Em maio de 1856, Flaubert retorna a Croiset, cidade normanda onde vivia, e Madame Bovary é publicada em folhetim. Nesta ocasião, o autor constata efetivamente os ataques detratores que lhe eram endereçados, em função da publicação daquele romance, contra o qual foram movidos processos jurídicos. Entretanto, tinha em mente a preocupação de produzir o seu novo romance, de cunho histórico. Após haver publicado Madame Bovary, inicia então Salammbô. Em outubro de 1856, viaja para Paris, a fim de acompanhar as encenações de Madame de Montarcy, peça de Louis Bouillet, drama em cinco atos e em verso, cuja primeira apresentação ocorreu no Teatro do Odéon, em 6 de outubro daquele mesmo ano.66
Flaubert permaneceu em Paris devido a questões jurídicas relacionadas ao processo contra a publicação de Madame Bovary. Durante esta estada, pesquisou e recolheu documentos para a produção de seu novo romance. Além disso, retomara rapidamente La tentation de Saint Antoine, cujos fragmentos, da segunda versão, publicou em L’Artiste, de 21 e 28 de dezembro de 1856 e 11 de janeiro e 1º de fevereiro de 1857.
66 Cf. ABRAMI, 1936 [1910], p. 465.
Preocupado com o processo jurídico contra Madame Bovary e com a recepção de La tentation de Saint Antoine, Flaubert escreve a Sra. Pradier, em carta datada de 10 de fevereiro de 1857:
E depois o futuro me inquieta. Como escrever algo que seja mais inofensivo que a minha pobre Bovary... Eu tinha a intenção de publicar imediatamente um outro livro que me custou vários anos de trabalho, um livro feito com os Pais da Igreja, cheio de mitologia e de Antigüidade. É preciso que eu me prive deste prazer, pois ele me colocaria no banco dos réus, claramente. Não vou demorar a retornar de minha casa de campo, longe dos humanos, como dizemos em tragédia, e lá colocarei novas cordas em meu pobre violino, sobre o qual jogaram lama antes mesmo que se tenha ouvido a sua primeira nota!67
Na realidade, ele já objetivava escrever um romance cuja matéria seria de caráter histórico e orientalista, sobretudo após haver visitado determinadas regiões do Oriente, no norte da África, durante a sua primeira viagem à região, ocorrida entre 1849 e 1851, juntamente com o seu amigo Maxime du Camp. Em carta a Srta. Leroyer de Chantepie, datada de 18 de março de 1857, Flaubert afirma:
Dedico-me, antes de retornar ao campo, a um trabalho arqueológico sobre uma das épocas mais desconhecidas da Antigüidade, trabalho este que é a preparação de um outro. Vou escrever um romance cuja ação vai se passar três séculos antes de Cristo, pois tenho a necessidade de sair do mundo moderno, onde a minha pena muito mergulhou e que, aliás, fatiga-me tanto no momento em que o reproduzo quanto naquele em que o vejo.68
Em carta ao amigo Jules Duplan, de 10 de maio de 1857, Flaubert diz: Atenho-me, entretanto, a Cartago, e, custe o que custar, escreverei esta truculenta narrativa histórica [...] Estou lendo uma dissertação de quatrocentas páginas sobre o cipreste piramidal, porque havia ciprestes na corte do templo de Astarde.69
67 Correspondance, II, 1980, p. 679. 68 Correspondance, II, 1980, p. 691. 69 Correspondance, II, 1980, p. 713.
O autor de Salammbô leu A Bíblia, de Samuel Cahen70, As origens, de
Isadora de Sevilha71, Johannes Selden72, Silius Italicus73, Johannes Braun74,
entre outras obras. Em outra carta a Jules Duplan, datada de 16 de maio de 1857, escreve:
Estou atualmente afogado em leituras púnicas. Acabo de devorar subitamente os dezessete cantos de Silius Italicus, para neles descobrir alguns traços de costumes. Ufa! Ainda tenho dois belos meses de preparação. Estou bem preocupado, meu amigo, e meu suplício mal começou.75
Assustado com o trabalho de Flaubert, Jules Duplan o aconselha a abandonar o esforço e a retomar a obra que começara anteriormente, La tentation de Saint Antoine, ao que responde o autor de Salammbô: “Não! Saint Antoine já é um livro que, aliás, não penso em descartar. [Mas] Estou em Cartago e vou, ao contrário, trabalhar para nela me afundar o mais possível e me exaltar.”76 Em carta de 28 de maio de 1857, escreveu: “Eis
cinqüenta e três obras diferentes, das quais tenho tomado nota desde o mês de março; estudo agora a Arte militar [...] Quanto à paisagem, é ainda um pouco vaga. Ainda não sinto o lado religioso.”77
Até setembro de 1857, o escritor já havia imaginado vários cenários e desenvolvimentos para a narrativa de Salammbô. Acumulou vasta
70 Traduzida do hebreu, entre 1831 e 1851, em 18 volumes, e publicada em Paris. Possivelmente, Flaubert travou contato com esta obra através da indicação do amigo Ernest Feydeau (Histoire des usages funèbres et des sépultures de peuples anciens, t. II, p. 54 et suiv.). Cf. Correspondance, II, 1980, p. 1390.
