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DID THE SANCTION DESIGN MAKE THEM APPEAR INEVITABLE?

5. HYPOTHESIS 3: THE PERCEIVED INEVITABILITY OF SANCTIONS

5.1 DID THE SANCTION DESIGN MAKE THEM APPEAR INEVITABLE?

Desde cedo, Flaubert é atraído pelo Oriente, em grande parte, por seu caráter exótico, que não possuía paralelos de analogia cultural com a sociedade européia. Tratava-se de uma civilização diferente, portadora de um misterioso fascínio aos olhos do homem ocidental. Flaubert, possuindo um profundo desinteresse pela sociedade na qual vivia, a qual julgava mesquinha e estreita, vê, no mundo oriental, uma outra possibilidade de existência social, e até mesmo de fuga daquela sociedade. Para ele, o Oriente é uma possibilidade de evasão, de uma vivência segundo a expressão interna de seu eu, pleno de vitalidade imaginativa e artística, assaz descontente com a atmosfera burguesa ascendente.39

O Oriente, envolto numa grande camada interpretativa e mítica pelo imaginário do mundo ocidental, parece resumir, em milênios de história, uma outra realidade, imensa, misteriosa e desconhecida. Países como o Egito e a Índia, por exemplo, representam bem este imaginário. A civilização oriental, distante e exótica aos olhos do europeu, impactou e seduziu também o fazer artístico de literatos e de pintores, como, por exemplo, Chateaubriand, Victor Hugo, Eugène Delacroix e Gérard de Nerval. Assim como estes, Flaubert, na qualidade de escritor, não se furtou à admiração por esta região do mundo. Na realidade, o seu interesse pelo Oriente parece fortalecer-se no momento em que revê o amigo Maxime du Camp, que, em 1844, havia partido para Constantinopla e para a Argélia.

Confome lembra Nadeau, o retorno de Du Camp a Rouen, e o seu contato com Flaubert, proporcionaram a chance de entrar em maiores

detalhes sobre a experiência vivida no Oriente.40 Flaubert, diante dos relatos

do amigo, aviva mais o seu desejo de conhecer essa região. Assim, perante a possibilidade real de viajar para o mundo oriental, decide partir. A viagem que pretendia fazer não se fundamentava somente em seu anseio por conhecer uma civilização tão diferente, sedutora e distante, mas também em evadir-se dos ares deletérios da sociedade francesa, representada ostensivamente por uma burguesia hipócrita e crescente. Desse modo, pela necessidade de transportar-se para um meio totalmente distinto da realidade em que vivia, Flaubert viaja, pela primeira vez, para o Oriente.

Chega assim ao continente africano em 15 de novembro de 1849. Conforme afirma Nadeau, Flaubert “fica fascinado. Em Alexandria e no Cairo [...] encontra as paisagens e cidades, cem vezes imaginadas, [...] mas que [agora] encontra mais claras e tangíveis [...]”.41 Impressionado com a cor

local, com os costumes, vestimentas e com a arquitetura, Flaubert, sempre tomando notas, pretende tudo retratar. Descrevendo cada gesto, cada aspecto arquitetônico e decorativo, cada particularidade dos lugares por onde passava, comprova suas idéias que antes eram apenas imaginadas e possíveis. Na cidade egípcia de Kenek, Flaubert e Du Camp fazem inúmeras anotações. Flaubert preocupava-se, sobretudo, em fornecer às suas notas um caráter descritivo e fidedigno. De Alexandria, encantado com o rio Nilo, em carta de 17 de dezembro de 1849, escreve à sua mãe: “Maxime e eu vamos, pelos próximos cinco meses, viajar pelo Nilo [...] se a senhora soubesse como o Sol é belo! Que palmeiras! Que camelos!”42

40 Cf. NADEAU, 1969, p. 110. 41 NADEAU, 1969, p. 112.

Em 21 de julho de 1850, Flaubert e Du Camp chegam a Beirute. Em 20 de agosto, a Jerusalém, que, entretanto, não emocionou Flaubert: “Jerusalém me dá a impressão de um lugar fortificado. Tudo apodrece nela, os cachorros mortos nas ruas, as religiões nas igrejas. Há uma grande quantidade [...] de ruínas...”.43 Visitam outros lugares sagrados, como o rio

Jordão e Nazaré. Em 4 de outubro, após terem desistido, devido a problemas de transporte, da viagem pela Pérsia, chegam à cidade de Rodes. Durante a estada nessa cidade, Flaubert se ocupa também em planejar a criação de uma obra literária, cujo título inicial seria Anubis, que relataria a história de uma mulher amada por um deus. Esboça, assim, a trama do futuro romance Salammbô. Em 12 de dezembro, Flaubert e seu amigo chegam a Constantinopla. Visitam Santa Sofia e várias mesquitas. Nesta cidade, conhecem pessoas influentes como o general Upick, embaixador da França, e o Sr. Edouard Delessert, filho de um prefeito local. Deixando Constantinopla, Flaubert chega à Grécia. Em Atenas, admira os monumentos do Olimpo e as várias estátuas dos deuses da Grécia antiga. Fica particularmente fascinado pelo Panteão, que o inspira a afirmar que a Arte não é uma mentira: “[...] a vista do Panteão é uma das coisas que mais me penetraram na vida. Por mais que digam, a Arte não é uma mentira...”44

Em território grego, Flaubert conhece ainda outros locais sagrados e importantes como Eulesis, Delfos, Maratona, Esparta, Peloponeso. Segundo Nadeau, “a alegria [motivada pelas visitas] faz nascer nele um acréscimo de vitalidade, que o impele a misturar-se a músicos ambulantes [...]”.45 Em

43 Correspondance, I, 1973, p. 665. 44 Correspondance, I, 1973, p. 734. 45 NADEAU, 1969, p. 118.

fevereiro de 1851, antes que sua mãe fosse reencontrá-lo na Itália, onde ele desembarcara, Flaubert visita Nápoles e Roma. Em Nápoles, aproveita a sua estada de modo a conhecer ao máximo os seus pontos turísticos. Em Roma, conhece o Vaticano e outras cidades importantes da Itália, como Florença e Veneza. Em junho de 1851, Flaubert retorna a Croiset. Neste período, aproveita para fazer a revisão geral das notas feitas durante a viagem.

