raciocínios mais claros [...] [, então] [é] ridículo esperar que o público em geral se saia melhor (COLLINS e PINCH, 2003, pp. 195-196).

Com base nesse trabalho de Collins e Pinch, Luiz Carlos Jafelice desenvolve reflexões que convém destacar, pois são bastante pertinentes à presente discussão. Ele pergunta se ainda há quem acredite “seriamente que, por exemplo, decisões sobre o uso de transgênicos ou de

energia nuclear no Brasil serão tomadas principalmente com base em conhecimentos técnico- científicos em biologia ou física?” (JAFELICE, 2008a, p. 287). E elucida:

Tomando este último exemplo [física] para explicitar nosso ponto: qual professor de física do terceiro ano do ensino médio acredita que aquilo que ele trabalhou com seu aluno sobre conteúdos específicos de física nuclear, capacitará esse aluno a ter uma participação mais ativa e consciente, nas discussões das questões técnicas de física envolvidas, quando um ministro de ciência e tecnologia decidir que o número de centrais nucleares deve aumentar no país? Seria muita ingenuidade, ou opção ideológica, acreditar que decisões desse teor de fato acontecem amparadas essencialmente em questões conceituais e técnicas. Por outro lado, é igualmente um equívoco imaginar que naquilo que aquelas decisões possam depender de conhecimentos técnico-científicos específicos, nosso estudante, que só teve contato com física no ensino médio, e, neste exemplo, com física nuclear durante algumas aulas no ensino médio, terá condições de fundamentar sua participação cidadã naquele processo decisório com base no breve, senão muito precário, contato que teve com os conhecimentos requeridos para tal fundamentação (Ibid., p. 287).

O que o leva – e a nós – a reforçar os argumentos de Collins e Pinch, quando estes dizem que “para os cidadãos que desejam participar do processo democrático de uma sociedade tecnológica, a ciência que eles precisam conhecer é a controversa” (COLLINS e PINCH, 2003, p. 14). Para estes autores, é necessário “[m]udar a compreensão pública do papel político da ciência e da tecnologia” (Ibid., p.197), pois o conhecimento que “o cidadão comum precisa ter [...] para votar sobre questões técnicas [...] é sobre a relação entre os especialistas e os políticos, os meios de comunicação e o resto de nós” (Ibid., p. 196).

Retomando, então, nossa discussão mais acima, a conclusão a que Collins e Pinch chegam é a de que a ciência é uma atividade totalmente protecionista, no sentido de criar uma imagem que não necessariamente é aquela que salta aos olhos quando fazemos um estudo mais acurado. Eles argumentam que “[...] [q]uando algo dá errado na ciência, a comunidade científica reage como se um intruso invadisse um ninho de formigas” (Ibid., p. 192), destacando que este comportamento está presente também na divulgação científica que é feita através de demonstração ao público e pela televisão e, fundamentalmente, que é ensinada nas escolas. Enfim, para Collins e Pinch (2003),

[s]e quisermos entender como funciona a ciência, precisamos analisar como causamos [ou são causados] o aparecimento de montanhas e das novas elevações [no plano intelectual]. Para fazer isso devemos compreender a ciência que dá certo e a que não dá. Somente dessa maneira teremos a coragem de escalar as montanhas proibidas do passado e as que estão se

formando atrás de nós. Os exemplos que analisamos mostram que não existe uma lógica da descoberta científica. Ou, mais propriamente, se essa lógica existe então, ela é a lógica da vida diária (p. 192, grifos nossos).

Não entendemos com isso que os autores estejam defendendo que a ciência é uma extensão do senso comum, mas apenas que as controvérsias que existem na vida diária também se encontram presentes na atividade científica, na qual os “recursos” psico-sócio- metodológicos disponíveis não são essencialmente diferentes dos, muito menos superiores aos, que se dispõe na vida cotidiana.

Os autores prosseguem, discutindo sobre a separação entre “culturas” humanas e exatas, sobre o fundamentalismo científico, sobre as formas diversas de se ler uma informação, e sobre a física presente nos manuais. Acerca disto, especificamente, os autores declaram que

[a] história da física que importa fora da física tem de ser precisa quanto ao processo pelo qual os físicos chegam a suas conclusões. [...] Não se pode permitir que esses mitos [científicos criados pela história da ciência] dêem a impressão, fora da física, de que chegar a uma conclusão dentro de uma disputa sobre física é uma questão simples e direta, que não envolve um longo período de escolhas, argumentações e interpretações. O que importa na física, para os físicos, é o resultado de uma série de experimentos; o que importa sobre a física, para os não-físicos, é a maneira como esse resultado é alcançado (COLLINS e PINCH, 2003, p. 219, grifos nossos).

Na linha desta questão sobre a história da física, os autores esclarecem que existem diversos tipos de história da ciência. Há de se considerar cada tipo e suas características e fins, pois do contrário pareceria que há uma única história e que esta é totalmente isenta e sem objetivos:

[A história da ciência presente nos manuais] [n]ão é história de fato e sim ciência apresentada em estilo histórico [...] A história da ciência oficial distribui créditos e fornece a cada área sua própria auto-imagem. [...] A história da ciência dos revisores é, obviamente, escrita pelos revisores de cada especialidade. A revisão é uma tentativa de dar uma ordem científica a uma área que está confusa. [...] [A história da ciência reflexiva] tende a enfatizar determinadas características dos períodos da ciência com que lida, para extrair algum tipo de moral metodológica [...] A história analítica da ciência ajuda a compreender a natureza da ciência do ponto de vista das ciências sociais [...] [, que] lançam mão de descrições minuciosas da atividade científica em vez de reconstruções racionais. [...] [E] a história interpretativa da ciência, é o que tentamos apresentar em O Golem” (Ibid., p. 225 – 227, grifos nossos, exceto a palavra Golem).

Mediante mais esta exposição, podemos fortalecer o entendimento de que a ciência e sua história, ambos, são empreendimentos complementares, com uma forte componente de cunho social-corporativista, e que a história da ciência pode ser feita de diversas formas, seguindo diversos enfoques – vários deles nada neutros, apesar de se apresentarem como tal.

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