71 Morta em 635 d.C. Escreveu vinte livros de Origens ou Etimologias, os quais possuíam um forte caráter enciclopédico. Cf. Correspondance, II, 1980, p. 1390.
72 SELDEN, Johannes. De Dis Syris syntagmata II. Londres: Stonesby, 1617, in-80, 268 p. Cf. Correspondance, II, 1980, p. 1390.
73 ITALICUS, Silus (21-101). Autor dos Punica, poema em dezessete cantos sobre a Segunda Guerra Púnica. Cf. Correspondance, II, 1980, p. 1375.
74 BRAUN, Johannes [Braunius]. Vestitus Sacerdotum Hebraeorum. Amsterdan: Someren, 1670-1680, 2 vol., in-4º?. Cf. Correspondance, II, 1980, p. 1390.
75 Correspondance, II, 1980, p. 715.
76 Carta a Jules Duplan, 20/05/1857, Correspondance, II, 1980, p. 721. 77 Carta a Jules Duplan, Correspondance, II, 1980, p. 726.
documentação e fontes. Já havia consultado cinqüenta e três obras distintas, inclusive A arte militar (século IV a.C.), de Sun Tzu. Pesquisou sobre a flora do deserto, destacando a da Tunísia e a dos arredores do Mediterrâneo. Escreve a Feydeau: “Eis aqui uma flora tunísea e mediterrânea muito exata, meu amigo. Mas é preciso, antes, [...] aprender isso”78. Em posterior carta a Duplan, datada de 16 de julho de 1857,
Flaubert ressalta: “Você sabe quantos volumes sobre Cartago devorei? Cerca de 100! E acabei de devorar, em 15 dias, os dezoito volumes da Bíblia de Cahen, tomando notas.”79 Em relação à Arqueologia, em uma carta datada
de 26 de julho de 1857, Flaubert diz:
Quanto à Arqueologia, ela será “provável”. Eis tudo. Desde que não provem que digo absurdos, é tudo o que peço. No que tange à botânica, não me preocupo. Vi com os meus próprios olhos todas as plantas e todas as árvores que eu necessitava conhecer.80
Em setembro, escreveu as quinze primeiras páginas do primeiro capítulo, tomando notas sobre o contexto histórico-geográfico de Cartago.81
Mais de cem volumes sobre Cartago são consultados, além de leituras de Políbio, Eusébio, Plínio, Plutarco. Em outra carta ao amigo, de 5 de outubro de 1857, Flaubert afirma que “a cada nova leitura, mil outras surgem! [...] Neste momento, estou perdido em Plínio [...] Preciso ainda consultar Ateneu e Plutarco e ler o Tratado da Cavalaria de Xenófones [...]”82. Perante este
desafio romanesco, não sabia até que ponto lograria êxito, haja vista a amplitude do trabalho.