Esta primeira viagem ao Oriente durou pouco menos de dois anos (de 1849 a 1851) e provocou em Flaubert algumas mudanças. Após o longo período em que passou fora da França, parecia apresentar traços mais cansados e envelhecidos. Segundo o testemunho do amigo Du Camp, durante a viagem, Flaubert, aparentava, em vários momentos, pensar em assuntos desvinculados das experiências geográficas e etnológicas por que passava.46 Com freqüência, mostrava-se apático e mesmo aborrecido. Parece

que este abatimento era devido mais à reprovação, por parte de Du Camp e de Louis Bouillet, da primeira versão de La tentation de Saint Antoine.

As anotações diversas feitas durante a viagem demonstram a precisão descritiva que se configurará em Salammbô. Fixam gestos, atitudes, topografias variadas, sensações instantâneas, que “são de alguém que sabe ver e é cuidadoso em relação ao que observa, persuadido de antemão de que as suas imaginações deverão basear-se nesta realidade”.47 A aparente apatia

de Flaubert não se coadunava com seus impulsos internos de imaginação e de confirmação do que observava nas paisagens e nos costumes dos habitantes orientais, visto que, mesmo deprimido em vários momentos, não deixava de tomar amplas notas descritivas sobre tudo o que via. Du Camp,

46 Cf. NADEAU, 1969, p. 120. 47 NADEAU, 1969, p. 120.

com um aparelho de fotografia à mão e menos afeito a reflexões e descrições sobre o que via, não poderia, contudo, compreender a aparência de cansaço do amigo.

A viagem pelo Oriente, sobretudo a primeira, foi reveladora de uma confrontação constante com paisagens diferentes e inesperadas, e parece conduzir Flaubert a um embate constante consigo mesmo, permitindo-lhe uma auto-reflexão, na medida em que viveu uma experiência pessoal tão insólita, atrelada a um confronto com um mundo excêntrico, porém atraente. Assim, “a descoberta de aspectos estranhos, singulares, de um mundo tão exterior à sua província [Rouen] o conduz a descobrir e a afirmar aspectos que ele mesmo não conhecia”.48 Desse modo, o aspecto topográfico

que conheceu parece, de algum modo, relembrar pensamentos que possuía em sua própria pátria. Durante várias travessias pelo deserto africano, Flaubert o associva a paisagens normandas.49 Nesse trabalho associativo

entre paisagens diversas, o escritor se preocupa em tudo descrever, em seus mais ínfimos detalhes, de modo relatar cada topografia conhecida, cada gente observada. Portanto, Flaubert viu em sua viagem um forte terreno para o seu trabalho romanesco, mais precisamente para a futura obra que produziria anos depois: Salammbô.

Flaubert empreendeu outra viagem ao Oriente, em 1858, a qual durou três meses e que foi motivada pelo seu interesse em conhecer a extinta cidade de Cartago (atual Túnis), objetivando travar contato com o local onde se passariam as principais cenas de Salammbô, romance histórico que seria concluído e publicado em 1862. Assim, desejando fornecer ao romance

48 NADEAU, 1969, p. 121.

maior carga de verossimilhança, Flaubert, em 12 de abril de 1858, parte em direção à desaparecida cidade púnica. Nos sítios arqueológicos de Cartago, nas regiões do Sael tuníseo, do Kef e da antiga Sica, Flaubert impõe ao seu olhar a apreensão de várias imagens topográficas, as quais utiliza em determinadas descrições textuais e na localização de certos eventos do romance.

Tendo chegado a Túnis em 24 de abril, através de Filipeville, Flaubert pode, enfim, visitar e conhecer a extinta Cartago, as suas ruínas, os seus contornos exteriores arasados. Além da antiga cidade púnica, visita também El-Jem, Souse, Sfax, Kheff, Túnis, Bizerta e Sfax. Constata que o mar cartaginês é realmente azulado e vivo e observa também, do outro lado do golfo de Cartago, os dois cumes do Bou Kornein, os chifres divinos, e, depois, observa igualmente as falésias do Djebel Ressas, a montanha de chumbo. No Sul, a região de Zaghouan se alinha com o horizonte. Na parte plana da cidade, a linha curva do aqueduto romano mostra-se claramente. Em 22 de maio, Flaubert, a cavalo e sob forte escolta, desloca-se de Túnis a Constantina, onde continua a sua exploração. Em 6 de junho, Flaubert retorna a Paris.50

Esta viagem terá proporcionado ao escritor francês a possibilidade de confirmar o que imaginava e visualizava previamente acerca das paisagens púnicas e de conhecer efetivamente os cenários para o seu futuro romance histórico.

50 Cf. VERNIÈRE, Paul. Salammbô : introduction, p. 27. In : FLAUBERT, Gustave.