78 Carta a Ernest Feydeau, 01/07/1857, Correspondance, II, 1980, p. 740. 79 Correspondance, II, 1980, p. 747.
80 Carta a Jules Duplan, Correspondance, II, 1980, p. 749. 81 Cf. ABRAMI, 1936 [1910], p. 466.
Conforme sublinha Abrami, ao acabar suas leituras, Flaubert entrevê outras dificuldades, sobremaneira ligadas ao estilo textual.83 Em carta ao
amigo Ernest Feydeau, de 6 de outubro de 1857, Flaubert confessa que: Há seis semanas, recuo como um covarde diante de Cartago [o título inicial doromance]. Acumulo notas e mais notas, livros e mais livros, pois não me sinto progredindo.Não vejo claramente meu objetivo. Para que um livro transborde em verdade, é preciso estar repleto de seu assunto até a alma. Então a cor vem naturalmente, como um resultado fatal e como um florescimento da própria idéia. Atualmente, estou perdido em Plínio, que releio pela segunda vez em minha vida de ponta a ponta. Tenho ainda diversas pesquisas a fazer em Ateneu e em Xenófones; além disso, há cinco ou seis dissertações [...]84
Perante o grande trabalho diante do qual se encontrava, recusa-se a abandonar o seu projeto romanesco. Mesmo sobrecarregado e cansado, o escritor persegue seu objetivo, em direção à concretização da obra. Durante o mês de novembro de 1857, o primeiro capítulo de Cartago estava acabado. Flaubert se interessava sobremaneira pela verossimilhança de sua narrativa, ligada ao contexto histórico-geográfico. Contudo, como observou Abrami, temia não expor plausivelmente a realidade da antiga cidade.85 Receava, por
exemplo, fornecer uma topografia diferente daquela vista nas paisagens desta região do norte africano. Flaubert, para assegurar-se do que escrevia, viaja para as ruínas cartaginesas, de modo a confirmar as suspeitas de sua imagem mental acerca da configuração geográfica da cidade púnica. Em carta a Srta. Leroyer de Chantepie, de 4 de novembro de 1857, escreve:
Comecei um romance antigo, há dois meses, cujo primeiro capítulo acabo de finalizar. Ora, não acho nada de bom nele, e me desespero dia e noite, sem chegar a uma solução. Quanto mais adquiro experiência em minha arte, mais esta arte se torna para mim um suplício: a imaginação permanece sempre estacionada [...] É uma
83 Cf. ABRAMI, 1936 [1910], pp. 465-466. 84 Correspondance, II, 1980, pp. 752-753. 85 Cf. ABRAMI, 1936 [1910], p. 467.
desgraça. Poucos homens, creio, terão sofrido tanto pela Literatura quanto eu.86
Em outra carta à amiga, datada de 12 de dezembro de 1857, Flaubert diz:
Sinto que estou errando, compreende? E que as minhas personagens não deviam ter falado assim. É [...] uma pequena ambição querer entrar no coração dos homens, quando estes homens viviam há mais de dois mil anos e numa civilização que não tem nada de análogo com a nossa. Entrevejo a verdade, mas ela não me penetra, falta-me a emoção.87
Flaubert tinha plena consciência da singularidade e estranheza da civilização que pretendia relatar e descrever:
O livro que escrevo agora está tão longe dos modos modernos que, nenhuma semelhança entre os meus heróis e os leitores sendo possível, ele interessará pouco. Não veremos nele nenhuma observação, nada do que gostamos geralmente. Será Arte, pura Arte e não outra coisa.88
Notemos, particularmente no trecho acima, o verdadeiro anseio de Flaubert: a exposição puramente artística do que almejava escrever e produzir, relegando, a patamares secundários, a exatidão histórica do seu relato e a reconstituição arqueológica de Cartago. Segundo Maurice Nadeau, o autor de Salammbô, mais do que saber o que escrever, pretendia ressaltar o valor estilístico do seu texto, tendo a exatidão do termo correto aplicado à idéia pretendida como fator decisivo. Assim, Flaubert procurava utilizar frases simultaneamente fortes e leves e, às vezes, parece associar os objetos descritos a imagens. Compreendeu que um escritor não é grande nem pela ambição, nem pelo assunto que expõe, mas pela expressão. Logo, sem estilo,
86 Correspondance, II, 1980, pp. 772-773. 87 Correspondance, II, 1980, p. 784.
não há escritor. A forma é o fundo. Para Flaubert, o Belo, o Verdadeiro e o Bem se equivalem.89
Visando a uma maior verossimilhança da topografia da extinta Cartago,Flaubert diz que: “é preciso absolutamente que eu faça uma viagem à África [...] Preciso somente ir a Kheff, passear pelas adjacências de Cartago [...] para conhecer a fundo as paisagens que pretendo descrever”.90 Em 12 de
abril de 1858, parte para o norte da África. Visita Constantino, Filipeville, Útica, Cartago, El-Jem, Souse, Sfax, Kheff, Túnis, Bizerta. Em uma carta à sua sobrinha, diz que: “desta forma, verei tudo o que me falta para Salammbô. Conheço agora Cartago e suas redondezas, a fundo”.91 Em 6 de
junho, retorna a Paris. Na referida carta, pela primeira vez, Flaubert menciona o nome Salammbô, que seria, posteriormente, o título do romance, que, anteriormente, era Cartago. Em Croiset, Flaubert desenvolve e finaliza as notas, recolhidas durante todo o seu percurso pelas ruínas da extinta cidade. Segundo ressalta Jacques Suffel, “malgrado suas incertezas, Flaubert se encerra em seu romance, como um monge [...]”.92
Concentrado em leituras sobre Cartago, Flaubert escreve ao amigo Théophile Gautier, em uma carta de 27 de janeiro de 1859:
Quanto a mim, há três meses que vivo completamente sozinho, mergulhado em Cartago [...] Levanto-me ao meio-dia e me deito às três da manhã. Não escuto nem barulho, não vejo nem um gato. Levo uma existência selvagem e extravagante [...] Não sei o que será de minha
Salammbô [...] Minhas personagens, ao invés de falar, uivam.93
Em outra carta, desta vez a Charles Baudelaire, datada de 19 de fevereiro de 1859, diz: “[...] Pergunta-me o que estou fazendo? Estou atrelado
89 Cf. NADEAU, 1969, pp. 71-72.
90 Carta a Srta. Leroyer de Chantepie, 23/01/1858, Correspondance, II, 1980, p. 795. 91 Apud ABRAMI, 1936 [1910], p. 468.
92 SUFFEL, Jacques. Flaubert. Paris : Éditions Universitaires, 1958, p. 61. 93 Correspondance, III, 1991, p. 11.
a Cartago. É um trabalho de dois ou três anos pelo menos.”94 O desespero de
Flaubert nesta empreitada romanesca parece beirar as raias da loucura. Estava intrinsecamente ligado ao seu projeto estético de um fazer literário perfeito, em que o Belo poético devia predominar. Como ele mesmo confessou ao amigo Ernest Feydeau, numa carta de 29 de novembro de 1859:
[...] É preciso ser absolutamente louco para empreender tal livro. A cada linha, a cada palavra, supero dificuldades para as quais ninguém será condescendente [...], pois se meu método é falso, a obra será descartada [...] Quando Salammbô for lido, não pensarão em mim, espero, no autor! Poucas pessoas adivinharão o quão foi preciso ficar triste para tentar ressuscitar Cartago.95
Em outra carta, diz: “[...] Salammbô me esgota. Não sei mais o que fazer com isso! Como é pesado querer fazer algo bonito [...]”.96
Durante os anos em que trabalhava para concluir a sua tentativa de evidenciar literariamente uma civilização tão obscura e longínqua no espaço e no tempo, Flaubert, em determinados momentos, autocriticava-se por não se achar conhecedor o suficiente de várias áreas do conhecimento: “[...] lamento não ser um sábio [...]”.97
Devido à extrema dificuldade do trabalho, Salammbô avança lentamente. Se a Arqueologia permanece arbitrária e passível de dúvidas, o substrato histórico do romance parece confiável. Em maio de 1860, Flaubert finaliza o capítulo VII: “Amílcar Barca”. Em outubro, finaliza o capítulo IX: “Em campanha”. Somente no final de 1860, chega às partes decisivas, atendo-se à produção dos capítulos X e XI.
94 Correspondance, III, 1991, p. 17. 95 Correspondance, III, 1991, p. 59.
96 Carta a Jules Duplan, 19/12/1860, Correspondance, III, 1991, p. 128. 97 Carta a Jules Duplan, 05/10/1860, Correspondance, III, 1991, p. 102.
Durante o mês de julho de 1861, escreve o capítulo XIII: “Moloch”, mas continua ainda tendo dúvidas se conseguiria finalizar a obra. Obstinado, e não pensando em abandonar o trabalho, diz em uma carta a Ernest Feydeau de 19 de junho de 1861: “Mas mesmo que eu precise ainda de dez anos, só voltarei a Paris com Salammbô concluída. É um juramento que fiz a mim mesmo.”98 Em determinados momentos, Flaubert, além do desespero,
sentia-se furioso com o árduo e interminável trabalho. Em outra carta a Feydeau, de 15 de julho de 1861, desabafa:
[...] Cartago me deixa furioso. Tenho agora várias dúvidas sobre o plano geral [...] Passo o dia me perguntando se sou um idiota e tenho o coração cheio de tristeza e de amargura [...] Começo agora o cerco a Cartago. Estou perdido em máquinas de guerra [...] e não compreendo nada [...] Para te dar uma idéia do pequeno trabalho preparatório que certas páginas me exigem, li, desde ontem, sessenta páginas [...] da
Poliocértica, de Juste Lipse. É isso.99
Finalmente, em abril de 1862, Salammbô é concluída. Antes de entregar o manuscrito para a publicação, Flaubert o revê totalmente. Neste trabalho suplementar, ainda relê frase por frase, atentando para as repetições, para as descrições. Em setembro de 1862, após algumas hesitações, decide publicar seu livro. A sua atitude é ainda mais rigorosa contra o editor, Michel Lévy, cuja opinião e crítica Flaubert não queria conhecer.100 Salammbô é publicada, finalmente, em 24 de novembro de
1862.
98 Correspondance, III, 1991, p. 158. 99 Correspondance, III, 1991, pp. 165-166. 100 Cf. ABRAMI, 1936 [1910], p. 474.